Comentário: Obama por Obama

Durante uma entrevista por telefone com o presidente Barack Obama, nesta terça-feira, sobre seu discurso para os árabes e muçulmanos, no Cairo, na quinta, eu tive de contar ao presidente minha piada favorita sobre o Oriente Médio. Ela o fez rir bastante.A história é assim:

The New York Times |

Há um judeu muito religioso chamado Goldberg que sempre sonhou em ganhar na loteria. Todo sábado (dia religioso de descanso para os judeus), ele vai à sinagoga em reza: "Deus, eu tenho sido um judeu tão religioso em toda minha vida. O que teria de ruim em eu ganhar a loteria?". Mas sempre que saía o resultado da loteria, ele nunca ganhava. Semana após semana, Goldberg rezava para ganhar a loteria, mas saía o resultado e ele não ganhava. Finalmente, em um sábado, Goldberg lamenta para os céus e diz: "Deus, eu tenho sido tão religioso por tanto tempo, o que eu tenho de fazer para ganhar a loteria?"

E os céus se abriram e a voz de Deus soou: "Goldberg, me dá uma chance! Compre um bilhete!"

Eu contei a piada ao presidente porque ao ler a imprensa árabe e israelense nesta semana, todos pareciam dizer a ele o que precisava fazer e dizer no Cairo, mas ninguém estava mostrando como eles iam dar um passo em direção a algo diferente. Todos querem paz, mas ninguém quer comprar um bilhete.

"Nós temos uma piada na Casa Branca", disse o presidente. "Nós só vamos continuar dizendo a verdade até que ela pare de funcionar - e ninguém está dizendo tanto a verdade mais importante do que o Oriente Médio".

Uma parte chave dessa mensagem, disse ele, será: "Pare de dizer uma coisa por trás das portas e dizer outra em público." Ele então explicou: "Há muitos países árabes mais preocupados com que o Irã desenvolva armas nucleares do que a "ameaça" que Israel representa, mas não irá admiti-lo". Há muitos israelenses, "que reconhecem que seu atual caminho é insustentável e que precisam fazer escolhas difíceis quanto aos assentamentos para conseguir uma solução de dois Estados - isso está no interesse deles a longo prazo - mas não há pessoas suficientes para reconhecer isso publicamente".

Há muitos palestinos que "reconhecem que o incitamento constante e a retórica negativa em relação à Israel" não têm trazido nenhum "benefício para seu povo e que se tomassem uma abordagem mais construtiva e procurasse uma patamar moral mais alto", eles estariam muito melhor hoje - mas eles não dirão isso em voz alta.

"Há muitos estados árabes que, particularmente, não ajudaram a causa palestina a não ser por meio da demagogia", e quando se trata de realmente fornecer ajuda financeira aos palestinos, eles não estão dispostos.

Quanto se trata de lidar com o Oriente Médio, apontou o presidente, "há uma dança Kabuki (do teatro popular japonês) acontecendo constantemente. É isso que eu gostaria ver acabar. Eu estarei segurando um espelho e dizendo: "aqui está a situação e os EUA está preparado para trabalhar com todas as soluções para lidar com esses problemas. Mas não podemos impor uma solução. Todos vocês terão de tomar decisões difíceis. Os líderes têm de liderar, e, esperançosamente, eles conseguirão o apoio de seu povo".

Ficou claro, nos 20 minutos de conversa, que o presidente não tem ilusões de que um discurso fará ovelhas deitarem ao lado de leões. Ao invés disso, ele ve isso como parte de uma abordagem diplomática mais ampla que diz: se você toma o rumo certo para a sala de estar das pessoas, não tenha medo de segurar um espelho para tudo que estão fazendo, mas também engaje-os de uma forma que diga 'Eu sei quem você é e o respeito". Você acaba - se nada mais - criando um pouco mais de espaço para a diplomacia dos EUA. E você nunca sabe quando isso pode ajudar.

"Como alguém que ordenou um adicional de 17 mil tropas para o Afeganistão", disse Obama, "você se sentiria pressionado para sugerir que o que estamos fazendo não está se apoiando em um poder firme. Eu dou um desconto a muitas dessas críticas. O que eu acredito é que se estamos engajados em conversar diretamente com as ruas árabes e eles forem convencidos de que estamos operando de uma maneira sincera, então, dentro dos limites, tanto eles quanto seu líder ficarão mais inclinados e dispostos a trabalhar conosco".

Da mesma forma, o presidente disse que se ele está pedindo ao líder alemão ou francês para ajudar mais no Afeganistão ou no Paquistão, "não improta se eu tiver credibilidade com o povo alemão e francês. Ele ainda ficará restrito às políticas interna e de orçamento, mas torna isso mais fácil".

Parte da "batalha americana contra os extremistas terroristas envolve a mudança de corações e mentes do povo que é recrutado por eles", acrescentou. "E se há um monte de homens e mulheres de 22 e 25 anos no Cairo ou em Lahore que ouve o meu discurso ou de outros americanos e dizem: 'eu não concordo com tudo que ele está dizendo, mas eles parecem saber quem eu sou ou parecem querer promover o desenvolvimento econômico ou a tolerância ou a inclusão', então eles talvez estejam um pouco menos
aptos a serem tentados por terroristas recrutas".

Eu acho que isso está certo. Um amigo egípcio me destacou para mim: não subestime o que pode crescer com as sementes quando os líderes americanos não apenas propagandeiam seus valores, mas visivelmente os demonstra.

Obama falará na Universidade do Cairo. Quando jovens árabes e muçulmanos veem um presidente americano que parece com eles, tem um nome como o deles, tem muçulmanos em sua família e vem ao mundo deles e fala a verdade, será perturbador e engrandecedor ao mesmo tempo. As pessoas se perguntarão: "Por que esse cara que parece com todo mundo nas ruas daqui
é o presidente de um mundo livre e não podemos nem tocar a liberdade?

Nunca se sabe onde isso vai dar.


Por THOMAS L. FRIEDMAN


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