Comentário: o preço psicológico da guerra

Eu não poderia ter ficado mais surpreso ao ler, na semana passada, que um soldado americano foi acusado de atirar em cinco de seus colegas, membros exército no Iraque. Que isso tenha ocorrido em um centro de aconselhamento para saúde mental na zona de combate, apenas serviu para adicionar uma camada de mordacidade e um elemento sinistramente irônico à essência da tragédia.

The New York Times |

O preço psicológico dessa guerra tola e aparentemente infinita tem sido grave desde seu primeiro dia. E a negação deliberada da nação quanto a esse preço tem sido tão grave quanto.

De acordo com autoridades, John Russel, 44, sargento do Exército que foi considerado como profundamente perturbado e estava em sua terceira jornada no Iraque, foi ao centro de aconselhamento na tarde de 11 de maio e abriu fogo ¿ matando um oficial do Exército, um oficial da Marinha e mais três soldados alistados. Os três alistados tinham 19, 20 e 25 anos.

Isso é o que acontece em guerras. As guerras são sobre mortes, e uma vez que a morte é liberada, muitas acabam acontecendo, de muitas maneiras. E é por isso que é tão doente lutar em guerras desnecessárias. E tão imoral mandar os filhos de outras pessoas para a guerra ¿ tanto psicológica quanto fisicamente - das quais seus próprios filhos são cuidadosamente protegidos.

As sobras do estresse psicológico das guerras no Iraque e Afeganistão são vastas, mas não havia razão para seus efeitos destrutivos terem surpreendido a todos. Houve diversas evidências de que esse seria um enorme problema. Falando do Iraque, em 2004, o Dr. Stephen C. Joseph, que foi assistente do secretário da Defesa durante a administração Clinton, disse: eu tenho uma grande sensação de que as conseqüências psicológicas serão a história médica dessa guerra.

Eu me lembro de ter escrito uma coluna sobre Jeffrey Lucey, 23, da Marinha, que estava profundamente deprimido e sofrendo uma desordem de estresse pós-traumático, ou PTSD, quando retornou do Iraque após servir nos primeiros meses de guerra. Ele descreveu eventos horríveis que enfrentou e o tornou duramente crítico consigo mesmo. Ele bebia em excesso, tinha pesadelos, afastou-se dos amigos e destruiu o carro da família.

Na tarde de 22 de junho de 2004, ele escreveu um bilhete que dizia: São 16h35 e eu estou perto de morrer. Então ele se enforcou com uma mangueira no porão da casa de seus pais.

Porque nós escolhemos não compartilhar os sacrifícios da guerra no Iraque e no Afeganistão, a sobrecarga desses conflitos ficou, desonestamente, nos ombros de uma pequena porção da população. Essa classe de guerreiros é tão pequena que algumas tropas tiveram de ser mandadas para zonas de combate viagem após angustiantes viagens.

Com o aumento de viagens, também aumentou os problemas mentais. Para começar, o combate está produzindo loucos. Viagens múltiplas à zona de guerra é uma receita para completar essa decadência.

A RAND Corp. (instituição sem fins lucrativos) informou em um estudo divulgado no ano passado que: não é apenas uma proporção maior de forças armadas a disposição, mas a uma disposição mais longa e a redisposição para o combate tem sido comum, e os términos entre os desdobramentos têm sido raros.

Tentativas recentes dos militares em lidar com alguns dos aspectos mais rudes das políticas de desdobramento juntaram muito do pouco e muito tarde. O estudo RAND descobriu que aproximadamente 300 mil homens e mulheres que serviram no Iraque e no Afeganistão já sofriam de PTSD ou depressão profunda. Isso é quase u em cada cinco veteranos que voltaram ao país.

As tragédias em massa produzidas pela guerra vão muito além das mortes em combate. Por trás da parede abstrata das estatísticas da RAND está o imenso sofrimento da vida-real de cada pessoa real. O preço inclui as vítimas de violência, alcoolismo, destruição de famílias e suicídios. A maioria das histórias nunca chega a ser impressas. O público professa tal admiração e apoio os quais nossos soldados, homens e mulheres, não estão interessados.

Outros estudos foram comparados ao da RAND, destacando o preço psicológico dessas guerras. Uma pesquisa da CBS News mostrou que veteranos de 20 a 24 anos apresentavam de duas a quatro chances a mais de cometer suicídio do que os não-veteranos da mesma idade. A revista Time cobriu uma história no ano passado que revelava pela primeira vez na história, o tamanho e crescimento do número de tropas de combate americanas que estavam tomando doses diárias de antidepressivos para acalmar os nervos, tensionados por causa das repetitivas e duradouras viagens ao Iraque e ao Afeganistão.

Estamos sacrificando brutal e friamente o bem-estar psicológico desses homens e mulheres, o que deveria ser um escândalo. Se essas guerras são tão importantes para nossa segurança nacional, todos nós deveríamos estar engajados em alguma forma de sacrifício grave, e muito mais de nós deveriam estar servindo no exército.

Mas o país acalma sua consciência e esconde sua culpa com a invocação covarde de que eles são voluntários. Eles sabiam para onde estavam indo.

Por BOB HERBERT

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