Comentário: o bumerangue de Gaza

Em uma época em que Israel está bombardeando Gaza para tentar acabar com o Hamas, é bom lembrar que Israel ajudou na criação do Hamas. Quando o Hamas foi fundado em 1987, Israel estava principalmente preocupado com o movimento de Yasser Arafat e descobriu que uma organização religiosa palestina ajudaria a questionar o Fatah.

The New York Times |

Israel calculou que aqueles fundamentalistas muçulmanos passariam o tempo rezando em mesquitas, então tomou medidas severas contra o Fatah e permitiu que o Hamas crescesse para ser um adversário.

O que estamos vendo no Oriente Médio é uma Síndrome do Bumerangue. Terroristas árabes conseguiram apoio dos políticos israelenses de direita, que tomaram ações duras contra os palestinos, que responderam com mais terrorismo, e assim por diante. Extremistas de cada lado sustentam o do outro, e os ataques excessivos por terra de Israel em Gaza provavelmente criarão mais terroristas no futuro.

Se esse padrão continuar, consequentemente, veremos movimentos palestinos como o Hamas enfrentando israelenses extremistas, com cada lado fazendo a vida do outro miserável ¿ e os políticos moderados no Oriente Médio sumirão da política.

Eu visitei Gaza no meio do ano e encontrei muitos palestinos ambivalentes de uma forma que os americanos e israelenses frequentemente não avaliam. Muitos habitantes de Gaza consideram o Fatah corrupto e incompetente e não gostam da repressão e do zelo extremista do Hamas. Mas quando estão sofrendo e sendo humilhados, eles encontram uma satisfação emocionada em ver o Hamas lutando de volta.

Claro que Israel foi realmente provocado nesse caso. O país procurou uma extensão de cessar-fogo com o Hamas e o Egito se ofereceu para mediar um ¿ mas o Hamas recusou. Quando se é bombardeado por seu vizinho, Israel tem que fazer algo.

Mas o direito de Israel fazer algo não significa que tenha o direito de fazer qualquer coisa. Desde que o bombardeio em Gaza começou em 2001, 20 civis israelenses foram mortos por foguetes ou morteiros, de acordo com os números dos grupos de direitos humanos israelenses. Isso não justifica uma invasão geral por terra que matou mais de 660 pessoas (é difícil saber quantas eram militantes e quantas eram civis).

Então o que Israel poderia ter feito de modo aceitável? Bombardear os túneis através dos quais armas eram contrabandeadas seria uma resposta proporcional, se Israel tivesse parado por aí, e o mesmo também para os ataques aéreos em certos alvos do Hamas.

E teria sido uma abordagem melhor liberar o cerco em Gaza, talvez criando um ambiente no qual o Hamas concedesse o cessar-fogo. Com certeza valeria a pena tentar ¿ e quase qualquer coisa seria melhor do que fazer um movimento que pode criar ainda mais bumerangues.

Essa política não está fortificando Israel, apontou Sári Bashi, diretor-executivo de Gisha, grupo israelense de direitos humanos que trabalha com assuntos de Gaza. O trauma que 1,5 milhões de pessoas estão sofrendo em Gaza terá efeitos prolongados na nossa capacidade de viver juntos.

Minha colega em Gaza trabalha para uma organização israelense. Ela está aprendendo hebreu e ela é exatamente o tipo de pessoa com a qual podemos construir um futuro. Toda vez que cai uma bomba, sua sobrinha de seis anos primeiro fica com medo e depois diz ¿ com esperança ¿ talvez agora as Brigadas de Oassam disparem foguetes contra os israelenses.

A estratégia de Israel tem sido fazer palestinos comuns sofrerem com a expectativa de criar danos contra o Hamas. Por isso, no começo de 2007, Israel cortou o abastecimento de cargas de bens essenciais para Gaza ¿ e por isso, hoje, como consequência dos bombardeios, 800 mil residentes de Gaza estão com falta de água, disse Bashi.

A política de Israel em Gaza tem sido marcada por uma política contra o Hamas, mas na verdade trata-se de uma política contra 1,5 milhões de pessoas em Gaza, disse.

Todos sabem que a solução mais plausível para a tensão no Oriente Médio é a criação de dois Estados como foi proposto pela linha do ex-presidente Bill Clinton. É difícil dizer como chegamos lá, mas um passo crucial é fortalecer o presidente Mahmoud Abbas e sua autoridade palestina.

Ao invés disso, relatos iniciais mostram que o ataque à Gaza está focando a raiva dos árabes pelo Abbas e vizinhos moderados como a Jordânia, levando a questionamentos sobre quem quer a paz.

Meu corajoso colega do The New York Times em Gaza, Taghreed El-Khodary, contou que um pai de 37 anos chorava sobre o cadáver de sua filha de 11 anos dizendo: De agora em diante, eu sou Hamas. Eu escolho a resistência.

Barack Obama falou relativamente pouco sobre Gaza. Primeiro, dadas as provocações do Hamas, foi compreensível. Mas com a invasão por terra custando mais vidas, ele precisa se unir aos líderes europeus e pedir por um cessar-fogo de todos os lados ¿ e depois que ele assumir a presidência, ele deve providenciar uma verdadeira liderança pela qual o mundo deseja.

Aaron David Miller, negociador dos EUA pela paz no Oriente Médio de longa data, lembra em seu excelente novo livro The Much Too Promised Land, que os presidentes deveriam oferecer a Israel amor, mas um amor agressivo.

Então, Sr. Obama, encontre sua voz. E demonstre esse amo rígido por Israel.


Por NICHOLAS D. KRISTOF

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