Comentário: Não tente isso em casa

JENIN ¿ Nos últimos dias algumas pessoas perguntaram se a secretária de Estado Hillary Clinton estava cometendo um erro enorme aos designar tantos ¿enviados especiais¿, como George Mitchell, para tratar de pontos-chave problemáticos, como o conflito entre israelenses e palestinos. Acho que estão certos em questionar Hillary sobre seus enviados. Mas não acho que o problema seja ela ter muitos; mas, sim, que ela não tem o suficiente.

The New York Times |

No caso do conflito entre Israel e os palestinos, ela deveria ter no mínino meia dúzia de enviados. Na verdade, esse conflito está agora dividido em tantas partes diferentes que o Departamento de Estado inteiro deveria resolvê-lo.

Juntamente com Mitchell, talvez Hillary quisesse colocar na lista Bill e Chelsea para ter sucesso em resolver esse caso, e também, definitivamente, Jim Baker e Jimmy Carter. Por que mais ela iria querer perguntar a alguns estranhos que ela encontra nos corredores do prédio do Departamento de Estado: Ei, você gostaria de viajar de graça para o Oriente Médio?

Claro, saber um pouco de história ajuda, mas compreender biologia agora é ainda mais útil ¿ por exemplo, saber que a ameba se reproduz se dividindo constantemente ao meio.

Por onde começar? Os palestinos agora se dividem entre Margem Ocidental e Gaza, com uma Autoridade Palestina secular com base em Ramallah, na Margem Ocidental e o governo fundamentalista do Hamas com base em Gaza. Mas o Hamas tem mais divisões entre sua milícia e seu braço político, e este é dividido entre a liderança com base em Gaza e a liderança com base em Damasco, e este segundo recebe ordens da Síria e do Irã.

Ainda estão acompanhando?

O máximo que posso dizer é que os palestinos de Gaza estão negociando um cessar-fogo com Israel, em Cairo. E, simultaneamente, insistindo em acusações de crimes de guerra contra Israel, na Europa. E cavando novos túneis no Sinai para contrabandear mais foguetes para Gaza para atacar Tel Aviv, e, além disso, estão tentando arrecadar dinheiro para a reconstrução do Irã.

Enquanto isso, os líderes palestinos da Margem Ocidental estão ocupados, publicamente, em coletar comida e cobertores para ajudar todos aqueles civis palestinos brutalizados pela incursão de Israel em Gaza. E, em particular, procurando saber dos oficiais israelenses porque eles se retiraram de Gaza e não tiraram o Hamas do mundo ¿ e malditas sejam as mortes.

Ao mesmo tempo, Israel tem um governo com um primeiro-ministro, um ministro do Exterior e um ministro da Defesa com planos de paz, estratégias de guerra e condições de cessar-fogo totalmente distintos um do outro. E esses dois últimos estão concorrendo um contra o outro, nas eleições de Israel, nesta terça-feira.

Falando dessa eleição, um partido totalmente novo, Yisrael Beiteinu, liderado por Avigdor Lieberman, que foi acusado de ter tendências fascistas e viciosamente anti-árabes, parece encabeçado em conseguir maiores ganhos e, possivelmente, se tornar quem escolherá o próximo governo de Israel. Há alguns dias, o líder do Partido Trabalhista, Ehud Barak, foi mencionado no jornal Haaretz chamando Lieberman de cordeiro em pele de lobo, perguntando: Quando ele atirou em alguém?

Como esse conflito ficou tão fragmentado? Para iniciantes, foi um caminho muito longo. A Margem Ocidental é tão recortada e dividida por estradas, postos de inspeções e cercas para separar os assentamentos insanos de Israel das vilas palestinas, que um palestino poderia voar de Jerusalém para Paris mais rápido do que levaria para ir de carro de Jenin, no norte da Margem, para Hebron, no sul.

Outra razão é que já se tentaram todas as idéias e elas fracassaram. Para os palestinos, já houve o pan-arabismo, o comunismo, o islamismo, mas não se conseguiu uma condição de Estado ou prosperidade. Como resultado, mais e mais palestinos retrocederam a uma lealdade familiar, de clã ou tribal.

Em Israel, a solução de dois Estados da ONG Peace Now foi destruída pelo fim dos acordos de paz de Oslo, o aumento das taxas de nascimento dos palestinos contribui com o plano de anexar a Margem Ocidental, uma ameaça mortal para os judeus de Israel. E os foguetes que se seguiram à retirada de Israel do Líbano e de Gaza ridicularizaram aqueles que disseram que a solução era a retirada unilateral.

Tudo isso levou à ressurreição da religiosidade. De acordo com Haaretz, as questões foram bem colocadas pelo rabino em um dos panfletos distribuídos pelo escritório do Exército israelense do chefe rabino, antes do último confronto em Gaza: É possível comparar os palestinos de hoje com os filisteus do passado? E se for, é possível aplicar lições de hoje a partir de táticas militares de Sansão e Davi? Uma comparação é possível porque os filisteus do passado não eram nativos e invadiram a partir de outra terra.

Quem no mundo gostaria de tentar consertar isso? Eu preferiria cuidar de gatos ou me tornar consultor de imagem de John Thain ou fazer uma colonoscopia ou me tornar chefe do banco mau que Obama deve criar para guardar todas as hipotecas ruins. Com certeza, qualquer uma dessas opções seria mais divertida. Se Mitchell ainda puder escolher, que Deus o abençoe. Minha próxima coluna olhará para alguns caminhos que apenas começamos.

Por THOMAS L. FRIEDMAN

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