Comentário: não é questão de raça

WASHINGTON ¿ Ninguém perceberia apenas olhando para mim, mas eu corro várias vezes por semana. Meu trajeto favorito é do Lincoln Memorial até o Capitólio dos EUA, ida e volta, porque ele é plano. Eu estava lá no sábado e me vi arrastando entre dezenas de milhares de manifestantes de oposição ao governo.

The New York Times |

Eles carregavam bandeiras escritas Não pise em mim, placas pedindo o Fim do Fed e sinais condenando o governo, Barack Obama, a reforma socialista no sistema de saúde e várias instituições elitistas.

Então, quando cheguei onde começava os museus Smithsonian, enfrentei outra corrida, a Comemoração da Família Negra. Milhares de pessoas se uniram em homenagem a cultura afro-americana. Eu percebi que a maioria dos manifestantes brancos do protesto anterior se confundia entre as pessoas, em sua maioria negra, que comemoravam a reunião da família afro-descendente. O pessoal do protesto comprava almoço das barracas de comida daqueles que comemoravam a família negra. Eles tinham unido o publico de um concerto de rap.

Já que a sociologia é mais importante que se exercitar, parei para assistir a interação desses dois grupos de dois espectros político e cultural opostos. Ambos eram energizados por oradores eloquentes. Ainda assim, eu não conseguia discernir tensão alguma entre eles. Eram apenas grupos diferentes de pessoas se apertando em um local como se fosse um parque ou uma arena de esporte qualquer.

E, apesar de vivermos em uma nação onde as pessoas veem todo conflito por um prisma de raça. Nos últimos dias, muitas pessoas, de Jimmy Carter para baixo, argumentaram que a hostilidade ao presidente Barack Obama é conduzida pelo racismo. Alguns argumentavam que os cartazes escritos Eu quero meu país de volta, no protesto, eram códigos da supremacia branca. Outros dizem que a indelicadeza no Capitólio é ampliada pela cor de pele escura de Obama.

Bem, eu não tenho uma máquina para examinar as almas dos críticos de Obama, então não poço medir o racismo que há neles. Mas minha impressão é de que a raça está de fora dessa questão. Há outras tensões igualmente importantes na história americana que são muito mais pertinentes aos conflitos atuais.

Por exemplo, por gerações as crianças estudaram sobre o longo debate entre os Hamiltonianos e os Jeffersonianos. Os Os Hamiltonianos defendiam a urbanização, industrialização e o poder federal. Os Jeffersonianos suspeitavam das elites urbanas e da concentração financeira e acreditavam em virtudes provincianas e um governo limitado. Jefferson apoiava um governo inteligente e simplificado, que impediria que as pessoas se prejudicassem, mas os deixaria livres e nunca tirar da boca do trabalhador o pão que ele ganhou.

A filosofia de Jefferson inspirou Andrew Jackson, que liderou o movimento de pessoas modestas contra as elites cosmopolitas. Jackson desmantelou o Second Bank of United States porque temia a fusão do poder federal com o financeiro.

A tendência populista continuou durante séculos. Algumas vezes tendia mais para a direita e, às vezes, para a esquerda. Em algumas, era agrícola, em outras, sindicalista. E na maioria das vezes era radical, conspiratória e agressiva.

A tendência populista sempre usou o mesmo tipo de retórica: para pessoas humildes e contra a classe educada e abastada, para as pequenas cidades e contra os centros financeiros.

E sempre teve a mesma moralidade, cujo historiador Michael Kazin chamava de producerism (radicalismo produtor, em tradução livre). A ideia é que o trabalhador é a essência do americanismo. As pessoas modestas, que trabalham e produzem a riqueza material, são a estrutura moral do país. Nessa nação livre e capitalista, as pessoas deveriam continuar responsáveis por seu próprio rendimento. O dinheiro não deveria ser redistribuído àqueles que não trabalham, e não deveria ser sugado pela elite manipuladora e condescendente.

Barack Obama lidera o governo dos mais bem educados. Seus movimentos incluem políticos urbanos, acadêmicos, doadores de Hollywood e profissionais da era da informação. Em seus primeiros meses, ele fundiu o poder federal com a Wall Street, a indústria automotiva, a indústria de sistema de saúde e do setor de energia.

Dado tudo isso, era óbvio que haveria uma repercussão populista, independente da cor de sua pele. E era óbvio que essa repercussão seria mal intencionada, conspiratória e exagerada ¿ já que esses movimentos sempre são, seja liderados por Huey Long, pelo padre Coughlin ou por qualquer outro.

O que estamos vendo é a mais recente interação da tendência populista com a reação militante progressista. Agora temos uma mídia populista que exagera a importância das histórias de Van Jones e ACORN (organização que apoia a reforma) para provar que as elites são decadentes e antiamericanas e que temos uma mídia progressista, que exagera histórias como a de Joe Wilson e da oposição ao discurso de Obama, para mostrar que os provincianos são estúpidos e tolos.

Alguém poderia argumentar que esse país está vivendo uma crise de legitimidade, escreveu o dono de um blog econômico, Arnold Kling. A elite progressista está começando a repudiar os ruralistas brancos, chamando-os de ilegítimos e vice-e-versa.

Não é uma questão de raça. É outro tipo de conflito, igualmente profundo e antigo.

Por DAVID BROOKS

Leia mais sobre Barack Obama

    Leia tudo sobre: conflitoobama

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG