Comentário: Na Índia não há espaço para terroristas

INDIA ¿ Nove corpos ¿ todos de homens jovens ¿ estão no necrotério do hospital de Mumbai desde 29 de novembro do ano passado. Eles devem estar abandonados no local há algum tempo, porque nenhuma caridade muçulmana quer enterrá-los em seu cemitério. Isso é uma boa notícia.

The New York Times |

Os nove são terroristas muçulmanos paquistaneses que cometeram assassinatos absolutamente brutais e insensíveis em Mumbai, no dia 26 de novembro ¿ esse foi o 11 de setembro da Índia. Eles atiraram em mais de 170 pessoas, incluindo 33 muçulmanos, muitos hindus e também cristãos e judeus. Foi matar por matar. Eles nem se importaram em deixar um aviso.

Todos os nove ainda estão no necrotério porque a liderança da comunidade muçulmana da Índia os chamou por seus verdadeiros nomes ¿ assassinos e não mártires ¿ e se recusa a permitir que eles sejam enterrados no principal cemitério muçulmano de Mumbai, chamado Bada Kabrastan com mais de 300 mil m², administrado pela mesquista Jama Masjid Trust.

Pessoas que cometeram esses crimes horríveis não podem ser chamados de muçulmanos, disse Hanif Nalkhande, porta voz de trust disse ao Times de Londres. Ele admite que no final das contas os paquistaneses terão de ser enterrados, mas os muçulmanos de Mumbai permanecem desafiantes.

Os muçulmanos indianos têm orgulho de ser muçulmano e indiano, e o terrorismo de Mumbai foi uma guerra contra a Índia e o Islã, explicou M. J. Akbar, muçulmano indiano, editor do Convert, publicação investigativa do país. O terrorismo não tem lugar na doutrina islâmica. O termo no Alcorão para o assassinato de inocentes é fasad. Terroristas são fasadis e não jihadis. Em um verso muito bonito, o Alcorão diz que assassinar um inocente é como se fosse assassinar toda a comunidade. Desde que... os terroristas não eram indianos, nem verdadeiros muçulmanos, eles não têm direito a um enterro islâmico no cemitério muçulmano da Índia.

Com certeza, os muçulmanos de Mumbai são uma minoria vulnerável em um país predominantemente hindu. No entanto, o desafio que eles impuseram aos terroristas islamitas se sobressaiu. Ele ressalta o cenário triste dos atentados suicidas geralmente cometidos por muçulmanos sunitas que atacaram civis em mesquitas e mercados ¿ do Iraque ao Paquistão e ao Afeganistão ¿ e mesmo assim foram tratados pela principal mídia árabe, como a Al Jazeera, ou por líderes espirituais extremistas do Islã, e por sites na internet, como mártires cujas ações merecem elogios.

Enaltecer ou colocar militantes suicidas como mártires levaram a esse fenômeno terrível ¿ no qual jovens muçulmanos, homens e mulheres, são recrutados para matarem a si mesmo e a outros ¿ que se espalha cada vez mais. O que começou tendo como alvo o Líbano e Israel, agora, se proliferou para se tornar uma ocorrência quase semanal no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão.

Isso é uma ameaça para qualquer sociedade aberta porque quando as pessoas colocam bombas em seus próprios corpos, eles não podem ser dissuadidos, e as medidas necessárias para pará-los seria procurar e suspeitar de todos em qualquer evento público. E eles são uma ameaça particular para as comunidades muçulmanas. Você não pode construir uma sociedade saudável com a presença de homens-bombas, cujo único objetivo é causar o caos, unicamente e indiscriminadamente, matando o máximo de civis possível.

Se os homens-bomba forem legitimados por uma comunidade ao atacar inimigos no exterior, isso acabará sendo usado como uma tática contra inimigos no próprio país, e isso é exatamente o que aconteceu com o Iraque, o Afeganistão e o Paquistão.

A única forma efetiva de acabar com essa tendência seria o povo ¿ a própria comunidade muçulmana ¿ dizer acabou. É mais importante que a cultura e a fé de uma comunidade deslegitimem esse tipo de comportamento, abertamente, publicamente e de maneira consistente, do que o uso de detectores de metal ou segurança extra. A religião e a cultura são as fontes mais importantes de contenção em uma sociedade.

É por isso que os muçulmanos da Índia, que é a segunda maior comunidade no mundo e uma das tradições mais profundamente democráticas depois da Indonésia, fazem um grande serviço ao islamismo ao deslegitimar assassinos suicidas ao recusar enterrar seus corpos. Esse problema não acabará da noite para o dia, mas com o tempo essa atitude pode ajudar.

Os muçulmanos de Bombai merecem ser parabenizados por tomar essa importante decisão, disse Raashid Alvi, membro muçulmano do Parlamento da Índia do Partido do Congresso. Os islamitas dizem que se você comete suicídio, você será punido mesmo após a morte.

A posição tomada pelos muçulmanos com certeza é, em parte, devido ao fato de que eles vivem em uma sociedade democrática e pluralista, e também são produtos dela e fazem parte de seu poder; Eles não são intimidados por líderes religiosos extremistas e não têm medo de falar contra eles, na frente dos mesmos.

É por isso que tão poucos, caso haja algum, muçulmanos indianos são conhecidos por terem se unido à Al-Qaeda. E é por esse motivo, que mesmo tendo um resultado escandalosamente caro e incerto, construir sociedades decentes e pluralistas em lugares como o Iraque, não é tão louco quanto parece. O povo é necessário, e sem as sociedades árabe-muçulmanas na qual a povoação sente o poder sobre suas vidas e em enfrentar seus próprios extremistas ¿ militarmente e ideologicamente ¿ essa tendência não irá acabar.

Por THOMAS L. FRIEDMAN

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