Comentário: Muito além do dia da eleição

Comentaristas conservadores se divertiram muito zombando o senador Barack Obama por dizer a frase: ¿a cruel urgência do momento¿. Apontando que a fala é originalmente do reverendo Dr. Martin Luther King Jr, Obama tornou-a fundamental em seus discursos, no começo da campanha.

The New York Times |

Os conservadores brincaram com a frase por todos os lados como uma bola de futebol. A cruel urgência do momento, eles dizem ironicamente. O que isso significa?

Bem, se sua casa está em chamas e sua família ainda está lá dentro, esse é um exemplo de uma cruel urgência do momento. É o mesmo caso dos Estados Unidos nesse momento em que os americanos estão indo às urnas para votar no que é, provavelmente, a eleição presidencial mais importante desde a Segunda Guerra Mundial. Séries impressionantes de crises estão ameaçando não apenas o futuro a curto prazo, mas também a existência da nação.

A economia está afundando na areia movediça. O setor financeiro, guardião da riqueza nacional, está se apoiando em um pacote de resgate de trilhões de dólares. As gigantes companhias de automóveis ¿ que por décadas representaram o poder, o combustível e o exaustivo orgulho da indústria americana ¿ está dependendo de recursos de ajuda.

Com a proximidade da temporada das férias de natal e das compras, a nação está cheia de empregos, o valor do lar familiar foi degradado, planos de aposentadoria estão encolhendo como cubos de gelo em um forno quente e economistas estão dizendo que a recessão está só começando.

É nessa atmosfera que os eleitores, nesta terça-feira, estão escolhendo entre as habilidades de gerenciar uma crise de Obama, que escolheu Joe Biden como vice, e os do senador John McCain, que busca uma salvação com Sarah Palin e Joe, o encanador, no reboque.

Apesar de essa escolha ter se tornado tão importante, a eleição

é apenas um primeiro passo pequeno. O que os americanos realmente têm de decidir é qual o tipo de país que eles querem. Neste momento os Estados Unidos é um país no qual a riqueza está concentrada, absurdamente, de baixo para cima. O 1% mais rico dos americanos possui 40% de toda a riqueza da nação e mantém um forte suporte do poder governamental.

Isso não é apenas injusto, mas também auto-destruidor. Os EUA não podem ter sucesso com essa inacreditável concentração de riqueza na classe mais alta e com a classe média a seus pés. (Ninguém nem se importa mais em falar sobre os pobres). Corrigir essa desigualdade é uma das maiores questões que o país enfrenta.

Os EUA também é um país no qual se celebra a ignorância feliz, enquanto a excelência intelectual (a chave para o avanço no século 21) não é apenas considerada pecaminosa, como também é ridicularizada. Paris Hilton e Britney Spears são ícones culturais. O americano comum assiste a uma televisão que não o faz pensar durante quatro horas e meia por dia.

Ao mesmo tempo, o sistema de ensino público é atormentado por uma das taxas mais altas de abandono do mundo industrializado. Matemática ou ciências? Esqueça! Muito complicado para esses espectadores de televisão ou chato demais ou qualquer outra coisa.

Quando comparo nossas escolas com o que vejo quando viajo para o exterior, disse Bill Gates, fico aterrorizado com nossa geração que trabalhará amanhã. O fato é que enquanto nos aproximados no fim da primeira década do século 21, os EUA está com grandes problemas. Ainda, ao invés de olhar para soluções criativas do século 21 para esses enormes problemas, muitos de nós supostamente chamados de líderes estamos nos comportando como palhaços ou pior ¿ espalhando lixo no espaço público que nos remete aos anos 40 e 50.

Homens e mulheres que pensam e são educados são colocados como elite e, consequentemente, um inimigo dos americanos normais. Tentativas de restabelecer uma imagem de sanidade fiscal para um governo que tem sido roubado com uma eficiência que seria invejada por muitos, são consideradas subversivas -  trabalho de socialistas, marxistas e comunistas.

Em 2008!

Na Carolina do Norte, a senadora Elizabeth Dole, republicana conservadora, está em uma difícil luta pela reeleição contra o senador democrata, Kay Hagan. Então Dole fez um anúncio na televisão que mostrava um close do rosto da Hagan enquanto a voz de uma mulher diferente afirmava Não há Deus!.

Os americanos têm de decidir se querem um país que tolera esse tipo de humilhação e de comportamento atrasado. Ou se querem um país que aspire uma verdadeira grandiosidade ¿ um país que busca mais do que um discurso de igualdade, liberdade, oportunidade e justiça.

Essa decisão irá exigir mais do que registrar o voto em uma eleição presidencial. Irá exigir uma boa reflexão e trabalho duro por cidadãos comprometidos. O grande compromisso dos EUA depende de um governo que trabalhe, aberta e honestamente, pelo amplo interesse dos americanos, se opondo aos benefícios para poucos favorecidos, para uma minoria rica.

Então, sem dúvida, vote hoje. Mas esse é apenas o primeiro passado para uma mudança significativa...

Por BOB HERBERT

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