Comentário: ideal de coletivo da China pode ser tão bom quanto individualismo ocidental

CHENGDU ¿ O mundo pode ser dividido de muitas maneiras ¿ os ricos e pobres, democráticos e autoritários ¿ mas uma das mais impressionantes é a divisão entre as sociedades com uma mentalidade individualista e as com uma mais coletivista. Essa é uma divisão que vai além da economia e aborda a maneira com que as pessoas percebem o mundo. Se você mostrar para um americano a imagem de um aquário, o americano provavelmente irá descrever o maior peixe que tiver e o que ele está fazendo. Se você pedir a um chinês para descrevê-lo, ele com certeza irá descrever o contexto no qual o peixe nada.

The New York Times |

Esse tipo de experiência foi feito várias vezes e os resultados revelam o mesmo padrão fundamental. Americanos normalmente vêem indivíduos, os chineses e outros asiáticos enxergam o contexto.

Quando o psicólogo Richard Nisbett mostrou a americanos figuras individuais de uma galinha, uma vaca e feno e pediu a eles escolherem dois que combinavam, os americanos, na maioria das vezes, escolheram a galinha e a vaca. Ambos são animais. A maioria dos asiáticos, por outro lado, escolheu a vaca e o feno, porque um depende do outro. Os americanos enxergam mais as categorias; já os asiáticos, as relações.

Você pode criar uma continuação global com as sociedades mais individualistas ¿ como os EUA e a Grã-Bretanha ¿ de um lado, e as mais coletivistas ¿ como China ou Japão ¿ do outro.

Os países individualistas tendem a colocar direitos e privacidade primeiro. As pessoas dessas sociedades tendem a supervalorizar suas próprias habilidades e superestimar a própria importância em qualquer atividade grupal. As pessoas em comunidades coletivistas valorizam a harmonia e a responsabilidade; elas costumam subestimar suas próprias habilidades e são mais autodestrutivas quando descrevem suas contribuições aos empenhos de grupo.

Pesquisadores argumentam porque certas culturas se tornaram mais individualistas do que outras. Alguns dizem que as culturas ocidentais puxaram seus valores da antiga Grécia, com ênfase no heroísmo individual, enquanto outras culturas se voltaram mais para filosofias tribais. Recentemente, alguns cientistas criaram teorias de que tudo se volta para os micróbios. Sociedades coletivistas tendem a aparecer em partes do mundo, especialmente perto da linha do equador, com várias doenças causadas por micróbios. Em tal ambiente, o normal seria afastar estrangeiros, que podem trazer doenças estranhas, e reforçar um certo conformismo em rituais de alimentação e comportamento social.

De qualquer maneira, sociedades individualistas tenderam a ir melhor economicamente. Nós do Ocidente temos uma história que envolve o desenvolvimento da razão individual e da consciência durante a Renascença e o Esclarecimento, e depois o florescimento subseqüente do capitalismo. Segundo essa narrativa, as sociedades ficam mais individualistas conforme se desenvolvem.

Mas o que aconteceria se as sociedades coletivistas rompessem com sua estagnação econômica? E se elas, especialmente aquelas da Ásia, ascendessem economicamente e se tornassem rivais do Ocidente? Um novo tipo de diálogo global se desenvolveria.

A ascensão chinesa

A cerimônia de abertura de Pequim foi uma declaração desse diálogo. Foi parte de uma declaração chinesa de que o desenvolvimento não acontece somente através de meios liberais e ocidentais, mas também pelos orientais e coletivos.

A cerimônia foi inspirada na longa história da China, mas com certeza o mais impressionante foram as imagens de milhares de chineses movendo como um só ¿ tocando e dançando juntos, correndo em formações precisas sem nunca tropeçar ou colidir. Nós vimos exemplos de consenso em massa antes, mas isso foi um coletivismo do presente ¿ uma visão tecnológica da sociedade harmoniosa apresentada no contexto do milagroso crescimento da China.

Se o sucesso da Ásia reabrir o debate entre o individualismo e o coletivismo (que parecia encerrado depois da Guerra Fria), então é improvável que as forças do individualismo tenham muita vantagem.

Por um lado, existem relativamente poucas sociedades individualistas no mundo. De outro, a essência de muitas das últimas pesquisas cientificas é de que a idéia ocidental de escolha individual é uma ilusão e os chineses estão certos de colocar ênfase, primeiramente, nos contextos sociais.

Os cientistas se satisfizeram em mostrar que a chamada escolha racional é moldada por um amplo leque de influências subconscientes, como contágios emocionais e efeitos de preparação (pessoas que pensam em um professor antes de fazer uma prova vão melhor do que pessoas que pensam em um criminoso). Enquanto isso, cérebros humanos se revelaram como extremamente permeáveis (eles imitam naturalmente as descargas neurais das pessoas ao seu redor). As relações são chave para a felicidade. Pessoas que vivem em redes sociais mais repletas tendem a florescer, enquanto aquelas que vivem com poucos laços sociais têm mais tendência à depressão e ao suicídio.

A ascensão da China não é somente um evento econômico. É cultural. O ideal da harmonia coletiva pode se revelar tão atraente quanto o chamado American Dream (Sonho Americano).

Com certeza é uma ideologia útil aos aspirantes a autocratas.

- David Brooks

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