Comentário: Gostaria que vocês estivessem aqui

E então aconteceu, essa convergência tão estranha. O feriado que comemora o aniversário do reverendo Dr. Martin Luther King Jr. se tornou, à meia noite, o dia em que o primeiro presidente negro dos Estados Unidos tomou posse.

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Presidente Lyndon Johnson com James Farmer
Presidente Lyndon Johnson com James Farmer

É um dia em que os sorrisos darão lugar às lágrimas e, então aos sorrisos novamente, um dia de comemoração e reflexão.

King teria 80 anos agora. Ele se elevou nacionalmente não tentando eleger um presidente afro-americano, mas apenas tentando acabar com a prática depravada de humilhação sofrida pelos negros de ficar em pé e ceder o assento no ônibus para uma pessoa branca, tanto homem, como mulher ou criança.

Levante-se, garota. Levante-se, garoto.

King tinha apenas 26 anos naquele tempo, um tesouro nacional vestindo um elegante chapéu de abas largas. Ele tinha apenas 39 anos quando foi morto, oito anos a menos que Obama agora.

Há tantos, como King, que gostariam de estar aqui para ver esse dia. Alguns eram famosos. A maioria não era.

Eu lembro de uma conversa há muitos anos com James Farmer, um dos quatro grandes líderes civis da metade do século 20 (os outros eram King, Roy Wilkins e Whitney Young). Farmer irritou as autoridades em Plaquemine, em Louisiana, em 1963, ao organizar manifestações que pediam o direito de voto aos negros. Cansados dessa afronta, multidões de tropas do Estado começaram a caçar Farmer de porta em porta.

A noite do sul tremia mais uma vez com choros de negros sendo abusados. Como Farmer descreveu: Eu deveria ter morrido naquela noite. Eles abriam as portas aos chutes, espancavam os negros nas ruas e os interrogavam com aguilhões de choque usados em gados.

Um diretor de uma funerária salvou Farmer fingindo que eles estava morto e colocando-o dentro de um carro que carregava os caixões, que levou ele pelas estradas e para fora da cidade.

Farmer morreu em 1999. Imagine se de alguma forma ele pudesse estar sentado em um lugar de honra na cerimônia de posse, ao lado de King, de Wilkins e de Young. Imagine as histórias, as brincadeiras e risadas, e a profunda emoção que acompanhariam suas tentativas de superar a descrença coletiva nas mudanças surpreendentes que eles lutaram tanto para conseguir.

E então, imagine um homem alto e branco sendo conduzido à presença deles, e os sorrisos calorosos de reconhecimento diante os quatro grandes ¿ e provavelmente as lágrimas ¿ para alguém que foi vergonhosamente desprezado por sua nação e por seu partido, Lyndon Johnson.

As contribuições de Johnson para a melhora da vida norte-americana não foi nada pouco. Para os negros, ele abriu as portas para a parte principal dos Estados Unidos com um esforço hercúleo que resultou no decreto da Lei dos Direitos Civis de 1964. E ele seguiu essa maestria com a Lei de Direito de Voto de 1965.

Assim que a voz do homem negro possa participar das eleições, teria dito Johnson muitos outros progressos se seguirão a este.

Sem Lyndon Johnson, Barack Obama e muitos outros teriam caminhado por uma trilha muito mais difícil.

Eu gostaria que Johnson pudesse estar lá, seu compromisso com os direitos civis publicamente justificados, seus olhos sem dúvida cheio de lágrimas, enquanto o juramento de posse fosse feito.

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(esq. à dir.) James Farmer, Roy Wilkins, Whitney Young e o rev. Martin Luther King


É tão fácil que a face imbecil do racismo quase nunca seja revelada abertamente, para se esquecer de quão longe nós viemos. Quando King fez seu discurso Eu tenho um sonho (I Have a Dream Speech) no Memorial de Lincoln em 1963, era ilegal que brancos e negros se casassem. Ilegal! Assim como atualmente é ilegal que homossexuais se casem.

Menos de um mês depois do discurso, membros da Ku Klux Klan bombardearam uma igreja de negros em Birmingham, no Alabama, onde crianças se juntavam para cerimônias religiosas. Quatro garotas foram mortas. Três tinham 14 anos e uma tinha 11.

Minha irmã, Sandy, e eu, crescemos em Montclair, Nova Jersey, subúrbio de Nova York, e fomos protegidos das piores formas de racismo por uma família que não deixaria nada, menos ainda toda aquela idéia maluca de superioridade genética, manchar nossa visão de mundo e de nós mesmos.

Meus avós, que se esforçaram durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, e meus pais, que trabalharam incansavelmente para nos dar uma educação maravilhosa naquelas décadas do pós-guerra, pareceram sempre acreditar que todas as coisas boas eram possíveis.

Mesmo que as portas da oportunidade estivessem fechadas, eles não acreditavam que estavam trancadas. Na visão deles, o trabalho duro sempre foi a chave.

Mesmo assim, a idéia de um presidente dos Estados Unidos negro nunca veio à mente. Talvez mesmo para eles, seria muita coisa para imaginar. Eu gostaria que eles estivessem vivido o suficiente para ver isso.


Por BOB HERBERT

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