Comentário: evitando o pior

Apesar de tudo, parece que não teremos uma segunda Grande Depressão. O que nos salvou? A resposta, basicamente, é o Grande Governo. Só para esclarecer: a situação econômica permanece terrível. Na verdade pior do que quase todos pensavam ser possível há algum tempo. A nação perdeu 6,7 milhões de empregos desde que a recessão começou.

The New York Times |


Ao levar em conta a necessidade de gerar emprego para uma população crescente de novatos, percebemos que provavelmente faltarão nove milhões de empregos para tais pessoas.

O mercado de trabalho ainda não melhorou ¿ aquela leve queda da taxa de desemprego no mês passado provavelmente foi um acaso feliz da estatística. Ainda não alcançamos o ponto em que as coisas realmente melhoram. Até agora, tudo que temos de comemorar são as indicações de que as coisas estão piorando de forma mais devagar.

No entanto, com tudo isso a última agitação nas notícias econômicas sugerem que a situação se afastou alguns passos da beira do abismo.

Há alguns meses, a possibilidade de cair nesse precipício parecia muito real. O pânico financeiro no final de 2008 foi, de certa forma, tão severo quanto o pânico bancário no começo dos anos 1930, e por certo tempo os indicadores econômicos principais ¿ comércio mundial, produção industrial mundial e mesmo o preço das ações ¿ estavam caindo tão rápido ou mais rápido do que em 1929 e 1930.

Mas na década de 1930 a tendência ainda era de queda. E, atualmente, o mergulho parece estar parando após apenas um ano terrível. Então o que nos salvou de um replay completo da Grande Depressão? É quase certeza que a resposta está na diferença da função cumprida pelo governo.

Provavelmente, o aspecto mais importante no papel do governo nesta crise não é o que ele fez, mas o que deixou de fazer: diferente do setor privado, o governo federal não cortou seus gastos com a queda da receita (o governo estadual e local são casos diferentes). As receitas de impostos foram baixas, mas os controles da Segurança Social ainda estão funcionando. A Medicare ainda está cobrindo os projetos dos hospitais. Desde funcionários federais a juízes e desde guardas florestais a soldados ainda estão sendo pagos.

Tudo isso ajudou a sustentar a economia em seu momento de dificuldade, de uma forma que não aconteceu em 1930, quando os gastos federais eram uma porcentagem muito menor do PIB. E, sim, isso significa que o déficit de orçamentos ¿ que é algo ruim em tempos normais ¿, na verdade, seja algo bom agora.

Além de ter esse efeito estabilizador automático, o governo deu um passo em direção ao resgate do setor financeiro. Você pode argumentar (e eu faria isso) que os pacotes de estímulo das empresas financeiras poderiam e deveriam ter sido mais bem negociados e que os contribuintes pagaram muito e receberam muito pouco. Ainda assim, é possível ficar insatisfeito, ou mesmo bravo, com o resultado desses pacotes financeiros, porque sem esses projetos as coisas teriam sido muito pior.

O fato é que dessa vez, diferente dos anos 1930, o governo não teve uma atitude indiferente enquanto o sistema bancário entrava em colapso. E há também o motivo de que não estamos vivendo na Grande Depressão 2.

Os esforços deliberados do governo para impulsionar a economia foram tardes e provavelmente o menor possível, mas de maneira alguma banais. Desde o começo, argumentei que a Recuperação dos EUA e o Ato de Reinvestimento, também conhecido como plano de estímulo de Obama, eram pequeno demais. Apesar disso, estimações lógicas sugerem que cerca de um milhão de americanos a mais que estão trabalhando agora, sem esse plano, não estariam ¿ um número que crescerá com o tempo ¿ e que o estímulo teve um papel significativo em tirar a economia de sua queda livre.

Então, de modo geral, o governo teve uma função crucial em estabilizar essa crise econômica. Ronald Reagan estava errado: às vezes, o setor privado é o problema e o governo, a solução. E você não ficou feliz que agora o governo está sendo dirigido por pessoas que não odeiam o governo?

Não sabemos o que as políticas econômicas de uma administração de McCain e Palin teriam feito. Contudo, sabemos o que os republicanos na oposição estão dizendo ¿ e eles estão reduzindo os pedidos para que o governo pare de ficar no caminho de uma possível depressão.

Não estou falando apenas da oposição ao pacote. Republicanos no comando de alguns cargos também querem acabar com os estabilizadores automáticos. Em março, John Boehner, líder da minoria na Câmara, declarou que dado que famílias estão sofrendo, é hora de o governo apertar os cintos e mostrar ao povo americano percebemos essa situação. Felizmente, seu aviso foi ignorado.

Ainda estou preocupado com a economia. Eu temo que ainda haja uma chance sólida de que o desemprego permaneça alto por um bom tempo. Mas parece que conseguimos evitar o pior: uma catástrofe absoluta não parece mais provável.

E o Grande Governo, dirigido por pessoas que entendem suas virtudes, é a explicação.

Por PAUL KRUGMAN


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