Comentário: Em louvor às zebras do Oscar

Por David Carr - Os obcecados pelo Oscar costumam fixar o olhar nos aspectos resplandecentes do evento: os vestidos glamurosos, as mega-estrelas que os usam, a caminhada dramática dos vencedores até o palco. Mas, ao fazer isso, muitas vezes acabamos perdendo os prazeres mais modestos e encantadores do ritual. Falando de uma maneira mais direta, quando algumas pessoas dizem que ficaram totalmente surpresas por receber uma indicação, isso é realmente o que elas querem dizer - e nós deveríamos ficar igualmente surpresos.

The New York Times |

Não veja como perdedores os indicados ao Oscar que não são os favoritos: apesar de menos conhecidos, estes concorrentes ainda fazem parte de um grupo ultra-seleto, dentre as centenas de filmes produzidos e as dezenas de milhares de pessoas que fazem parte deles. E, mesmo que estes indicados não venham a ter oportunidade de agradecer seus empresários e mães no palco das premiações, podemos todos ficar gratos que este grandioso espetáculo na verdade tem como efeito colateral a promoção de trabalhos impressionantes que foram criados, e até mesmo produzidos, bem longe dos grandes estúdios.

"O Lutador", por exemplo, foi elevado à consciência pública devido à indicação e à própria história de Mickey Rourke. Existem vários filmes e atores que oferecem à temporada de premiações um subtexto esmerado e muitas vezes enriquecedor, como Melissa Leo em "Rio Congelado", Richard Jenkins em "The Visitor" e Michael Shannon em "Foi Apenas Um Sonho".

Como protagonista de um filme que gira em torno de pessoas que vivem à margem da cultura e do país, Leo trouxe dignidade às lutas daqueles que moram nos trailer parks que avistamos quando estamos a caminho de algum outro lugar. De maneira extraordinária, ela deixa de lado as convenções de estrela, como a iluminação suave e a maquiagem elaborada, para fazer o papel de uma mulher de pouca sorte que acaba sendo empurrada para o contrabando humano. Leo vai se enfeitar toda para participar da cerimônia de entrega do Oscar no próximo dia 22, concorrendo na categoria de melhor atriz.

Courtney Hunt, diretora e roteirista do filme, também irá pisar no tapete vermelho, indicada ao prêmio de melhor roteiro original. Hunt passou um longo período em uma reserva indígena Mohawk e desenvolveu uma narrativa que foi primeiramente apresentada em forma de poema, depois como curta-metragem e finalmente como longa-metragem. Para realizar o filme, ela conseguiu levantar um pequeno financiamento independente de menos de US$ 1 milhão, encontrou pessoas de talento dispostas a trabalhar ganhando muito pouco e foi rápida nas filmagens (A propósito, o filme tem um roteiro com o qual ela poderia vencer).

Com todo o cinismo e razões que os telespectadores atribuem à Academia, é animador saber que os responsáveis pelas indicações perceberam o valor deste pequeno filme, que trata de grandes coisas. Durante as premiações do Screen Actors Guild no mês passado, entre entrevistas com Kate Winslet e Penelope Cruz, avistei a atriz Misty Upham, que faz parte do elenco de "Rio Congelado". A integrante da tribo indígena Blackfoot tinha acabado de sair da lavanderia onde trabalha. Conversamos um pouco sobre a vida em uma reserva indígena, sobre a indústria do cinema e sobre o fato dela estar mais acostumada a lavar delicados itens de vestuário do que a usá-los em um evento de premiações. Perguntei se ela estava se divertindo e ela fez uma pausa, olhando para o tapete vermelho onde pisava:

Como eu poderia não estar me divertindo?, ela respondeu.

É divertido ver alguém que conseguiu fazer as coisas acontecerem usando um traje glamoroso como se fosse uma roupa despojada qualquer, meio como fazendo uma travessura. Jenkins, indicado na categoria melhor ator por seu trabalho em "The Visitor", no qual faz o papel de um professor universitário que encontra propósito em um encontro por acaso, parece estar se divertindo mais do que todo mundo com isso. Quando as participantes do programa de televisão The View o entrevistaram recentemente, Whoopi Goldberg o perguntou sobre suas chances de vitória.

Não tenho a menor chance, disse ele, fazendo a platéia explodir em risadas. De certa forma, Jenkins já tirou a sorte grande. Um filme sobre pessoas que vivem à margem da sociedade poderia ter acabado na lata de lixos dos filmes bem intencionados, mas, ao invés disso, ele agora faz parte do bate-papo dos cinéfilos.

Poderiam até dizer que todos os indicados ao Oscar de melhor ator coadjuvante são perdedores já que Heath Ledger, no papel do Coringa em "O Cavaleiro das Trevas", é o grande favorito. Entretanto, muitos de nós ficamos satisfeitos com a indicação de Shannon, por sua atuação como um doente mental que tem uma propensão a deixar escapar verdades inefáveis.

Apesar de nem sempre fazer o papel principal nos filmes dos quais participa ¿ como em "World Trade Center", "Pearl Harbor" e "Possuídos" ¿, Shannon costuma atrair a câmera, em parte por sua altura avantajada e em parte por seu excesso de talento. Além disso, "Foi Apenas Um Sonho" não recebeu o devido reconhecimento nesta temporada, então partidários do filme poderão ter alguma satisfação com sua presença nas finais.

Às vezes não são os atores que arrastam o público ¿ e a Academia ¿ para os filmes, mas os filmes em si. Se você fosse convidado para assistir um documentário em animação sobre a memória de um soldado sobre a invasão israelense do Líbano em 1982, você ficaria louco de verdade para ir? Provavelmente não, mas, agora que "Waltz With Bashir" foi indicado na categoria melhor filme de língua estrangeira, talvez você preste atenção em todos da crítica que vêm fazendo alarde do mesmo.

O mesmo vale para "The Class", filme francês sobre um professor em uma luta corpo-a-corpo com o verdadeiro significado da palavra diversidade em uma sala de aula poliglota dos tempos atuais.

"As Águas de Katrina", documentário que mistura filmagens amadoras e profissionais sobre as conseqüências do furacão homônimo, causou muito estardalhaço no festival de Sundance. Entretanto, apesar de chamar a atenção de cinéfilos aficcionados por documentários, a envolvente estória pessoal contada no filme não teve o mesmo reconhecimento dos organizadores do Oscar. "Encounters at the End of the World", outro documentário indicado, nos faz lembrar mais uma vez que Werner Herzog está entre os roteiristas mais espetaculares de nossos tempos, não obstante a forma.

É claro que sempre vai haver a opulência margeando o caminho da indústria cinematográfica, mas o expectador poderá se livrar dela dedicando tempo e esforço para ir além das grandes salas de cinema comercial. Mas, para aqueles que, como eu, são ou ocupados ou preguiçosos demais, os vencedores do Oscar podem servir, acima de tudo, para emoldurar as maravilhas que poderíamos estar deixando de ver. 

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