Comentário: Dalai Lama dá sinal de paz com a China

Quando a Olimpíada começar na sexta-feira, o Dalai Lama não estará lá. Cada lado lançou rumores sobre sua presença e foi atormentado pela idéia, mas, no fim, a desconfiança mútua era grande demais para superar.

The New York Times |

O Tibete é uma das maiores sombras da Olimpíada e da ascensão chinesa a uma grande potência, sujando sua imagem internacional e despertando agitações que provavelmente irão piorar nos últimos anos. Mas não precisa ser assim.

Em junho, eu me sentei para um encontro particular com o Dalai Lama, e falamos bastante sobre que tipo de acordo ele e a China estariam dispostos a aceitar. Ele se mostrou muito mais flexível e pragmático sobre uma resolução da questão do Tibete do que declarações públicas me levaram a acreditar. Mas ele também se questiona se a política de comprometimento com a China está indo para algum lugar: se o impasse continuar, ele pode simplesmente desistir de Pequim.

Eu continuei a discussão com oficiais tibetanos desde então (assim como tive discussões similares com oficiais chineses) e a percepção da China do Dalai Lama como rígido e ligado à antigas posições está errada. O Dalai Lama reconhece que o tempo está acabando, e ele está sinalizando um desejo de lidar ¿ comparável até a maneira que o presidente Richard Nixon enviou sinais a Pequim de que ele estava pronto para repensar a relação entre os EUA e a China antes de sua visita ao país em 1972.

Um sinal é esse: pela primeira vez, o Dalai Lama considera declarar que aceita o sistema socialista no Tibete sob o domínio do Partido Comunista. Isso é algo que Pequim sempre exigiu e, depois de uma longa discussão, o Dalai Lama concordou.

A questão principal é preservar nossa cultura, a característica do Tibete, me disse o Dalai Lama. Isso é o mais importante, não política.

Isso é uma concessão significativa, e a China agora deve ser recíproca. Os recentes diálogos entre o Departamento da Frente Unida pelo Trabalho do Partido Comunista e os representantes do Dalai Lama nunca chegarão a lugar algum. A única esperança é se Pequim tirar os assuntos tibetanos dos oficiais da Frente Unida e realizar conversas diretas entre o Dalai Lama e ou o presidente Hu Jintao ou o primeiro-ministro Wen Jiabao, negociando até que se chegue a um acordo.

Mudanças na posição da China

Em um sinal de que os líderes chineses também estão pensando criativamente em novas abordagens, Pequim secretamente levantou a idéia do Dalai Lama visitar a China e participar de uma cerimônia de homenagem àqueles que morreram no terremoto de maio em Sichuan.

Isso seria ousado; o Dalai Lama não entra na China desde 1959. Ambos os lados deveriam agora focar em uma visita para marcar o aniversário de seis meses do terremoto em novembro, seguida por sérias negociações.

É possível planejar um acordo que deixe tanto a China quanto os tibetanos bem melhores ¿ se eles se apressarem. Quando o Dalai Lama morrer ¿ ele tem 73 anos ¿ então um acerto seria impossível para outra geração porque ninguém conseguiria unificar o povo tibetano atrás de um novo plano. Até lá, boa parte do Tibete provavelmente se afogará em um mar de migração chinesa, e alguns frustrados jovens tibetanos poderão se voltar ao terrorismo. Em minha entrevista feita em áreas tibetanas da China esse ano, jovens me disseram, repetidamente, sobre a frustração deles que o Dalai Lama é muito conciliatório e que um movimento violento de libertação será necessário após sua morte.

Possíveis mudanças

Aqui está um resultado plausível do que um acordo poderia ser, apesar de ambos os lados com certeza não teriam coragem em alguns momentos:

O Dalai Lama iria recuar de alguma forma em exigências para autonomia política do Tibete, enquanto o governo chinês ofereceria mais liberdades culturais e religiosas. Não existiria uma abordagem um país, dois sistemas como há em Hong Kong, e os mecanismos de controle existentes permaneceriam como são.

Como o Dalai Lama disse, ele não teria papel político depois de um acordo, mas ficaria livre para entrar e sair da China com seus consultores e se comunicar livremente. Também poderia viajar dentro de áreas tibetanas, em coordenação com o Ministério de Segurança Pública, para garantir que não haja rebeliões. A China também iria libertar todos os tibetanos presos por ofensas políticas ¿ tirando os que cometeram crimes violentos ¿ quando um acordo fosse assinado.

Muito mais perceptivo é o pedido do Dalai Lama para que todas as áreas tibetanas sejam colocadas sob uma administração. Isso é, normalmente, interpretado como uma enorme expansão das fronteiras políticas da Região Autônoma do Tibete para abranger cerca de um quarto da China, tomando partes das províncias de Qinghai, Gansu, Sichuan e Yunnan. Líderes chineses estavam abertos a redesenhar as fronteiras no passado, mas hoje a China está determinada a não fazer tais mudanças, assim como os tibetanos estão de consegui-las.

Uma maneira de atravessar esse abismo seria criar uma Autoridade Regional para Assuntos Tibetanos, que administraria aspectos chaves da vida em todas as áreas tibetanas, particularmente educação, cultura e religião. O que já acontece, por exemplo, são livros escolares escritos em tibetano usados em diferentes províncias, e essa autoridade regional fiscalizaria, da mesma forma, aspectos práticos da vida em áreas com populações tibetanas, todas sob a lei chinesa. Isso permitiria que locais tibetanos fossem colocados sob uma única administração sem mudar as fronteiras políticas.

Novas abordagens

Do lado chinês, a concessão crucial seria restringir a imigração em todas as áreas tibetanas, dentro e fora da região autônoma, através do sistema existente da China de permissões residenciais. As autoridades chinesas parariam de emiti-las para não tibetanos em qualquer área da região autônoma e daria permissões temporárias somente quando estivesse livre para trabalhar. Isso iria diminuir o fluxo de chineses.

Para os chineses, tal acordo resolveria a questão tibetana e uma vergonha internacional, assim como preveria mais protestos e terrorismo nas próximas décadas.

Minhas conversas com ambos os lados me fazem acreditar que seja algo alcançável. O Dalai Lama reconhece que seus esforços anteriores eram diante de políticas cada vez mais severas, então ele está aberto a novas abordagens. Quanto a China, ela aumentou os padrões de vida no Tibete de forma impressionante nos últimos 20 anos, mas a repressão perdeu corações e mentes tibetanos. Denúncias cruéis do Dalai Lama, e particularmente o descaso que alguns oficiais chineses mostram com a cultura tibetana, aumentam o ressentimento. Como começo, a China deveria remover o secretário do Partido Comunista para o Tibete, Zhangh Qingli, que ilumina qualquer sala ao sair.

A bola está na quadra chinesa.

    Leia tudo sobre: tibete

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG