Comentário: Como aumentar o QI

Pessoas pobres têm o Quociente de Inteligência (QI) significativamente menor do que pessoas ricas, e o bom senso estranho e convencional nos leva a crer que isso se deve principalmente às funções genéticas.

The New York Times |

Afinal, uma série de estudos parece indicar que o QI é majoritariamente adquirido geneticamente. Gêmeos idênticos criados separadamente, por exemplo, têm QIs consideravelmente similares. E, em média, são mais próximos ainda do que gêmeos fraternos que são criados juntos.

Se a inteligência estivesse profundamente codificada em nossos genes, isso poderia levar a uma conclusão deprimente de que nem educação, nem programas contra a pobreza podem fazer muito pelas pessoas. Embora a ideia de que o QI é preponderantemente herdado seja bem aceita, a evidência crescente é de que essa afirmação, em um nível prático, está profundamente enganada.

Richard Nisbett, professor de psicologia da Universidade de Michigan recentemente acabou com essa visão em seu novo e excelente livro, Intelligence and How to Get It (Inteligência e como consegui-la, em tradução livre). O exemplar também possui ótimos avisos quanto à pobreza e a desigualdade nos Estados Unidos.

Nisbett apresenta sugestões para transformar seus próprios filhotes em gênios ¿ elogia o esforço mais do que o sucesso, ensina a recompensa em longo prazo, limita as reprimendas e usa o prêmio como forma de estimular a curiosidade ¿ mas foca em como aumentar o QI coletivo dos Estados Unidos. Isso é importante, porque mesmo que esse fator não meça o intelecto puro ¿ não temos total certeza do que o mede ¿ diferenças importam sim, e um QI mais alto é relacionado a um maior sucesso na vida.

A inteligência parece ser majoritariamente herdada em famílias de classe média e essa é a razão da descoberta dos estudos com os gêmeos: poucas crianças pobres são incluídas nessas pesquisas. Mas o professor Eric Turkheimer da Universidade de Virginia conduziu uma pesquisa mais aprofundada demonstrando que em pobres e famílias problemáticas o QI é minimamente um resultado da genética ¿ porque todos mantêm relação restrita.

Ambientes ruins suprimem o QI das crianças, disse Turkheimer.

Um medidor disso é que quando crianças pobres são adotadas por famílias de classe média alta, o QI delas cresce de 12 a 18 pontos, dependendo do estudo em questão. Por exemplo, um estudo francês mostrou que crianças de famílias pobres adotadas por lares de classe média alta tiveram uma medida de QI de 107 pontos em um teste e 111 em outro. Os irmãos que não são adotados tiveram uma média de 95 pontos em ambos os testes.

Outra indicação de maleabilidade é que o QI aumentou muito ao longo da história da humanidade. Na verdade, O QI médio de uma pessoa em 1917 chegava a apenas 73 pontos em um teste de QI atual. Metade da população de 1917 seria considerada mentalmente retardada de acordo com o teste atual, disse Nisbett.

Uma boa educação é bem relacionada particularmente a QI´s altos. Uma indicação da importância da escola é que o QI das crianças diminui ou estagna durante os meses de verão, quando elas estão em férias (particularmente crianças cujos pais não incentivam a ler ou a participar de programas de verão).

Nisbett defendeu intensamente a educação infantil o quanto antes, por causa da capacidade provada do aumento do QI e do desenvolvimento de resultados no longo prazo. O Projeto de Milwaukee, por exemplo, pegou crianças afro-americanas consideradas com risco de retardamento mental e os inscreveu aleatoriamente em um grupo de controle que recebe ajuda ou em um programa em que passavam o dia em uma escolinha infantil recebendo educação desde os seis meses de idade até o dia em que deveriam entrar na primeira série.

Aos cinco anos, as crianças no programa tiveram uma média de QI de 110 pontos, comparado aos 83 das crianças no grupo de controle. Mesmo anos depois, na adolescência, aquelas crianças ainda tinham 10 pontos.

Nisbett sugere menos investimento no programa Head Start - que oferece a crianças americanas e suas famílias com baixa renda: educação, saúde, nutrição e serviços que incentivam o envolvimento dos pais - e mais investimento em programas infantis intensivos. Ele também aponta que escolas dentro do Programa saber é poder obtiveram resultados excepcionalmente bons e experiências prazerosas para observar se eles podem ser colocados em um patamar ainda mais alto.

Outra intervenção comprovada é dizer aos estudantes do ginásio que o QI é expandível e que podem ajudar a formar suas inteligências. Alunos expostos a essa ideia se esforçam mais e tiram notas melhores. Isso é particularmente real quanto a garotas e matemática, aparentemente porque algumas delas supõem que possuem desvantagens genéticas em relação a números. Ao se retirar essa desculpa para o fracasso, elas se sobressaem.

Alguns dos métodos que funcionam são bem baratos, apontou Nisbett. Convencer crianças do ginásio de que a inteligência está sob o controle deles mesmos ¿ você pode argumentar que isso deveria ser colocado no currículo do ginásio, imediatamente.

A implicação dessa nova pesquisa sobre inteligência é que o pacote de estímulo econômico também pode ser um programa de estímulo intelectual. Pelos meus cálculos, se incentivarmos a educação na infância o quanto antes e reforçar as escolas em vizinhanças pobres, o QI coletivo dos Estados Unidos pode ser aumentado em até um bilhão de pontos.

Não deveria haver tanto esforço para pensar nisso.

Por NICHOLAS D. KRISTOF


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