Comentário: como a vida de uma menina da Uganda mudou com uma cabra

Os formandos da faculdade desse ano devem seu sucesso à muitos fatores, desde pais intimidantes até bons remédios para ressacas. Mas uma das mais memoráveis dos graduandos, Beatrice Biira, dá o crédito a algo absolutamente improvável: uma cabra.

The New York Times |

Eu sou uma das mulheres mais sortudas do mundo, Beatrice declarou em sua festa de formatura, depois de receber o diploma da Faculdade Connecticut. Sem dúvida, e de forma apropriada, que a cabra que mudou sua vida fosse chamada Sorte.

A história de Beatrice ajuda a entender duas das mais comuns questões sobre ajuda internacional: funciona? e o que posso fazer?.

A história começa nas montanhas do oeste de Uganda, onde Beatrice nasceu e foi criada. Quando criança, ela desejava desesperadamente ter educação, mas parecia sem esperança: seus pais eram camponeses que não podiam bancar enviá-la para escola.

Os anos se passaram e Beatrice ficou em casa para ajudar com as tarefas. Ela estava à caminho de se tornar mais uma africana analfabeta, outra dos recursos humanos gastos do continente.

Enquanto isso, em Niantic, no Estado de Connecticut, as crianças da Igreja da Comunidade de Niantic queriam doar dinheiro para uma boa causa. Eles decidiram comprar cabras para camponeses africanos através da Heifer International, um respeitável grupo de ajuda localizado em Arkansas que ajuda famílias fazendeiras pobres.

Uma cabra leiteira no catálogo on line de presentes da Heifer custa US$ 120; um grupo de pintinhos e patinhos custa apenas US$ 20.

Uma das cabras compradas pela igreja de Niantic foi para os pais de Beatrice, que logo teve gêmeos. Quando seus filhotes desmamaram, as crianças beberam o leite da cabra para uma ajuda nutricional e vendeu o excedente de leite por um dinheiro extra.

O dinheiro do leite acumulou, e os pais de Beatrice decidiram que agora eles poderiam enviar sua filha à escola. Ela era muito mais velha do que os outros alunos da 1ª série, mas estava tão feliz que estudou a ponto de se tornar a melhor estudante da escola.

Uma americana visitando a escola ficou impressionada e escreveu um livro para crianças, A Cabra de Beatrice, sobre como o presente permitiu que a brilhante menina fosse à escola. O livro foi publicado em 2000 e se tornou best seller infantil ¿ mas agora tem história para mais uma seqüência impressionante.

Beatrice era uma aluna tão exemplar que ela ganhou uma bolsa de estudos, não somente para o melhor colegial para garotas de Uganda, mas também para uma escola preparatória em Massachusetts e para a Faculdade Connecticut. Um grupo de 20 doadores do Heifer International ¿ coordenado por um aposentada chamada Rosalee Sinn, que se apaixonou por Beatrice quando a menina tinha 10 anos ¿ financiou os gastos dela.

Há alguns anos, Beatrice falou em um evento do Heifer que até o economista Jeffrey Sachs compareceu. Sachs se impressionou e inventou o que ele chamou, de brincadeira, o Teorema Beatrice de economia em desenvolvimento: pequenos incentivos podem levar a grandes resultados.

Quando é doada, assistência internacional nem sempre funciona e é mais difícil do que parece. Não vou mentir pra você. Corrupção é sempre alta em Uganda, Beatrice reconhece.

Um oficial local corrupto pode ter distribuído as cabras exigindo que as meninas dormissem com ele em troca. Talvez a de Beatrice poderia ter morrido ou sido roubada. Ou leite não pasteurizado poderia ter deixado ela doente ou a matado.

Em resumo, milhões de coisas poderiam ter dado errado. Mas quando há um bom modelo, elas normalmente dão certo. Por isso que os camponeses no oeste de Uganda recentemente realizaram uma missa e um banquete para celebrar a primeira pessoa local a conquistar um diploma universitário nos EUA.

Além disso, a África logo terá um novo bem: uma profissional bem treinada para melhorar a governança. Beatrice tem planos de conquistar um mestrado na Escola Clinton de Serviços Públicos em Arkansas e depois retornar à África para trabalhar para um grupo de ajuda.

Beatrice tem sonhos de trabalhar em projetos para ajudar mulheres a ganharem e administrarem seu dinheiro mais efetivamente, em parte porque ela viu, em sua própria vila, como as finanças sempre são controladas por homens.

Quando as pessoas perguntam como elas podem ajudar na luta contra a pobreza, há milhares de boas respostas, desde patrocinar uma criança a apoiar uma organização pequena através do site globalgiving.com (listei sugestões específicas em meu blog nytimes.com/ontheground, e no facebook.com/kristof).

Os desafios da pobreza global são vastos e complexos, bem além do poder de qualquer um para resolver, e comprar um animal para uma família pobre não os resolverá. Mas a alegria de Beatrice esses dias ainda é um lembrete que cada um de nós ainda tem o poder para fazer a diferença ¿ para transformar a vida de uma menina com algo tão simples e barato como uma pequena cabra.

- Nicholas D. Kristof

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