Comentário: Chegou a hora de reavivarmos Washington

WASHINGTON - Eu caminhei até a Casa Branca na noite de terça-feira e me encostei no seu portão. Como pode uma casa tão bonita transformar tantos de seus moradores?

The New York Times |

Nenhum carro na entrada. Não sei se W. estava lá dentro falando com os quadros nas paredes. Ou se as imagens podem desaparecer, como na Acadêmia Hogwarts, caso W. as persiga reclamando de seu legado.

As meninas de Obama, logo irão trazer seu enorme charme para esta
casa, juntamente com um novo amigo cachorro. Elas parecem o tipo de
criança que pode se divertir por ali, cercando seu pai enquanto ele
faz história.

Eu me surpreendi durante esta campanha - não apenas pelo racismo
contra Barack Obama ou pela mensagem contida no texto de Hillary
Clinton quando ela sugeriu aos superdelegados que: "Ele não pode
vencer".

Mas pela forma aberta com que algumas pessoas não se preocupavam em expor seu nome no The New York Times dizendo coisas vis, como que um presidente Obama transformaria o Jardim de Rosas numa plantação de melancias, que ele faria churrascos no jardim da frente e que transformaria a Casa Branca em uma Casa Preta.

Obama e a família comemoraram a vitória em Chicago
Obama e a família já preparam a mudança para a Casa Branca / AFP

Na verdade, o elegante e disciplinado Obama, que não descende da
experiência afro-americana central mas foi mesmo assim adotado por
ela, tem uma grande chance de fazer da Casa Branca um lugar puro
novamente.

Eu cresci aqui e amo todos os monumentos cheios dos fantasmas desta
cidade. Eu odeio a ideia de que terroristas possam atacá-los. Mas os monumentos perderam seu brilho nos últimos anos.

Como a Casa Branca poderia manter sua classe quando a família Clinton
tentou transformá-la em um motel de arrecadação de verbas, quando Bill Clinton a usava para arranjos com estagiárias e colocava uma jacuzzi com capacidade para sete pessoas no jardim?

Como a Casa Branca pode ser inspiradora quando W. e Cheney estão lá
dentro fazendo a tortura e a espionagem doméstica práticas legais,
enganando americanos ao criar evidências para uma guerra e maquinando como enriquecer ainda mais seus amigos da indústria do petróleo?

Como o Memorial Lincoln pode ser emocionante quando os bairros negros de uma adorável cidade americana se afogavam enquanto o presidente praticava mountain bike?

Como os Arquivos Nacionais, lar da Constituição, podem simbolizar algo
se o presidente e seu vice passam seus dias reescrevendo suas
palavras?

Como pode o mármore negro do Memorial do Vietnã ter algum poder quando os que estão no poder repetem os mesmos erros daquela guerra?

Como pode o Capitólio, onde meu pai trabalhou com tanto orgulho por
muitos anos, manter sua promessa quando seus ocupantes passam seus dias (e anos) brigando entre si por pequenos pontos políticos ao invés de parar a depravação da Casa Branca em assuntos mais importantes?      


George W. Bush vai deixar a Casa Branca em janeiro / Getty Images

Obama pode ter assumido mais do que esperava ou pode estar a caminho de conquistar seu próprio monumento.

Seu discurso sóbrio na noite escura de Chicago foi simples e direto e
mostrou que ele vê o que tem diante de si. Havia um certo pesar em seu semblante, como se ele já tivesse assumido a isolação e a "esplêndida miséria" que Jefferson dizia vir com o cargo. Os americanos estão felizes, até mesmo diante da Casa Branca, onde cantavam: "Na, na, na, na. Hey, hey. Goodbye."

Em meio a tal vitória fenomenal, que sobrepujou tantas dúvidas e
ataques envolvendo seu nome, Obama estava só.

Ele rejeitou o momento kumbaya democrata de levar toda a coalizão ao
palco e falou sobre como todos terão que se unir e "resistir à
tentação de voltar a adotar a postura partidária e imatura que
envenenou nossa política por tempo demais". Ele professou "humildade", mas nós ouvimos isso antes de W., e veja o que aconteceu.

Prometendo também ser o presidente daqueles que se opuseram a ele,
Obama citou Lincoln, seu ídolo político e o homem que acabou com a
escravidão: "Nós não somos inimigos, mas amigos - ainda que a paixão
tenha se esvaído não devemos romper nossos laços afetivos".

Muitos erros terríveis foram cometidos neste país. Mas agora temos uma outra chance.

Ao começarmos de novo com um professor de direito constitucional e
senador da terra de Lincoln, o Memorial pode voltar a brilhar.

Eu posso querer comemorar subindo no colo de Abe.

A multa custaria US$50, mas valeria a pena...

Por MAUREEN DOWD

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