Comentário: Califórnia, um Estado paralisado

A Califórnia, como já foi muito afirmado, é onde o futuro acontece primeiro. Mas isso ainda será verdade? Se for, então que Deus ajude a América.

The New York Times |

A recessão atingiu forte o Estado de Ouro. A bolha imobiliária era maior lá do em quase qualquer outro lugar, e a falência também. A taxa de desemprego na Califórnia, de 11%, é a quinta maior da nação. As revendas do Estado sofrem igualmente.

No entanto, o que é realmente alarmante sobre a Califórnia é a inabilidade do sistema político em estar pronto para a situação.

Apesar da queda econômica e das políticas irresponsáveis que dobraram a sobrecarga da dívida do governo desde que Arnold Schwazenegger se tornou governador, a Califórnia têm grandes recursos financeiros e humanos. Ela não deveria estar na crise fiscal, não deveria estar próximo de cortar os serviços públicos e negar a cobertura do sistema de saúde a quase um milhão de crianças. Mas está ¿ e você deve imaginar se a paralisia política da Califórnia está prenunciando o futuro do país como um todo.

As causas da atual crise californiana foram criadas há 30 anos, quando eleitores votaram a favor da Preposição 13, de forma prepoderante, uma medida de emergência que substituiu o orçamento do Estado durante um aperto. As taxas de juros de bens foram escondidas, e os proprietários de imóveis foram acobertados por crescimentos em suas taxas de avaliação, mesmo que o valor de suas casas aumentasse.

O resultado foi um sistema de juros injusto e instável. É injusto porque proprietários mais antigos geralmente pagam muito menos por juros de bens do que seus vizinhos mais jovens. É instável porque os limites na taxação de propriedades forçaram a Califórnia se apoiar ainda mais em outros Estados, no que diz respeito a imposto de renda, o que cai agressivamente durante recessões.

Contudo, ainda mais importante foi que a Proposição 13 tornou extremamente difícil de aumentar as taxas, mesmo em emergências: nenhum imposto estadual pode ser aumentado sem a maioria de dois terços em ambas as câmaras do poder legislativo do Estado. E essa provisão interagiu desastrosamente com tendências políticas estaduais.

Para a Califórnia, onde os republicanos começaram sua transformação do partido de Eisenhower para o partido de Reagan, é também um local onde começaram sua próxima transformação, no partido de Rush Limbaugh. Com a maré política se virando contra os republicanos californianos, os membros que permaneceram no partido se tornaram ainda mais extremistas e menos interessados do que nunca em governar de verdade.

E enquanto o aumento do extremismo no partido o condena a um aparente status permanente de minoria ¿ Schwarzenegger era e é único ¿ o republicano retém assentos suficientes no legislativo para impedir qualquer ação confiável em em face de crise fiscal.

Será que o mesmo acontecerá com o país como um todo?

Na semana passada, Bill Gross, de Pimco, gigante união de fundos, advertiu que o governo dos EUA pode perder sua taxação de dívida de AAA em poucos anos, graças aos trilhões que estão sendo gastos para resgatar a economia e os bancos. Será essa uma possibilidade real?

Bem, no mundo racional o conselho de Gross não faria sentido. Os déficits dos EUA projetados podem parecer grandes, e ainda poderia levar apenas um aumento modesto nos impostos para cobrir o crescimento esperado nos juros de pagamentos ¿ e, neste momento, os impostos americanos estão bem abaixo do que aqueles na maioria dos países ricos. As consequências fiscais da crise atual, em outras palavras, deveriam ser controláveis.

Mas isso presume que, do ponto de vista político, nós estaríamos, do ponto de vista político. O exemplo da Califórnia mostra que isso não é garantido de nenhuma forma. E os problemas políticos que atormentaram a Califórnia por anos estão agora cada vez mais aparente em um nível nacional.

Para ser direto: os últimos eventos sugerem que o Partido Republicano ficou enlouquecido pela falta de poder. Os poucos moderados que restaram foram derrotados, fugiram, ou estão saindo fora. O que sobrou foi um partido cujo conselho nacional acaba de votar em uma resolução declarando, solenemente, que os democratas estão dedicados a reestruturar a sociedade americana de acordo com os ideais socialistas, e divulgaram um vídeo comparando a porta-voz da Câmara, Nancy Pelosi, com Pussy Galore.

E esse partido ainda tem 40 senadores.

Então, os EUA seguirão a Califórnia em seu caminho de ingovernabilidade? Bem, o Estado tem algumas fraquezas especiais que não são compartilhadas com o governo federal. Em particular, o aumento dos impostos no nível federal não exige uma maioria de dois terços, e pode em alguns casos contornar a discussão. Então, agindo responsavelmente deveria ser mais fácil em Washington do que em Sacramento.

Mas o precedente da Califórnia ainda me deixa agitado. Quem poderia pensar que o maior Estado americano, cuja economia é maior do que muitas nações, poderia rapidamente se tornar uma república de bananas?

Por outro lado, os problemas que importunam a política californiana também se aplicam em todo país.

Por PAUL KRUGMAN

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