Comentário: ascensão da China vai além das medalhas

PEQUIM ¿ A China está no caminho para desbancar os EUA como os maiores ganhadores de medalhas olímpicas de ouro esse ano. É melhor se acostumar.

The New York Times |

Hoje, é a ascensão atlética que nos surpreende, mas a China deixará uma marca fora do normal na arte, negócios, ciência e educação.

O mundo com o qual estamos acostumados, dominado pelos EUA e Europa, é uma anomalia histórica. Até 1400, as maiores economias do mundo eram a China e a Índia, e videntes da época devem ter presumido que eles é que colonizariam as Américas ¿ significando que esse jornal pudesse ter sido escrito em chinês ou quem sabe híndi.

Mas a China e a Índia começaram a decair no mesmo momento que a Europa passou a crescer. A renda per capita da China era, na verdade, mais baixa, se ajustada com a inflação, nos anos 50 do que era no final da Dinastia Song em 1270.

Agora o mundo está se revertendo ao seu estado normal ¿ uma Ásia poderosa ¿ e nós teremos que nos adaptar. Assim como muitos americanos conhecem os vinhos tintos e facilmente distinguem um Manet de um Monet, nossos filhos serão profundos conhecedores do chá pu-er e saberão a diferença entre o termo guanxi e a região Guangxi, a dinastia Qin e a Qing. Quando ficarem bravos, eles até podem insultar os outros chamando-os de ovos de tartaruga. Durante a ascensão do Ocidente, a cultura chinesa constantemente teve que se adaptar. Quando os primeiros ocidentais chegaram e trouxeram sua fé na Virgem Maria, a China não tinha uma figura feminina equivalente para fazer milagres ¿ então Guan Yin, o Deus da Misericórdia, passou por uma mudança de sexo e se tornou a Deusa da Misericódia.

Agora será a nossa vez de mudar para competir com uma Ásia em ascensão.

Essa transição para a dominância chinesa será um processo difícil para toda a comunidade internacional, complicado ainda mais pelo espinhoso nacionalismo chinês. O país ainda vê o mundo sob o prisma do guochi, ou humilhação nacional, e entre alguns jovens sucessos chineses, parece que ela não produziu tanta autoconfiança nacional quanto arrogância.

As agências de inteligência chinesas estão se tornando mais agressivas ao mirar os EUA, incluindo segredos corporativos, e o Exército chinês está empenhado em financiar novos empenhos para criar buracos na preeminência militar norte-americana. Isso inclui armas espaciais, guerra cibernética e tecnologia para ameaçar grupos americanos de porta-aviões.

O presidente Bush foi muito criticado por comparecer à Olimpíada de Pequim, mas, em retrospecto, acredito que ele estava certo. A relação bilateral mais importante do mundo nos próximos anos será entre a China e os EUA, e o presidente conquistou vantajosos pontos dos chineses ao comparecer.

Ao receber esse poder político, entretanto, Bush não o gastou. Ele deveria ter falado de maneira mais enfática em nome dos direitos humanos, incluindo pedir a Pequim parar de enviar armas usadas no genocídio de Darfur.

É um equilíbrio difícil de acertar, mas a determinação chinesa de superar as tabelas de ouro ¿ e seus enormes esforços em encontrar e treinar os melhores atletas ¿ indica um grande desejo por respeito internacional e legitimidade. Podemos usar essa vontade também para persuadir por um comportamento melhor dos líderes chineses.

Quando o governo chinês sentencia duas frágeis mulheres com mais de 70 anos ao trabalho forçado porque elas se inscreveram para realizar um protesto legal durante a Olimpíada, isso é um desaforo que não pode ser contestado pela diplomacia silenciosa, mas sim por reagindo.

Também devemos reconhecer que as pressões formais estão se tornando cada vez mais respeitáveis. A figura mais importante da relação entre EUA e China hoje não é o embaixador de nenhum dos países, mas Yao Ming, o jogador de basquete ¿ e David Stern, o comissário da NBA, é o segundo. A maior força pela democratização não é o G7, mas os milhões de chineses que estudam no Ocidente e retornam ¿ às vezes com Green cards, mas sempre com maiores expectativas de liberdade. A ascensão da China é sustentada em parte pela maneira que o Partido Comunista se adaptou, às vezes rancorosamente, outras com incompetência, à essas pressões por mudança.

Nessa visita, eu fui na casa de Bao Tong, um ex-oficial do Partido Comunista que passou sete anos na prisão por desafiar os linha-duras durante o movimento democrático Tiananmen. Os guardas que o monitoram sete dias por semana durante 24 horas me deixaram entrar quando eu mostrei minhas credenciais de jornalista olímpico.

Bao reparou que os líderes comunistas costumavam acreditar no comunismo; agora eles simplesmente acreditam no regime do partido. Ele lembrou que os linha-duras se preocupavam com o perigo da evolução pacífica, que significaria uma mudança gradual ao sistema político e econômico do Ocidente. Agora, o que nós temos de verdade é a evolução pacífica, acrescentou.

Essa flexibilidade é uma das maiores forças da China, e é uma das razões pela qual a coisa mais importante acontecendo no mundo hoje é sua ascensão ¿ na Olimpíada e em quase todas as outras facetas da vida.

- Nicholas D. Kristof

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