Comentário: a próxima cultura de guerra

Há séculos, historiadores surgiram com uma teoria clássica para explicar a ascensão e o declínio de nações. A teoria era de que grandes nações começaram com uma mente rigorosa e enérgica. A dureza e a energia geravam riqueza e poder. A riqueza e o poder levavam à abundância e à ostentação. E abundância e ostentação conduziam à decadência, corrupção e declínio.

The New York Times |

A natureza humana, em nenhuma de suas formas, poderia suportar a prosperidade, escreveu John Adams em uma carta a Thomas Jefferson, advertindo sobre a futura corrupção de seu país.

Apesar de sua riqueza inacraditável, os EUA sempre permaneceram imunes a esse ciclo. Os americanos viviam em padrões superiores aos europeus já em 1740. Mas no país, a abundância não levou à indulgência e ao declínio.

Isso porque, apesar do notório materialismo do país, há sempre a compensação de um fluxo de valores econômicos. Os primeiros colonos acreditavam na repressão calvinista. Os pioneiros voluntariaram-se ao sofrimento durante as viagens ao oeste. Ondas de pais de imigrantes trabalharam arduamente e praticavam abnegação para que seus filhos sucedessem. O governo era limitado e não protegia as pessoas das consequências de suas ações, além de impor disciplina e repressão.

Qundo os valores econômicos foram corroídos, o estabelecimento regulador tentou restaurar o equilíbrio. Após a Era Dourada, Theodore Roosevelt (que se arriscou no oeste para contrapor a suavidade de sua educação) conduziu uma ofensiva contra a auto-indulgência financeira. O estabelecimento protestante tinha muitas falhas, mas não era decadente. Os velhos protestantes anglo-saxônicos brancos, chamados WASPs, eram notoriamente baratos, mandavam suas crianças a escolas de currículos espartanos e insistiam na sobriedade financeira.

No entanto, nos últimos anos, houve claramente uma erosão nos valores financeiros do país. Essa erosão aconteceu em uma época que controladores culturais do país estavam ocupados demais com outros assuntos. Eles estavam ausentes, lutando contra a cultura de guerra sobre o ensino eclesiástico, o Piss Christ e a teoria da evolução. Eles argumentavam sobre a sexualidade e a separação entre Igreja e Estado, esquecendo-se do grande rombo dos valores econômicos que ocorria sob seus pés.

A evidência dessa mudança nos valores está em todo lugar. Alguns dos sinais parecem inofensivos. Os Estados do país começaram a financiar loterias: jogos de azar aprovados pelo governo que extraíam enormes quantias dos pobres. Executivos e gerentes de fundos de investimento começaram se gabar sobre os pacotes de compensação, que seriam considerados vergonhosos poucas décadas antes. Cadeias de restaurantes adotaram um modelo expansionista, oferecendo porções gigantes que, na geração anterior, seriam consideradas socialmente inaceitáveis.

Outros sinais são maiores. Como apontou William Galston da Brookings Institution, nas três décadas entre 1950 e 1980, o consumo pessoal estava incrivelmente estável, com montantes de cerca de 62% do PIB. Nas próximas três décadas, ele deu um salto atingindo 70% em 2008.

Durante esse período, a dívida se intensificou. Em 1960, a dívida pessoal dos americanos chegava a cerca de 55% da receita nacional. Até 2007, ela passou a representar 133% da receita do país.

Nos últimos meses, esses níveis de dívida começaram a baixar. Mas isso não significa que os padrões de repressão pessoal serão restabelecidos. Os americanos simplesmente mudaram da dívida privada para a dívida pública. Até 2019, o débito federal chegara a surpreendentes 83% do PIB (sem contar os custos da reforma na saúde e tudo o mais). Até esse período, só os juros dos pagamentos da dívida federal custará US$ 803 bilhões.

Os números podem parecer escassos, principalmente para os sabichões do orçamento. Mas eles são um sinal do rumo tomado pelas mudanças de valores. E se deve haver uma correção desse rumo, será necessário um movimento moral e cultural.

As atuais políticas culturais foram organizadas pela obsoleta cultura de guerra, que colocou liberais seculares de um lado e os conservadores religiosos do outro. Mas o deslize na moralidade econômica afligiu tanto os democratas quanto os republicanos.

Se for necessário haver um movimento para restaurar os valores econômicos, ele terá de atravessar as atuais taxonomias. Seus objetivos serão fazer dos EUA novamente uma economia produtiva e não uma economia de consumo. Ele irá defender uma volta à abnegação financeira, em grande ou pequena escala.

O movimento terá de tomar dar um jeito nos chamados gênios lobistas ¿ a convicção justa, de que todos os grupos são responsáveis por quaisquer possíveis apropriações ou negligência dos grandes gastos públicos, deve ser mantida por todos desde a associação de aposentados até o agronegócio. Ele terá de se assumir a demanda da auto-indulgência popular por baixos impostos e altos gastos.

Uma cruzada pela auto-repressão econômica deveria rearranjar as alianças atuais e envolver políticas como o corte nos impostos sobre energia e sobre os gastos, que agora são considerados impossíveis politicamente. Mas esse tipo de restauranção é o que o país realmente precisa.

Por DAVID BROOKS


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