Comentário: A outra Teerã

TEERÃ ¿ Em uma das embaixadas que oferecem ilhas de paz da capital iraniana, de trânsito intenso e uma situação que nunca melhora, um diplomata ocidental disse sobre os Estados Unidos e sua política de aliados contra o Irã: ¿Vocês poderiam argumentar que nossa política não falhou ainda¿. Essa seria a visão mais caridosa.

The New York Times |

Mas está falhando. Onde o Irã possuía uma mão cheia de centrífugas de enriquecimento de urânio há quatro anos, agora tem pelo menos cinco mil. Com seus inimigos no Iraque e no Afeganistão derrotados pelo Exército dos Estados Unidos, o país estendeu sua influência regional.

Essa cidade, cujo boom no setor imobiliário rivalizou com o de Manhattan nos últimos anos, ainda está cheia de dinheiro da temporada de altos preços do petróleo. Aqueles bilhões equalizam a confiança, mesmo que estejam sumindo aos poucos. A Revolução Iraniana, em seu 30º aniversário, recarregou suas baterias na onda global inspirada por Bush, afundada por Gaza e com um sentimento contra o ocidente.

É hora de pensar novamente, não apenas calibrar novamente velhas fórmulas, para acabar com um impasse de três décadas entre EUA e Irã, um rompimento de grande custo e gravidade. Essa não relação se perdeu em estereótipos enquanto as ameaças norte-americanas (A opção militar deve se manter disponível) e as demandas (parar as centrífugas) encontram uma barreira de orgulho iraniano.

Passado

Um lugar para começar essa reflexão é o sul de Teerã, onde estava outro dia no aniversário do retorno triunfante do aiatolá Khomeini da França. Estive em uma cerimônia no aeroporto, estrelando uma reprodução kitsch do avião jumbo da Air France que o trouxe para casa, e me vi rodeado de túmulos perto do mausoléu de Khomeini.

Os túmulos, muitos enfeitados com fotos de 16 anos atrás, se estendiam ao longe, centenas delas, a maioria de vítimas da guerra entre o Irã e o Iraque, de 1980 a 1988, que se seguiu à violência revolucionária, de 1978 a 1979. O Irã sangrou por uma década.

O impacto psicológico ainda é palpável. Os iranianos não querem sangrar novamente; querem seguir em frente. Neste ponto, eles se assemelham ao pós da revolução cultural na China.

Outros objetivos

Com toda a retórica oficial inflamável, o pragmatismo reina. O dinheiro, a educação e a oportunidade conduzem as pessoas. Anos de descontrole em seus vizinhos, Iraque e Afeganistão, concentraram uma frase na mente iraniana: quem precisa disso?

Destituir regimes não é mais o objetivo, contou-me Mohammad Atrianfar, ex-editor de uma revista reformista fechada pelo governo. Reforma, sim, reviravolta, não.

Jovens ¿ e bem mais que a metade da população tem menos de 30 anos ¿ devem querer uma imprensa ou uma vestimenta mais livre. Mas celulares, acesso banda larga à Internet e TV por satélite (as restrições do governo são desobedecidas tanto quanto as sanções ocidentais) acabam gradualmente com a adrenalina do confronto. A Revolução Islâmica se provou resistente em parte por causa de sua flexibilidade.

Questão nuclear

Nesta terra de acontecimentos, os EUA se focaram em um: no Iran como expansionista e ávido por poder nuclear. A constelação de políticas do Irã inclui aquelas que deram apoio a organizações terroristas. A miopia do eixo do mal levou os legisladores dos EUA a subestimar as forças sociais, psicológicas e políticas pelo compromisso, pragmatismo e estabilidade. O Irã não começa uma guerra de agressão há muito tempo.

Teerã compartilha de muitos interesses norte-americanos, incluindo um Iraque democrático, porque isso significaria um governo xiita no país, e um Iraque estável e unificado o suficiente para garantir acesso para cidades sagradas como Najaf.

Também se opõe ao Talibã no Afeganistão e ao fanatismo sunita da Al-Qaeda. A democracia é marcada por erros, mas para os padrões do Oriente Médio é vibrante. Ambas as palavras em sua descrição ¿ República Islâmica ¿ contam.

Esses interesses em comum e a longa e errônea visão das prioridades iranianas demandam uma inovação do presidente Barack Obama. A presidência radical de Bush produziu uma reação iraniana radical. Enquanto o Iraque moderno é algo esboçado no mapa do século XX, a Pérsia é algo milenar. Seu orgulho requer um tratamento de igual para igual.

Outro caminho

Sugerir que Obama deve começar a aumentar o nível militar para complementar a diplomacia intensificada, como fez um relatório recente do Centro de Política Bipartidária em Washington, é como recomendar um mergulho profundo no fracasso.

Piscar nunca é agradável, mas pode ser importante. Os Estados Unidos e seus aliados deveriam deixar de insistir que o enriquecimento em Natanz acabe antes que a conversa comece (de qualquer forma, o Irã poderia recomeçar o enriquecimento). Obama também deveria dizer que a ameaça militar acabou em nome da recuperação do diálogo. Esses passos dariam uma obrigação ao Irã.

Será que o Irã revolucionário poderia viver sem Morte aos EUA?. Poderosas facções radicais pensam que não, mas eu fico do lado da maioria dos iranianos que acreditam que a República Islâmica pode coexistir com o funcionamento da relação com os EUA.

Obama deveria fazer outras cinco coisas: Mandar sua aberturar para o líder religioso supremo, aiatolá Ali Khamenei, porque ele decide. Colocar que os Estados Unidos não estão no jogo de mudanças do regime iraniano. Agir logo ao invés de esperar pelas eleições presidenciais no Irã, em junho; Khamenei continuará por lá depois delas. Começar com pequenos passos que construam a confiança. Tratar a questão nuclear com o todo das relações entre o Irã e os EUA ao invés de se concentrar em seu foco distorcido...


Por ROGER COHEN

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