Comentário: A lacuna de Obama

¿Eu não acredito que seja tarde demais para mudar o rumo, mas será se não tomarmos medidas drásticas o mais rápido possível. Se nada for feito, essa recessão pode se prolongar por anos.

The New York Times |

Foi o que declarou o presidente eleito Barack Obama nesta quinta-feira, 8, explicando que os EUA precisa de uma reação extremamente agressiva por parte do governo em relação à crise econômica.

Ele está certo. Essa é a crise mais perigosa desde a Grande Depressão, e tudo poderia facilmente se tornar uma depressão prolongada.

Mas a receita de Obama não se sustenta diante seu diagnóstico. O plano econômico que ele está oferecendo não é tão forte quanto seu discurso sobre a ameaça econômica. Na verdade, ele fica bem longe do que é necessário.

Pense o quão grande a economia dos EUA é. Dada a demanda suficiente para sua produtividade, o país produziria mais que US$ 30 trilhões de bens de consumo e serviços nos próximos dois anos. Mas com a queda do consumo e dos investimentos, uma grande lacuna está se abrindo entre o que a economia pode produzir o que estará apto a vender.

E o plano de Obama não é em nenhum momento grande o suficiente para preencher essa lacuna de produtividade.

No começo desta semana, a Secretaria do Congresso Orçamentário apresentou sua análise mais recente do orçamento e do panorama da economia. Ela diz que na falta de um pacote de estímulo, a taxa de desemprego cresceria 9% até o início de 2010, e continuaria alta pelos próximos anos.

Aliás, mesmo sendo uma projeção cruel, na verdade, ela é bem otimista em comparação com algumas previsões independentes. O próprio Obama tem dito que sem um plano de estímulo, a taxa de desemprego pode subir até um número de dois dígitos.

Mesmo a Secretaria diz que, no entanto, a produtividade da economia nos próximos dois anos será em torno de 6,8% abaixo de seu potencial. Isso significa uma perda de produção de US$ 2,1 trilhões. Nossa economia poderia ter uma queda de US$ 1 trilhão de sua capacidade total, declarou Obama, nesta quinta-feira. Bem, ele realmente está entendendo as coisas.

Para fechar as lacunas de mais de US$ 2 trilhões ¿ ou possivelmente muito mais, se as projeções da Secretaria acabarem sendo otimistas demais ¿ Obama oferece um plano de US$ 775 bilhões. E isso não é o suficiente.

Agora, o pacote de resgate pode algumas vezes ter um efeito multiplicador: Em adição aos efeitos diretos de, dizem, investimentos em infra-estrutura na demanda, pode haver um efeito indireto mais além uma vez que lucros maiores levem a um consumo maior. A estimativa da Standard sugere que um dólar dos gastos públicos aumente o PIB cerca de US$ 1,5.

Mas cerca de apenas 60% do plano de Obama consiste do gasto público. O restante consiste de corte de impostos ¿ e muitos economistas estão céticos sobre o quanto esses cortes, especialmente, as de taxas comerciais, irão realmente impulsionar o gasto. (Um número de pessoas no Senado democrata aparentemente também tem essa dúvida.)

Howard Gleckman do Centro de Política de Impostos, que é não partidário, resumiu tudo isso em um título de um post recente em um blog: Montes de dinheiro, mas nada de ação.

O ponto principal é que o plano de Obama provavelmente não irá acabar com mais da metade da grande lacuna na produtividade, e poderia facilmente terminar produzindo menos do que um terço de emprego.

Por que Obama não está tentando fazer mais que isso?

O plano é ficar limitado pelo medo de dívidas? Há perigos associados com a grande escala de empréstimo do governo ¿ e o relatório da Secretaria nesta semana projetou um déficit de US$, 1,2 trilhões para este ano.

Mas poderia ser ainda mais perigoso não conseguir recuperar a economia. O presidente eleito falou eloquentemente e primorosamente nesta quinta sobre as conseqüências das falhas da ação ¿ há um risco real que irá deslizar em um prolongado e caminho de deflação no etilo japonês ¿ mas as conseqüências das falhas da ação adequadamente, também não são muito melhores.

O plano é estar limitado pela falta de oportunidades de consumo? Há apenas um número limitado de ferramentas prontas para os projetos de investimento público ¿ isso [e, projetos que podem começar rápido o suficiente para ajudar a economia no curto prazo. Mas há outras formas de gastos públicos, especialmente com plano de saúde, que poderia fazer bem enquanto auxiliaria a economia em suas horas de necessidade.

Ou o plano está sendo limitado pela precaução política?

Relatos da imprensa em novembro indicaram que o apoio de Obama estava ansioso para manter o valor final do plano abaixo da marca politicamente sensível dos trilhões de dólares. Também houve sugestões de que a inclusão do plano do grande negócio do corte de impostos, o qual adiciona ao custo, mas irá fazer pouco pela economia, é uma tentativa de ganhar os votos republicanos no Congresso.

Não importa qual seja a explicação, o plano de Obama simplesmente não parece adequado ao que a economia precisa. Sem dúvida, um terço da fatia é melhor que nada. Mas agora, parecemos enfrentar as duas maiores lacunas na economia: a lacuna entre o potencial econômico e seu provável desempenho, e a lacuna entre a retórica econômica severa de Obama e seu, de certa forma, plano econômico decepcionante.


Por PAUL KRUGMAN

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