Comentário: A globalização se tornou viral

Nesses dias pós Guerra Fria, não enfrentamos uma simples ameaça concentrada em um local. Enfrentamos uma séria de ameaças descentralizadas e transnacionais: a jihad islâmica, a crise financeira global, o aquecimento global, a escassez de energia, a proliferação nuclear e, como bem sabemos hoje, possíveis pandemias como a gripe suína.

The New York Times |

Essas ameaças descentralizadas que crescem com a vasta difusão e os passos rápidos da globalização, além de serem engrandecidos por ela. A comunicação global imediata e as rápidas viagens internacionais podem algumas vezes levar a choques sistêmicos e universais. Um banco quebrou ou um vírus não pode ser isolado. Eles têm o potencial de chegar a quase todos os lugares de uma vez. Eles podem destruir o principal ponto do complexo internacional de sistemas.

Então como lidamos com essas situações? Construímos instituições globais centralizadas fortes o suficiente para responder a ameaças transnacionais? Ou nos apoiamos em comunidades diversificadas e descentralizadas e nações-Estados?

Há dois anos, G. John Ikemberry da Universidade de Princeton escreve um artigo sobre o processo de uma resposta centralizada. Ele argumentou que os Estados Unidos deveriam ajudar a construir uma série de instituições multinacionais para cuidar de problemas globais. Os grandes poderes deveriam construir uma infraestrutura da cooperação internacional... criando capacidades compartilhadas para responder uma grande variedade de contingências.

Se adotarmos uma lógica para a gripe suína, poderíamos dizer que o mundo deve construir um Centro para o Controle de Doenças internacional, que analisaria a amplitude da doença, decidiria como e quando as quarentenas seriam necessárias e coordenaria uma resposta global única.

Se tivéssemos um corpo como esse, não estaríamos vendo os tipos de atritos que surgem da abordagem descentralizada atual. A Europa ofendeu os Estados Unidos ao advertir que seus cidadãos não viagem para o outro lado do Atlântico. A Ucrânia restringiu as importações de carne de porco. A Europa poderia aglomerar vacinas contra a gripe, deixando os Estados Unidos, que possui apenas uma produção de plantas, sem salvação. O medo de uma pandemia poderia levar a uma limitação de raças, enquanto as nações competiriam para parar com a circulação e construir paredes de proteção.
Esses perigos são reais. No entanto, até agora, não há uma lição dessa crise. A reação à gripe suína sugere que uma abordagem descentralizada é melhor. Essa crise só tem alguns anos de idade, ainda assim já vimos uma reação crescente e agressiva.

Em primeiro lugar, a abordagem descentralizada é muito mais rápida. O México reagiu unilateral e agressivamente ao fechar escolas e cancelar eventos. Os Estados Unidos reagiu com uma velocidade impressionante, considerando que ainda há poucos casos e apenas uma hospitalização.

The New York Times publicou, nesta segunda-feira, uma foto do membro do conselho de saúde da cidade de Nova York, Dr. Thomas R. Frieden, falando em uma reunião sobre a crise. A foto é a imagem de uma reação local e bem focalizada. As pessoas estão vestindo camisas de pólo e roupas informais ¿ concentrando-se intensamente nos incidentes concretos que estão ocorrendo em seu próprio quintal.

Se a resposta fosse coordenada por uma agência global, aqueles oficiais locais não teriam tanto poder. O poder seria exercido por oficiais de nacos que estão distantes e emocionalmente afastados do marco zero. A instituição teria que eleger seus membros, negociar as diferenças internas e proceder, como todas as multinacionais fazem, no ritmo dos vagabundos mais relutantes.

Em segundo lugar, uma abordagem descentralizada tem mais credibilidade. É um fato na natureza humana de que em tempos de crise, pessoas gostem de se sentir protegidas por um dos seus. Eles acreditarão apenas em pessoas que compartilhe de sua experiência histórica, que entenda suas concepções culturais sobre a doença, a ameaça de estrangeiros e de que tenha a legitimidade de fazer tais escolhas brutais. Se alguma autoridade irá restringir a liberdade, isso deveria ser eleito pelas pessoas, não por um estranho.

Finalmente, a abordagem descentralizada lida razoavelmente bem com a incerteza. Até agora, a reação torna claro que há uma rede informal de cientistas que se reuniram ao longo dos anos e chegaram a certas compreensões sobre coisas como a quarentena e as taxas de infecção. Também está claro que há um monte de coisas que eles não compreenderam.

Uma reação global única produziria uma abordagem uniforme. Uma reação descentralizada estimula a experimentação.

O ponto principal é que a crise da gripe suína constitui dois problemas emergentes um em cima do outro. No fundo, há uma rede de comunicações dinâmica sobre o surto. Ela é alimentada por uma reação complexa de labirintos que consistem no vírus em si, a mobilidade humana em espalhá-lo e nos fatores ambientais que o potencializam. Em cima de tudo isso, há o medo psicológico causado pela doença. Ela surge de rumores, novas notícias, Tweets (comentários no Twitter) e advertências de especialistas.

 A resposta correta para esses problemas dinâmicos, descentralizados e emergentes é criar autoridades dinâmicas, descentralizadas e emergentes: cadeias de oficiais locais, agências do Estado, governos nacionais e corpos internacionais que estão flexíveis assim como o próprio problema.

A gripe suína não é a única emergência de saúde. É um teste para como iremos nos organizar no século 21. O auxílio subsidiário funciona melhor.


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