Começa corrida por riqueza do petróleo da Líbia

Membros da Otan buscam posição privilegiada para exploração; rebeldes mostraram ressalvas com Brasil, China e Rússia, que não se posicionaram enfaticamente contra Kadafi

The New York Times |

A luta ainda não terminou em Trípoli, mas a corrida para garantir o acesso à riqueza de petróleo da Líbia já começou.

Antes da rebelião eclodir em fevereiro, a Líbia exportava 1,3 milhões de barris de petróleo por dia. Embora isso represente menos de 2% das reservas mundiais, poucos países podem fornecer a mesma quantidade de petróleo bruto doce do qual dependem as refinarias ao redor do mundo. A retomada da produção líbia iria ajudar a reduzir os preços do petróleo na Europa e, indiretamente, os preços da gasolina na costa leste dos Estados Unidos.

Nações ocidentais - especialmente os países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que forneceram apoio aéreo crucial para os rebeldes - querem ter certeza de que suas empresas estão em posição privilegiada para bombear o petróleo líbio.

O Ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, disse na televisão estatal na segunda-feira que a petrolífera italiana Eni "terá um papel primário no futuro" do país africano. Frattini ainda informou que técnicos da Eni já estavam a caminho do leste da Líbia para reiniciar a produção. (A Eni rapidamente negou que tenha enviado qualquer pessoal para a região ainda instável, que é a maior fonte de petróleo importado da Itália.)

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Rebeldes se posicionam em Ras Lanuf, cidade produtora de petróleo da Líbia (7/3)
A produção da Líbia foi amplamente interrompida durante o longo conflito entre forças rebeldes e tropas leais a Muamar Kadafi.

A Eni, ao lado da BP da Grã-Bretanha, da Total da França, da Repsol YPF da Espanha e da OMV da Áustria, eram as produtores atuantes na Líbia antes das disputas e podem ganhar mais uma vez que o conflito termine. Empresas americanas, como a Hess, a ConocoPhillips e a Marathon, também fizeram acordos com o regime de Kadafi, embora os EUA contem com a Líbia para menos de 1% de suas importações.

Mas não está claro se um governo rebelde iria honrar os contratos feitos pelo regime de Kadafi ou se negociaria novos acordos de partilha de produção com empresas dispostas a investir em campos de petróleo estabelecidos, além de procurar novos campos.

Mesmo antes de tomar o poder, os rebeldes sugeriram que se lembram quem são seus amigos e inimigos e que irão negociar acordos em conformidade. "Nós não temos problema com empresas de países ocidentais, como as italianas, francesas e britânicas", disse Abdeljalil Mayouf, porta-voz da companhia de petróleo rebelde Agoco. "Mas podemos ter alguns problemas políticos com a Rússia, China e Brasil."

Rússia, China e Brasil não apoiaram fortes sanções contra o regime de Kadafi e defenderam uma solução negociada para o levante. Os três países têm grandes companhias petrolíferas que estão procurando espaço na África.

Preço e taxas

O preço de referência europeu para o petróleo caiu moderadamente na segunda-feira após especulações de que a produção de petróleo da Líbia rapidamente voltaria a subir. O preço do petróleo bruto Brent inicialmente caiu mais de 3%, mas encerrou basicamente estável em US$ 108,42 na Bolsa de Nova York. O crude de referência dos EUA, que é menos sensível aos acontecimentos no Oriente Médio, subiu US$ 2,01 para US$ 84,42.

Kadafi provou ser um parceiro problemático para as empresas petrolíferas internacionais, aumentando taxas e impostos com frequência e fazendo outras exigências. Um novo governo, com laços estreitos com a Otan pode ser um parceiro mais fácil para as nações ocidentais. Alguns especialistas dizem que com mais espaço, as empresas petrolíferas podem encontrar consideravelmente mais petróleo na Líbia do que seriam capazes de localizar sob as restrições colocadas pelo governo de Kadafi.

Analistas afirmam ser provável que as companhias de petróleo, particularmente a Total e a Eni, irão competir ferozmente pelos contratos das melhores propriedades de petróleo, com seus respectivos governos fazendo lobby em seu nome. Mas, primeiro, os rebeldes terão de consolidar o controle sobre o país.

"Se você não tem um ambiente de segurança estável, quem poderá colocar trabalhadores de volta no país?", disse Helima Croft, estrategista sênior de geopolítica do banco de investimento britânico Barclays Capital.

Produção

A guerra civil forçou as grandes companhias petrolíferas a retirar seu pessoal e produção despencou nos últimos vários meses chegando a minúsculos 60 mil barris por dia, segundo a Agência Internacional de Energia. Isso representa cerca de 20% das necessidades domésticas normais do país. Os rebeldes foram capazes de exportar uma quantidade modesta de petróleo que foi armazenado em portos e vendê-lo por dinheiro nos mercados internacionais através do Qatar.

Especialistas alertam que pode demorar até um ano para que a Líbia faça os reparos e coloque seus campos de petróleo em operação a toda velocidade, apesar de algumas exportações poderem continuar dentro de alguns meses.

Como o petróleo é de longe o recurso econômico mais importante da Líbia, qualquer novo governo seria obrigado a fazer da produção de petróleo sua prioridade. Isso significaria estabelecer segurança em grandes campos, gasodutos, refinarias e portos. O governo também precisa rapidamente estabelecer relacionamentos com companhias petrolíferas estrangeiras, algumas das quais consultaram tanto com os rebeldes quanto com Kadafi durante o conflito para manter suas opções abertas. 

A maioria das empresas de petróleo envolvidas na Líbia se recusaram a comentar a questão na segunda-feira ou disseram que iriam esperar para ver como a situação de segurança evolui antes de enviar seu pessoal para o país.

"Claramente estamos monitorando a situação como todos", disse Jon Pepper, vice-presidente da empresa de petróleo americana Hess. "Obviamente, a situação precisa se estabilizar antes de as pessoas começarem a pensar em retomar a produção."

Dependência

Nos últimos anos, a Itália tem contado com a Líbia para mais de 20% de suas importações de petróleo. França, Suíça, Irlanda e Áustria também dependiam da Líbia para mais de 15% de suas importações antes do início da revolta.

A importância da Líbia para a França foi ressaltada na segunda-feira, quando o presidente francês, Nicolas Sarkozy, convidou Abdul-Jalil Mustafa, chefe do Conselho Nacional de Transição dos rebeldes, a Paris para consultas.

Mesmo que os EUA não contem com a Líbia para a importação, a redução do petróleo cru de alta qualidade nos mercados mundiais tem aumentado os preços do petróleo e da gasolina para os americanos também.

Analistas dizem que a maioria dos relatórios das empresas de serviços de petróleo, que continuaram a pagar suas equipes na Líbia em meio à guerra, indicam que houve relativamente poucos danos às instalações. Isso sugere que a produção poderia começar a aumentar em questão de semanas.

Mas a retomada da exportação em larga escala dependerá da rapidez com que os reparos possam ser feitos nos terminais de exportação Lanuf Ras, Melitah e Es Sider, e como um novo governo pode proteger campos e dutos em áreas que tradicionalmente apoiaram o antigo regime.

O fechamentos apressado de poços quando os combates se espalharam pelo país em fevereiro, juntamente com a falta de manutenção ao longo dos últimos meses, pode significar que meses de reparos serão necessários, particularmente em campos mais velhos.

Iraque

A experiência de outros países da região oferece razões para cautela. A turbulência política no Irã reduziu a produção durante décadas, notam os analistas, e demorou oito anos para que a produção de petróleo iraquiano se recuperasse após a invasão liderada pelos EUA que derrubou Saddam Hussein.

O presidente da Eni Giuseppe Recchi disse recentemente a analistas que provavelmente levaria um ano para que a Líbia volte a níveis normais de exportação. Na segunda-feira, ele negou que sua empresa enviaria pessoal ao país imediatamente, mas disse esperar que o novo governo líbio respeite os contratos anteriores de sua empresa.

*Por Clifford Krauss

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