Combatentes do Hamas demonstram misto de arrogância e medo

CIDADE DE GAZA - O combatente vestia chinelos, não se banhava há dias e sobrevivia apenas com frutas secas. Mas ele estava de bom humor, pois terça-feira é dia de pagamento.

The New York Times |

Ainda que sitiado, como a ala militar do Hamas parece estar depois da morte de mais de 900 palestino e 18 dias de combates, ele e outros dois jovens locais afirmaram que a resistência não acabou.

Em entrevistas separadas na terça-feira, os três homens que se identificaram como combatentes descreveram como o ritmo de vida diminuiu mas não parou. Eles receberam seus salários em dólares americanos (os shekels israelenses estão em falta em Gaza no momento e os dólares foram mais facilmente contrabandeados.) Eles caminharam livremente para visitar os feridos em hospitais e falaram sobre como o Hamas está se adaptando, mudando para táticas mais cautelosas que dizem levar a menos casualidades.

"Nós não corremos atrás deles como antes", disse o combatente de chinelos, membro do Hamas que é responsável por plantar bombas, mas ainda não recebeu autorização para disparar mísseis. "Agora 10 combatentes seguem para confrontá-los. Não 100 como anteriormente".

O combatente tem 22 anos, um diploma em psicologia e usa óculos. Ele usa chinelos por causa de um ferimento de batalha que o impede de usar sapatos apertados. Ele não carrega uma arma e, de acordo com as regras de sigilo do grupo, fala sob a condição de que seu nome não seja mencionado.

Ele concedeu a entrevista diante de um hospital, com a bateria e o cartão SIM de seu celular removidos por temer que dispositivos israelenses pudessem identificá-lo.

Ele aprendeu a lição do que disse ter sido um ataque com míssil guiado a um amigo, que estava no celular em um prédio. O projétil perfurou a parede de concreto e o matou.

Em relação à famosa rede de túneis que percorrem o território, ele disse que muitos foram atingidos por Israel, "mas não todos".


Palestinos fazem vigília na Faixa de Gaza / AP

Em outro lado da cidade, outro jovem combatente e sua mulher se preparavam para visitar o irmão dela, de 20 anos, que foi ferido na região sudeste da cidade de Gaza há duas noites quando levava comida para os combatentes. O combatente, de 27 anos, em jeans pretos e botas do estilo Timberland, se exibiu com palavras sobre o Islã e o dever em relação ao seu povo. O Hamas se opõe doutrinalmente à existência de Israel.

"Ou conquistamos a vitória vivos, ou o martírio", ele disse. "De qualquer forma nós vencemos".

Sua mulher, em um lenço branco, concordou. "Há dois dias, ele estava cansado e não queria sair de casa", ela disse. "Eu disse a ele que tinha que sair, que tinha uma responsabilidade".

Mas a visão de seu irmão inconsciente no hospital pareceu levar o casal a uma realidade alternativa, na qual eles se sentem vulneráveis e com medo. Os olhos do homem se encheram de lágrimas conforme ele questionava o médico.

Novamente do lado de fora, a mulher recuperou a compostura. "Eu prefiro você como mártir", ela disse ao marido. "E se eu me ferir?", ele perguntou. Ela repetiu preferir sua morte.

Combatentes civis

Ele falou sobre a acusação de que os combatentes do Hamas se escondem entre os civis. Os combatentes, segundo ele, na maioria das vezes são civis e são vistos por muitos moradores da região como seus defensores. As pessoas lhes dão comida, ele disse. Algumas vezes elas se opõem ao lançamento de mísseis por perto, mas geralmente não se importam.

"Eu sou um civil e sou um combatente", ele afirmou.

O combatente que usa óculos argumentou que as forças israelenses os levaram a um território muito pequeno, que os civis estão em todos os cantos e por isso é difícil não operar perto deles.

"Para onde iríamos?", ele questionou. "Não há outros lugares".

Os combatentes mais antigos estão na maioria escondidos, eles disseram. Muitos não aparecem há dias, ficando isolados em porões ou abrigos. Com pouco acesso à rede telefônica, em parte por medo de que seus sinais atraiam mísseis, alguns se desligaram completamente durante a operação militar, e estão sozinhos.

O combatente de óculos disse que ouviu que apenas 50 combatentes morreram e que mais membros da Jihad Islâmica, outro grupo militante, morreram nos combates. Israel disse que cerca de 300 combatentes do Hamas foram mortos.

O combatente disse ter medo, mas que usa um truque para superá-lo. "Eu bebo água e rezo", ele disse.

Dizendo isso, ele foi embora para receber seu salário....

Por TAGHREED EL-KHODARY e SABRINA TAVERNISE

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