Com uma única palavra, egípcios entregam tudo ao destino

CAIRO, Egito- O McDonald¿s daqui tem arcos dourados como em todos os McDonald´s do mundo. A comida é preparada da mesma maneira, ao estilo ¿linha de produção¿. Entretanto, existe um componente invisível ou, mais precisamente, divino, na maneira de produzir a comida, e um iniciante pode não estar preparado.

The New York Times |

"Inshallah," ou "se Deus quiser," diz o balconista enquanto se afasta para preparar o lanche sem cebola no McDonalds localizado na estrada do deserto de Alexandria, 49 quilômetros do centro de Cairo.

Os egípcios sempre foram religiosos, desde os tempos faraônicos até o presente. Qualquer guia turístico sobre o Egito alerta para o freqüente inshallah nas conversas sobre eventos futuros, um sinal da crença profunda de que um acontecimento depende da vontade, ou não, de Deus. Vejo-te amanhã, é quase sempre seguido por um sorriso e inshallah. 

Mas está havendo um uso extremo do inshallah. Está agora ligado a respostas para as todas as perguntas; passado, presente e futuro. Qual o seu nome, por exemplo, "Muhammad, inshallah."

Eu digo a eles, Você já é Muhammad vai se tornar Muhammad?"' disse Attiat el-Abnoudy, um documentarista do Cairo.

Inshallah se tornou uma expressão equivalente ao véu sobre as cabeças das mulheres ao som das orações, quando os adoradores pressionam suas testas contra o chão, somente os homens. A expressão tornou-se um mecanismo público de piedade e moda, um símbolo de fé e modernismo. Inshallah tornou-se um reflexo, um pouco como um hábito lingüístico dito em quase todos os momentos, em todos os assuntos, como a palavra like (tipo) em inglês. Todavia, é uma expressão ponderosa, intencionalmente ou não.

Especialistas em política e comportamento do Egito dizem que o uso freqüente da expressão reflete ou alimenta, ou ambos, o crescente grau com que as pessoas estão incorporando à sua rotina diária os elementos religiosos. O taxi me levará ao meu destino? Qual meu nome? Sempre, Se Deus quiser.

"Agora, inshallah é usado de maneira muito mais ampla que há 20 anos, disse o autor dramático egípcio Aly Salem. "Nós sempre dissemos inshallah em relação aos planos futuros. Ultimamente, é parte da aparência de piedade.

O ponto de partida do inshallah é a fé, mas com o aumento da popularidade dos véus sobre as cabeças e os sons das orações, reflete o vínculo crescente entre a religião e a região. Se não necessariamente por piedade, o aumento no uso da expressão está ligado ao fato de Islã tornar-se cada vez mais a pedra fundamental na construção da identidade. Isso colocou o símbolo do Islã no centro da cultura e da rotina.

Ao longo das últimas três décadas, o papel da religião expandiu-se para todos os aspectos das nossas vidas, disse Ghada Shahbendar, uma ativista política que estuda lingüística na Universidade Americana no Cairo.

Dito em todos os lugares

A consideração com o divino passou a ser um reflexo coletivo, um hábito compulsivo, como as incessantes buzinas dos táxis egípcios ¿ mesmo que não haja carros nas ruas.

Samer Fathi, 40, é proprietário de um pequeno quiosque que vende pequenas coisas, cigarros e cartões de telefone no centro de Cairo. Um cliente pediu um cartão com 100 unidades e Fathi respondeu quase sem disposição com um "inshallah," enquanto procurava por um cartão.

Na Rua Ismael, nº19, a porta do elevador se abre.
   "Descendo?
   "Inshallah," respondeu um passageiro.

Na medida em que se tornou uma rotina, tornou-se também uma espécie de conveniência, um esquivo eficaz, um pouco como um aceno teológico para evitar compromissos. Não é preciso dizer não. Se não acontecer, bom, foi Deus quem quis assim.  Nazly Shahbendar, filha de Ghada, disse, por exemplo, que se fosse convidada para uma festa que não gostaria de ir, mas jamais diria não.

"Eu diria inshallah," contou Shahbendar, de 24 anos e nada mais que um retrato da nova religiosidade. Ela não usa véu, não tem vergonha de falar com homens e fuma na frente da mãe.

 Por MICHAEL SLACKMAN 
 Colaboração: Nadim Audi

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