Com um plano e uma corda escondida, reféns escapam do Taleban

CABUL ¿ Um jornalista afegão que foi mantido em cativeiro pelo Taleban por mais de sete meses, juntamente com um repórter do ¿New York Times¿, revelou neste domingo detalhes da noite da fuga. Ela incluiu semanas de uma cuidadosa organização, e a vantagem de ter guardas entediados, além de uma descida com uma corda, de uma janela de seis metros.

The New York Times |

O jornalista afegão, Tahir Ludin, 35, disse em uma entrevista que a fuga foi uma tentativa desesperada de dois repórteres humilhados, que acreditavam que o Taleban não estava negociando seriamente por sua libertação e os manteria ali por tempo indefinido. Eles escaparam do segundo andar de um cativeiro do grupo que os mantinha refém, na região norte de Waziristão, nas áreas tribais do Paquistão, na manhã de sábado.

Ludin e David Rohde, ganhador do Prêmio Pulitzer de jornalismo no Times, junto com o motorista deles, Asadullah Mangal, foram sequestrados fora de Cabul em 10 de novembro. O jornalista americano viajava para entrevistar um comandante do Taleban para um livro que escrevia sobre o Afeganistão.

O afegão disse que ele e Rohde foram ameaçados de morte por seus sequestradores. De acordo com ele, nos últimos dois ou três meses eles estavam sem esperança, tanto que ele considerava cometer suicídio com um facão. O americano, que se reuniu com a família neste domingo, confirmou a exatidão da história de Ludin, mas se recusou a comentar mais.

Os três homens foram capturados em uma estrada a poucos minutos do local onde planejavam encontrar o comandante do Taleban, conhecido como Abu Tayeh, da província de Logar, ao sudeste de Cabul.

Anteriormente, Ludin já havia escoltado dois outros jornalistas estrangeiros para entrevista seguras com o comandante, e durante esses encontros os dois estabeleceram um grau de confiança. Ele disse que Tayed traiu sua confiança ao orquestrar de forma direta o sequestro.

O jornalista disse que os três reféns eram transferidos em viagens de ida e volta para várias casas em áreas tribais do Paquistão.

De acordo com ele, enquanto o cativeiro se arrastava por mais tempo, os jornalistas começaram a montar um plano de fuga, avaliando o local e seus arredores.

De acordo com Ludin, certa vez ele fingiu estar doente para ir ao médico fora do complexo. Outras vezes ele pediu aos seus captores para assistir as partidas locais de críquete ¿ esporte que ele fingia adorar ¿ para que pudesse estudar rotas potenciais de fuga.

Ainda assim, parecia impossível escapar de uma cidade controlada pelo Taleban e militantes estrangeiros.

Na sexta-feira à noite, em um plano para tentar manter seus captores acordados o mais tarde possível, para garantir que os homens acabassem dormindo profundamente, Ludin desafiou os militantes que dormiam no mesmo quarto, ao lado deles, para um jogo local de tabuleiro.

Quando finalmente os jogos terminaram à meia-noite, os jornalistas esperaram que os militantes caíssem no sono.

À uma hora da madrugada, Rohde acordou Ludin e escapou do cômodo. Ele recitou vários versos do Corão e o seguiu. Foram até o segundo andar e assim o afegão chegou ao topo de uma parede de 1,5 m.

Quando Ludin olhou para baixo, disse ele, foi recebido por uma visão enervante: uma queda de 6 metros.

Rohde deu a Ludin uma corda que havia achado há duas semanas e escondido dos guardas. Eles amarraram a corda à parede e o afegão, diminuído diante da corda, abriu seus punhos para agarrá-la.

Ele caiu no chão, o que o deixou com o pé direito torcido e outros ferimentos. Ele disse que cortou o pé, apontando para um tornozelo muito machucado e inchado e um dedão enfaixado.

Então Rohde foi descendo pela parede e pulou sem nenhum ferimento, disse Ludin.

Ao serem questionados sobre porque seus sequestradores não ouviram o barulho do impacto com o chão, Ludin disse que esperaram uma noite que a cidade tivesse força elétrica para a tentativa de fuga. À noite, um velho e barulhento ar condicionado disfarçava o barulho.

Quando os dois homens fugiram, cachorros latiram para eles de cativeiros próximos. Certa hora, os animais soltos latiam e corriam até eles no escuro. Para a surpresa deles, nenhum membro do Taleban apareceu das casas ao redor.

Após 15 minutos, disse Ludin, eles chegaram ao posto da milícia paquistanesa que ele havia localizado durante uma viagem fora do cativeiro durante o dia. No escuro, meia dúzia de guardas, que suspeitaram que eles fossem homens-bomba, apontou rifles para eles e mandou que levantassem as mãos e não se mexessem.

Eles disseram, se vocês se mexerem, nós atiramos, segundo o afegão.

Ludin disse que estava tremendo no escuro e levou 15 minutos de uma ansiosa conversa para convencer os guardas de que ele tinha sido capturado com um jornalista americano ¿ que quase não parecia ser o que ele dizia, com sua baba e seus trajes islâmicos.

Os homens acabaram sendo permitidos de entrar no local e foi pedido que eles tirassem a camisa. Depois, eles foram revistados e vedados para serem levados à base do posto de operações. Após oficias paquistaneses confirmarem suas identidades, eles foram bem tratados. Mais tarde naquele dia, foram transferidos para Islamabad, capital do Paquistão, e para uma base militar americana fora de Cabul.

Enquanto contava a história, Ludin mostrou flashes de sua personalidade exuberante, como quando ele acenou com os braços e proclamou a comida era excelente, ou quando brincava sobre os cabelos brancos que tinham aparecido em sua cabeça após ser sequestrado. Ele falava com seus sete filhos a sua volta.

Mas na maioria dos casos, Ludin falava em uma explosão de sentenças e insinuava muitas vezes que estava em um estado mental de confusão. Em três ocasiões, ele erroneamente se dirigiu a um jornalista que o visitava como David.

Ludin disse que o motorista, Mangal, parecia estar impressionado pelo medo de seus captores e acabou não participando do planejamento, nem da fuga.

Por ADAM B. ELLICK


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