Com recém adquirida liberdade, rappers da Líbia encontram sua voz

Grupo de jovens líbios sente pela primeira vez liberdade para fazer canções que remetam ao passado doloroso da era Kadafi

The New York Times |

Um pequeno grupo de rapazes estava reunido em torno da porta aberta de um galpão de concreto que foi transformado em um estúdio de gravação para observar um trio de rappers em Trípoli, na Líbia. Vestidos com bonés de beisebol e moletons largos, eles mixavam suas músicas em um computador.

Os homens davam pouca atenção ao público presente e trabalhavam, tomada após tomada, em seu mais recente projeto: um anúncio de serviço público para uma rede de televisão local pedindo que os rebeldes abandonem suas armas, algo que não fizeram mesmo quatro meses após a expulsão de Muammar Kadafi do poder .

Queda de Kadafi:
- Kadafi está morto, anuncia premiê de governo interino da Líbia
- Fim sem misericórdia levanta questão: quem matou Kadafi?

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Reprodução do vídeo no YouTube de "A Líbia Sangra como Nós", do grupo Gab

"Não disparem ao alto, nossas vidas valem mais do que suas munições", dizia Siraj Kamal Jerafa, 28 anos, fechado em uma cabine de som improvisada com paredes cobertas com antigo estofamento de sofá.

No final da noite, ele saiu sorrindo comprimentando todos os presentes. Com mais nada para ver, os meninos que estavam acompanhando a gravação do lado de fora, voltaram para suas casas.

Jerafa, que adota o nome artístico Lanterna, faz parte do GAB, um grupo de hip-hop da Líbia, cujos membros, assim como muitos outros jovens, estão tirando proveito da nova liberdade de expressão que floresceu no país desde a queda Kadafi.

Os líbios viveram durante décadas à sombra da revolta que tirou Kadafi do poder, ele que se auto denominava o "Líder Irmão". Seu governo foi brutal e teve uma longa duração , mas agora acabou. Ele foi derrubado por uma revolução feita por jovens combatentes.

Sob o regime repressivo de Kadafi, os líbios tinham que manter suas opiniões pessoais e políticas para si mesmos, fazendo com que certos pensamentos não permitidos fossem compartilhados apenas entre algumas pessoas de confiança. Agora, tudo isso mudou. Em um país onde a política e a vida pública foram para algumas gerações violentamente e obsessivamente policiadas, os jovens estão agora respirando e falando mais livremente do que nunca.

Pichações zombando a imagem de Kadafi substituíram os pôsteres que reverenciavam o antigo líder do país por toda a cidade e uma nova geração de jornais independentes especula sobre as atividades de seus jovens da mesma maneira que os tablóides ocidentais falam sobre a vida das celebridades.

Mesmo em um dia em que não há aulas, os alunos se reúnem no campus da Universidade de Trípoli , onde presos políticos eram publicamente enforcados, contam histórias da revolução e discutem os méritos do governo de transição.

Muitos acham que a nova liberdade de falar o que pensam é ao mesmo tempo emocionante e desorientadora. "Somos livres, mas não sabemos como viver como pessoas livres", disse Kareem Saqer, 23, um estudante de economia. "Então, a solução é conversar a respeito disso."

O novo cenário político oferece um ambiente criativo sem restrições para artistas como Jerafa, que finalmente podem compor músicas que transmitam uma mensagem. "Antes da revolução, a música era apenas uma maneira de passar o tempo, porque não existia nenhuma liberdade de expressão", disse. "Se você falasse sobre política ou pisasse em qualquer uma das linhas estabelecidas do governo seria preso e morto."

Seu grupo tradicionalmente evitava falar sobre política. Eles cantavam principalmente em inglês "para não serem monitorados pelo governo", e cantavam quase exclusivamente sobre festas e garotas, mesmo em um país conservador onde não existem casas noturnas. "Nós tínhamos nossas próprias casas noturnas, aqui", disse, apontando para sua cabeça.

Em 2008, gravaram uma música com uma mensagem política oculta que falava a respeito da desolação da vida vivida sob o governo de Kadafi. Intitulada "Dor", sua letra vaga podia facilmente passar por uma música banal sobre a angústia de ser adolescente. "Abro os olhos e estou amaldiçoado com essa dor", eles cantavam. "Eu tento sorrir, mas acabo em lágrimas novamente."

Hoje, eles riem ao lembrar dessa canção, um pequeno ato de rebeldia que fica pequeno em comparação a tudo que viram desde então. Eles gravaram várias canções com conteúdo político nos últimos meses, algumas atacam Kadafi e seu governo, outras são dedicadas à memória dos que morreram na revolução. Outras ainda pedem para que os líbios abandonem as armas, abracem a não violência e trabalhem juntos para o bem do país.

Eles escreveram sua primeira canção anti-Kadafi, "A Líbia Sangra Como Nós", em março. A canção, inspirada tanto pelos combatentes rebeldes quanto pelo rapper americano Notorious BIG, ironicamente cita discursos de Kadafi contra os rebeldes - "Ele pergunta:" Quem são vocês? Quem são vocês? Como se ele nunca soube quem nós eramos" - E seu refrão é marcado com o som de tiros.

"Quando nós estávamos escrevendo a música eu pensei comigo mesmo, vou escrever essa canção e, depois, aconteça o que acontecer, eu estou pronto para morrer", disse Hamad Araby, 25, um membro do grupo com uma barba rala e um boné de beisebol preto, que usa o nome artístico Brown Sugar. "Foi suicídio, cara."

A canção vazou na Internet em maio, meses antes da queda de Trípoli e logo após um apoiador de Kadafi e amigo da família de Araby ter pedido ao grupo que gravasse uma música em apoio ao governo. Horrorizados, os membros do grupo decidiram desaparecer para a clandestinidade. Enquanto alguns ficaram em Trípoli, Araby se escondeu em uma fazenda da família fora da cidade e Jerafa juntou-se a uma milícia rebelde de sua cidade natal, Zuwarah, fazendo parte da linha de frente.

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Reprodução do video do Youtube de "A Líbia Sangra como Nós", do grupo GAB Crew

As forças de segurança invadiram suas casas, levando o carro da família de Jerafa quando eles não conseguiram encontrar o cantor. Se esconder das forças de segurança "não foi uma situação legal, cara", disse Araby. "A primeira regra é que você não pode confiar em ninguém. Mesmo que uma menina olhasse para você, você só conseguia pensar, o que eles estão planejando fazer?"

Os companheiros de banda não voltaram a se ver até que as forças rebeldes tomaram a capital em agosto . Para celebrar a queda de Kadafi, eles decidiram filmar um vídeo para sua música, “A Líbia Sangra Como Nós", dentro de Bab al-Aziziya, a antiga fortaleza do ex-ditador.

Eles chamaram rebeldes armados com metralhadoras Kalashnikovs como extras; os lutadores, em cima de caminhonetes e usando óculos escuros, balançavam a cabeça segurando armas antiaéreas. Eles filmaram algumas cenas no meio dos destroços da casa de Kadafi e foram muito cuidadosos na hora de se posicionar nos mesmos locais que o líder quando fazia seus discursos contra os rebeldes.

Foi um momento extraordinário, uma oportunidade para que os homens pudessem viver uma fantasia de vingança que nunca pensaram ser possível. Enquanto filmavam no complexo, eles disseram que pensavam a respeito da dor que Kadafi havia infligido neles, em suas famílias e seu país.

"Da mesma maneira que ele entrou na minha casa, eu entrei na casa dele, zombando dele", disse Jerafa. "Ele não foi corajoso o suficiente para vir até a minha casa pessoalmente, mas eu vim até a dele."

Por Liam Stack

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