Com morte de Bin Laden, EUA devem pedir arquivamento de acusações contra ele

Medida deve encerrar formalmente processo contra o líder da Al-Qaeda que começou na Corte da Manhattan em 1998

The New York Times |

Deve acontecer com pouco ou nenhum alarde, mas ainda irá representar um momento que alguns pensaram que nunca poderia ocorrer: o Ministério Público Federal de Manhattan deverá solicitar apresentação de documentos judiciais nesta semana para pedir formalmente a um juiz arquive todas as acusações contra Osama bin Laden.

A medida deve encerrar formalmente um processo contra o líder da Al-Qaeda, que começou na Corte Distrital dos Estados Unidos em Manhattan com uma acusação feita no dia 10 de junho de 1998 e ampliado ao longo dos anos com versões posteriores, acrescentando cerca de duas dezenas de acusações.

Uma versão recente do indiciamento foi usada recentemente contra Ahmed Khalfan Ghailani, o primeiro prisioneiro de Guantánamo, para que fosse julgado no sistema civil. Entre aqueles ainda acusados no indiciamento estão Ayman al-Zawahri, segundo no comando a Al-Qaeda.

A primeira acusação contra Bin Laden tem oito páginas e o acusa de conspiração para atacar as instalações de defesa dos Estados Unidos. Mas, ainda que a acusação original pareça quase esquecida na era pós-9/11 e os debates sobre a Justiça civil versus a Justiça militar, ela ainda é usada por investigadores como prova de que as autoridades tinham compreendido a ameaça representada por Bin Laden e poderiam ter ido atrás dele muito mais cedo.


"Isso mostra que, apesar de tudo o que dizem, havia pessoas no governo que sabiam sobre Bin Laden antes do 11/09 e estavam dispostas a fazer algo a respeito", disse Daniel J. Coleman, que em 1996 foi o primeiro agente do FBI a realizar uma investigação detalhada sobre Bin Laden para a CIA. "Houve uma falta de vontade política para fazer qualquer coisa", disse Coleman, que agora é aposentado.

História

O indiciamento detalha a história da Al-Qaeda e o papel de Bin Laden como seu líder. Nele há acusações de que seus agentes haviam treinado tribos somalis em uma emboscada realizada em 1993 que matou 18 soldados dos Estados Unidos em Mogadíscio.

Acusações posteriores falam de uma ampla conspiração que incluía também os atentados em 7 de agosto de 1998 a duas embaixadas dos Estados Unidos na África, que matou 224 pessoas, e o ataque à embarcação destroyer Cole em 2000.

A acusação original, mantida inicialmente em segredo, aconteceu em um momento em que a CIA estava considerando um plano para capturar Bin Laden e entregá-lo para julgamento, tanto nos Estados Unidos quanto num país árabe, segundo um relatório da Comissão 11/09. Esses planos não foram concretizados, mas a investigação continuou.

"Não havia nenhuma dúvida do nosso ponto de vista de que no momento da acusação de junho de 1998 o objetivo era levar Bin Laden a julgamento", afirmou Mary Jo White, promotora da Corte de Manhattan na época. White disse que sempre foi considerado o risco de que ele teria sido morto em uma tentativa de captura. Mas se Bin Laden houvesse sido capturado, ela acrescentou, "nossa expectativa era de que ele seria julgado".

Noriega

Outro ex-agente, Jack Cloonan, comparou o caso com o do general Manuel Antonio Noriega, ex-líder do Panamá, que foi levado para Miami e julgado depois que foi deposto na invasão do Panamá em 1989.

Cloonan disse que houve discussões sobre como ler o direitos de Bin Laden durante sua possível prisão, acrescentando que os agentes tinham imaginado Bin Laden no tribunal de algemas e "macacão laranja".

As evidências encontradas nas primeiras investigações geraram uma cartilha sobre Bin Laden e sua organização. "Foi essencial para a compreensão da Al-Qaeda", disse Ali H. Soufan, um agente aposentado do FBI, que foi o agente do caso na investigação de Cole.

Coleman disse que soube da morte de Bin Laden depois que seu filho, um ex-ranger do exército que fez parte das operações iniciais dos Estados Unidos no Afeganistão depois do 11/9, ligou para ele na noite de domingo e disse que o presidente faria um pronunciamento.

Para Coleman, "pareceu realmente adequado que tenham jogado seu corpo no oceano" onde o Cole foi atacado. "As mortes daqueles jovens homens e mulheres nunca foram vingadas", acrescentou. "Não houve resposta militar para um ato de guerra".

Coleman e outros agentes do FBI e os promotores envolvidos na investigação inicial de Bin Laden elogiaram a operação que levou à sua morte. "Nós começamos a luta, os militares a terminaram”, disse Michael Anticev, um agente especial do FBI. "Todo mundo está orgulhoso".

Coleman disse que espera que outros acusados no caso de Bin Laden sejam levados à justice de Manhattan para julgamento. Mas, acrescentou que as ações de Bin Laden determinavam que ele não merecia nem mesmo o tratamento de um criminoso. "Ele foi longe demais", disse.

*Por Benjamin Weiser

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