Com mesquitas e bares, Dubai muda o conceito do que é ser um jovem árabe

DUBAI, Emirados Árabes Unidos - Em sua antiga vida no Cairo, Rami Galal sabia seu lugar e seu destino: se tornar zelador de um hotel, como seu pai. Mas aqui, na resplandecente Dubai, ele enfrenta a incômoda liberdade de ter que tomar suas próprias decisões.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Aqui, Galal, 24 anos, bebe cerveja quase todas as noites e considera uma jovem prostituta russa sua namorada. Por outro lado, ele também vai trabalhar todas as manhãs, algo que não conseguia no Egito. Aqui tudo depende dele: o que irá comer, se irá ao bar ou à mesquita, quem serão seus amigos.

"Eu era mais religioso no Egito", disse Galal, tragando um de seus muitos Marlboros do dia. "Aqui tudo acontece muito rápido. No Egito há mais tempo e eles têm mais controle sobre você. Aqui é difícil. Eu espero parar de beber, porque sei que é errado. No Egito, as pessoas mantêm você na linha. Aqui ninguém cuida da sua vida".

No Egito, e em grande parte do mundo árabe, existe uma onda de islamismo sendo gerada por pessoas jovens, na qual a fé e os rituais são cada vez mais importantes para se cunhar uma identidade. Mas isso não é verdade em meio à mistura étnica de Dubai, no Golfo Pérsico, onde 80% das pessoas são imigrantes de mais de 200 nacionalidades.

Esse Estado economicamente saudável, socialmente livre e ainda assim muçulmano, tem efeitos transformadores sobre os jovens homens. A religião se tornou uma escolha pessoal e o Islã passou a representar menos o elo comum do que a nacionalidade.

Tranformações

Dubai é, de muitas formas, uma visão do que o resto do mundo árabe poderia se tornar, caso oferecesse a mesma oportunidade econômica, estrutura legal e tolerância à diversidade cultural. Neste ambiente, a religião não é algo que os jovens procuram porque preenche um vão ou porque respondem a uma exigência coletiva.

Isso, por sua vez, cria uma atmosfera que é aberta não apenas para aqueles inclinados a um modo de vida menos observante, mas também para aqueles que são mais religiosos. No Egito, Jordânia, Síria e Argélia, um homem com barba comprida é tratado como um radical (e muitas vezes não consegue emprego). Não aqui em Dubai.


Jovens em Dubai desfrutam de liberdade incomum em outros países árabes / NYT

"Aqui eu posso praticar minha religião de forma natural e livre porque esse é um país muçulmano e também posso atingir minhas ambições profissionais", disse Ahmed Kassab, 30, engenheiro elétrico de Zagazig, no Egito, que usa barba comprida e um marcador de reza na testa. "As pessoas aqui julgam você por sua produtividade e não por sua aparência. Com certeza isso é diferente no Egito".

"Playground"

Ninguém sabe ao certo porque Dubai foi poupada do tipo de extremismo religioso que atinge outros países da região. Não existe nem mesmo a necessidade de detectores de metais na entrada de hotéis e shoppings, algo comum do Marrocos à Arábia Saudita.

Alguns especulam que Dubai é como Viena durante a Guerra Fria, um playground para todos os lados. O sistema de segurança do Estado é robusto, mas também há uma sensação de diversidade, tolerância e oportunidade que geram moderação.

"Ninguém terá raiva do sistema", disse Tarik Yousef, reitor da Escola de Governo de Dubai. "Você pode não gostar de algo, mas aqui encontrará o suficiente para ser feliz. Emprego e uma mesquita aberta
24 horas por dia".

Dubai brilha, mas também confunde. A cidade parece oferecer um acordo simples (trabalhe muito e ganhe dinheiro), mas está cheia de desigualdades e exploração.

Aqui é uma terra de regras: não fume, não suje, não corra, não beba antes de dirigir. Mas também desafia qualquer um a desafiar as limitações. Na cidade está a torre de vidro Burj Al Arab, a maior do mundo. O shopping Dubai Mall, também o maior de sua espécie.

Em Dubai será criada a primeira ilha feita pelo homem no formato de uma palmeira (que muitos não acreditaram) e uma montanha para ski dentro de um prédio. Pode ser que seja construído um novo hotel, o maior de Dubai, que irá esfriar a areia do deserto para seus hóspedes.

Além disso, aqui há crédito e cartões de crédito para qualquer um que trabalhe... e nenhum imposto.

Por MICHAEL SLACKMAN

Leia mais sobre Dubai

    Leia tudo sobre: países árabes

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG