Com espírito enfraquecido, cidade brasileira prossegue com dificuldades

TRIZIDELA DO VALE ¿ Sentado em uma cadeira de metal no telhado plano da única casa que teve em sua vida, Genesio Alves de Souza olha a rua inundada e imagina quando poderá retomar sua vida como dono de bar.

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Pessoas se divertem pulando nas águas das enchentes no Maranhão

Claro que tudo depende de quando o nível da água, que chegou quase ao telhado das casas nos últimos dias da pior inundação na cidade em mais de duas décadas, finalmente deixar aparecer a calçada dessa humilde cidade nordestina, disse ele.

Aquela casa de número 71 ficou coberta ontem, disse Souza, 58, apontando para uma porta do outro lado da rua. Hoje você pode ver a maior parte dela. A água está baixando, lentamente. Talvez, lá pelo meio de junho, tudo isso terá acabado. Temos que acreditar que Deus tem um plano.

Já faz mais de um mês desde que chuvas torrenciais inundaram as margens dos lagos que representam cerca de 40% da cidade e o rio que a cerca, forçando 11 mil de 18.400 moradores a deixarem suas casas. Enquanto suprimentos de emergência chegam aos poucos, habitantes como Souza podem apenas esperar pacientemente pelo recuo das águas das enchentes.

A inundação transformou essa cidade de construções com telhados vermelhos em uma cidade aquática onde o transporte só é possível usando barco ¿ ou nadando.

Dias se tornaram semanas, testando interminavelmente o espírito ensolarado das pessoas de Trizidela, um local modesto no interior de um dos Estados mais pobres do Brasil, o Maranhão. Os residentes estão tentando vencer o tédio de não poder ir à escola ou ao trabalho, pescando nas ruas e dando pulos acrobáticos no rio.

Eles já passaram por grandes enchentes. Mas muitos dizem que a água nunca chegou a um nível tão alto ¿ ou levou tanto tempo para secar.

"A situação se tornou precária e a autoestima das pessoas está bem baixa", disse Francilene Silva, 22, olhando pela varanda dos amigos para a cidade inundada. "Isso está se arrastando por muito tempo. Muitas pessoas estão realmente assustadas".

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Moradores usam o único meio de transporte para
se movimentar pelas ruas da cidade

As casas estão inundadas acima das janelas. As lápides do cemitério aparecem em meio às águas, mas só parte delas. O único sinal de um parque público que existia é uma grande placa onde costumava ser a entrada.

A parte principal de Trizidela, na rua Santo Antonio, ainda tem movimento, mas nesses dias apenas é ouvido o som de motores de barcos e dos remos batendo na água. As balsas, do tamanho de canoas, transportam todo tipo de pessoa e seus pertences ¿ mulheres cuidando de bebês, motos, gaiolas de pássaros ¿ para um lado e para outro de maneira metódica, sem nenhum guarda de trânsito à vista.

Passando pelas ruas inundadas em um pequeno barco a motor, parecia possível tocar os fios baixos de telefone ao ficar de pé. Dúzias de gatos observavam dos telhados quase na mesma altura em que o barco passava pela casa de Souza, ao lado de um grupo de crianças em trajes de banho flutuando em tubos com o interior preto, brincando alegres mesmo sem saber nadar.

Um homem deitado em uma rede, entre as portas de uma loja de materiais para carros, esfregava os olhos de sono. Ele foi contratado para proteger o local de ladrões que percorrem as ruas de barco durante a noite.

Respirando fundo, Rondiney da Silva nadava para perto do barco para dizer que ladrões haviam entrado em sua casa e que sua família, como muitas, está sobrevivendo de cestas básicas entregues pelo Estado e pelo governo local a cada duas semanas.

"Quando a água finalmente baixar, as pessoas sofrerão muito mais", disse Silva 19. "Elas não receberão mais entregas de comida. Teremos que reconstruir o bairro novamente".

Silva, que trabalha em uma discoteca, estava usando o tempo para filmar um documentário sobre enchentes ¿ antes de seu equipamento de vídeo ser arruinado pela água. Ele tentou alcançar a parte de baixo de seu telhado para pegar um DVD para o filme. Eu queria mostrar como é a vida das pessoas aqui, os bons tempos, os momentos engraçados, disse.

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O nível da água chegou até janelas de casas da cidade nordestina

Mudança não é uma opção para a maioria das pessoas da cidade. As casas custam menos de US$ 2.500 (cerca de R$ 5 mil) e muito mais em outros lugares, de acordo com residentes. A renda média mensal das famílias é de cerca de US$ 125 (aproximadamente R$ 250), o que não chega quase à metade do salário mínimo no Brasil, de US$ 225 (R$ 465).

Ainda assim, mudar-se é aconselhável. Os climatologistas dizem que o Brasil nunca viveu um clima tão extremo nos últimos anos, incluindo intensas enchentes e secas, e que essa tendência deve continuar pelas próximas décadas. Abril foi o terceiro mês mais úmido dos últimos 50 anos no Nordeste do País.

Janio de Souza Freitas, prefeito de Trizidela, quer reduzir os riscos realocando mil famílias para um lugar mais alto, em um novo bairro. No ano passado, enchentes também causaram destruição, e graves inundações ocorreram em 1985 e 1974. Naquela época, a população era menos da metade do que é hoje e poucos previram que os desastres continuariam, disse ele.

Por enquanto, as autoridades da cidade estão frustradas pela lenta entrega de suprimentos de emergência e pela redução dos recursos da cidade. As principais indústrias da região são fábricas de cerâmica e de sabão. As enchentes deixaram a cidade sem água potável por um mês. Os moradores que continuam a viver em meio às enchentes, em contato com gasolina, óleo diesel e químicos de limpeza doméstica, estão arriscando a saúde, disse o prefeito.

Por ALEXEI BARRIONUEVO

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