Com crise de moradia, venezuelanos vivem em arranha-céu inacabado

Lar de 2,5 mil sem-teto, prédio de 45 andares conhecido como Torre de David começou a ser construído nos anos 90 em Caracas

The New York Times |

Os arquitetos ainda chamam o arranha-céu de 45 andares de Torre de David, em homenagem a David Brillembourg, o ousado financiador que a construiu na década de 90.

O heliporto no telhado permanece intacto, um lembrete das limusines aéreas que supostamente iriam usá-lo para transportar os banqueiros que trabalhariam no local.

A torre de escritórios, um dos mais altos arranha-céus da América Latina, deveria ser um emblema da coragem empresarial da Venezuela. Mas essa era ficou no passado. Agora, com mais de 2,5 desabrigados fazendo do prédio a sua casa, ele simboliza algo totalmente diferente no centro de Caracas.

Os novos moradores vivem no arranha-céu incompleto, que carece de várias amenidades básicas como um elevador. O cheiro de esgoto não tratado permeia os corredores. Crianças sobem por escadas sem iluminação guiadas pelo brilho de telefones celulares. Alguns recém-chegados dormem em barracas e redes.

O arranha-céu, cercado de cartazes e murais proclamando o avanço da "revolução bolivariana" do presidente Hugo Chávez, é um símbolo da crise financeira que assolou o país na década de 90.

Quando Chávez assumiu o cargo em 1999 e expandiu o controle do Estado sobre a economia, teve início o agravamento da falta de habitação, fazendo com que os sem-teto invadissem inúmeras propriedades na cidade.

Poucos dos terraços do prédio têm grade. Até mesmo paredes e janelas estão ausentes em muitos dos andares. No entanto, dezenas de antenas parabólicas da DirecTV são vistas nas varandas.

Crise

Antes uma das cidades mais desenvolvidas da América Latina, Caracas agora enfrenta uma aguda falta de habitação de cerca de 400 mil unidades, que cria espaço para as invasões de prédios em construção.

Na área em torno da Torre de David, sem-teto ocuparam 20 outras propriedades, incluindo os prédios da aviação Viasa e da Rádio Continente.

Os sem-teto tomam conta dos arranha-céus. Eles se irritam quando são chamados de "invasores", o termo usado localmente para designar os posseiros.

Um salão de beleza funciona no térreo. Em outro andar, um dentista sem licença coloca aparelhos dentais coloridos que compõem a moda das ruas de Caracas. Praticamente em cada andar existe uma pequena bodega.

Em seu apartamento, que foi planejado para ser o escritório de um banqueiro, Jose Hernandez mostrou sua vista, que incluiu a favela Petare onde ele cresceu. Agora ele veste uma gravata e paletó diariamente para ir trabalhar em um banco.

"Eles me chamam de invasor e eu trabalho no departamento de crédito do Banco da Venezuela", disse Hernandez, referindo-se à instituição estatal que o emprega. "A sociedade nos odeia e o governo não sabe o que fazer com a gente. Será que eles realmente pensam que nós queremos viver na Torre de David?"

*Por Simon Romero e Maria Eugenia Diaz

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