Coletânea de cartas revela intimidade e personalidade do poeta beat Allen Ginsberg

Em junho de 1958, Allen Ginsberg escreveu a Jack Kerouac sobre uma série de catástrofes que haviam atingido membros de seu círculo em West Coast. Neal Cassady estava na prisão do condado de San Bruno, aguardando julgamento por ter oferecido maconha a uma dupla de policiais à paisana. Uma amiga ¿ Connie, a pequena amaldicioada¿ ¿ havia caído nas mãos de algum maluco que tentou estrangulá-la na terça-feira. Segundo uma fonte externa, um ¿homem do mar confessou o ocorrido na tarde do mesmo dia¿. Al Sublette, que aparece no romance de Kerouac ¿Big Sur¿ com o nome de Mal Damlette, também estava detido ¿ ¿ouvi dizer que foi por assaltar uma casa¿.

The New York Times |

Todas as novidades da Costa Oeste, grande parte trazida por Carolyn ¿ a esposa intratável de Cassady, com quem Ginsberg havia rompido a amizade desde que ela o encontrou na cama com Neal ¿ parecem  maldades¿ exceto as cartas de Gary. Em um bilhete que escreveu para o próprio Cassidy duas semanas mais tarde, Ginsberg admitiu estar perdido demais para oferecer ajuda prática. Escrevi para Gary Snyder, ele é o único que tem um senso forte para¿ encontrar o que precisa ser feito.

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Allen Ginsberg observa exposição de fotos suas em uma universidade norte-americana

O gráfico da vida emocional de Ginsberg subiu e caiu de maneira alarmante através dos anos (ele morreu em 1997 aos 70 anos). As cartas publicadas no início do livro The Letters of Allen Ginsberg (ainda sem edição no Brasil) refletem uma aflição multifacetada: as severas crises nervosas de sua mãe, os temores relacionados à sua própria saúde mental e uma ansiedade sexual generalizada. Em 1949, depois de ter caído nas mãos de pequenos criminosos, ele foi preso por abrigar mercadoria roubada, sendo em seguida transferido para o Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova Iorque. Ali ele conheceu Carl Solomon, para quem mais tarde dedicou o poema Uivo.

Todavia, ao longo de um quarto de século, Ginsberg havia se tornado o poeta vivo mais famoso da América, atraindo uma congregação na qual leitores comuns se misturavam a ativistas politicos, estudantes de filosofia oriental e uma variedade de infortúnios sociais. A famosa declaração de Wordsworth ¿ Nós poetas começamos em nossa juventude com contentamento / Mas daí chegamos ao fim em desalento e loucura ¿ parece ter sido invertida por Ginsberg. O visionário inspirado por Blake e homossexual assumido aproveitou todas as oportunidades para demonstrar que a franqueza triunfava sobre a vergonha ¿ ao tirar suas roupas durante um sarau, por exemplo. Da loucura ao contentamento parecia ser sua maldição determinada. Se o mundo parecia relutante demais para prosseguir, a solução era óbvia: mude o mundo.

Entretanto, cartas escritas no final dos anos 1980 para seu parceiro de longa data, Peter Orlovsky, e para seu amigo também poeta Gregory Corso, sugerem que Ginsberg, um homem de grande genialidade e generosidade nata, abriu trilhas para velhos dissabores atrás dele. Eles surgiram na forma da dependência ao álcool e às drogas de outras pessoas, auto-centrismo patológico e violência ocasional. Em junho de 1987, ele lançou um ultimato a Orlovsky, que havia dado um soco na boca do psiquiatra R.D. Laing durante um encontro no Colorado, deixando Laing com um lábio inchado e com hematomas.

A lembrança de Orlovsky sobre o evento era obscura, por isso Ginsberg se sentiu obrigado a relembrá-lo: Você derramou leite e suco de maçã sobre o harmonium e fez o mesmo com o Dr. Laing¿ A tampa de um bule de chá foi quebrada, deixando pequenos fragmentos. Ainda não tinha passado o aspirador e eu estava machucado demais para colocar as coisas em ordem. Tem um queimado de cigarro no tapete e outro no piso do corredor. Meu queixo foi atingido quando você virou a mesa de centro enquanto eu estava sentado no sofá, assistindo você e o Dr. Laing se atacando. A violência tinha atingido níveis tão altos depois que você mordeu o Dr. Laing na boca que, depois que te derrubei no chão em fúria, e você jogou uma cadeira em mim¿ finalmente chamei a polícia.

Em uma carta que escreveu para Corso no ano seguinte, Ginsberg reclamou que era impossível conduzir uma conversa com outras pessoas em seu próprio apartamento, enquando Corso exigia atenção separada completa, como uma criança descontente que faz birra¿ acho que você está tentando me causar problemas. Finalmente decidi não aceitar isso, Gregory, só vou te ver quando você estiver sóbrio. Detido por uma noite, Orlovsky foi solto na manhã seguinte. Deus sabe onde isso vai parar. Outro poeta e amigo, Anna Waldman, culpou Ginsberg por dar permissão a Orlovsky, reativando continuamente uma dependência mútua.

Através da história revelada por Bill Morgan ¿ biógrafo e arquivista de Ginsberg, que escolheu 165 cartas dentre mais de 3.700 cuja existência se sabe ¿ Ginsberg treina seu olhar sobre o equilíbrio ardiloso. Em 1968, ele adquiriu uma fazenda em Cherry Valley, estado de Nova York, que guardava a promessa de tranquilidade rural. Em uma carta para Snyder, ele descreveu o ambiente: temos três cabras (agora eu ordenho cabras), uma vaca, um cavalo (uma égua castanha), 15 galinhas, 3 patos, 2 gansos¿ Mais parece um kibbutz que uma comunidade. Entretanto, Corso e Orlovsky também estavam presentes, assim como Julius, o irmão difícil de Orlovsky. Ao se despedir no final da carta, Ginsberg disse a Snyder: Continuo me perdendo em caminhos de fúria mental, depois volto a ordenhar as cabras.

O livro The Selected Letters of Allen Ginsberg and Gary Snyder, também editado por Morgan, é repleto de discussões sobre meditação e estudos orientais, nas quais Snyder aparece como mestre e Ginsberg como o ávido discípulo. Os dois se conheceram em Berkeley em 1955 e participaram do famoso sarau Six Gallery, no qual Ginsberg vez a primeira notável leitura do poema Uivo. Após o evento, que serviu como uma recepção informal para a Geração Beat em San Francisco, ele publicou Uivo e outros poemas, que se tornou o sujeito de um obsceno processo judicial. Depois disso ele se mudou para a Europa para juntar forças com William Burroughs. Naquele período, Snyder entrou para um mosteiro zen budista, embarcando em uma temporada de estudos que duraria até seu retorno permanente aos Estados Unidos, em 1969.

Os caminhos separados dos dois estão marcados através de toda a correspondência. Em julho de 1967, Ginsberg escreveu: Estive em Londres ¿ preso ler Who Be Kind To no festival de Spoleto¿ Noite com Paul McCartney. No início do ano seguinte, de volta aos Estados Unidos, ele contou que havia sido julgado por participar de uma palestra e experimentar o sentido da verdadeira ameaça autoritária do governo estabelecido, e a falta de quaisquer alternativas além da violência urbana black power ou o afastamento para países Neolíticos. Snyder, escrevendo do Japão, recomendava um jornal que continha meu breve testemunho do Banyam Ashram no ultimo verão. Ainda acho que seria algo tranquilo e criativo para você fazer este ano ¿ venha para cá e junte-se a nós nas atividades rurais e na pesca ¿ nada de jornalistas, nada de literatura.

À medida que a experiência do Cherry Valley foi se afundando devido ao peso da indisciplina ¿ A fazenda nunca se tornou a fuga dos vícios como Ginsberg tinha esperado, Morgan escreveu em um de suas anotações de grande valia, que aparecem ao longo de Letters of Allen Ginsberg, mas estão ausentes da edição de bolso ¿ Ginsberg se apegou a Snyder no sentido material, ao construir uma pequena casa na propriedade de 100 acres que Snyder havia adquirido, juntamente com outros colonizadores que pensavam como ele, nos pés da Sierra Nevada, onde vive até hoje. Os planos de erguer a choupana, o ofício qualificado para sua construção ¿ Caro Gary: cabana de 10 x 11 finamente construída, parece ideal ¿ e os preparativos subsequentes para o uso quando Ginsberg estivesse ausente (grande parte do tempo) formam a base de Selected Letters. Snyder é revelado como um homem de sabedoria tanto prática quanto mística, com uma facilidade para contabilidade. O respeito mútuo é a nota dominante.

Leitores que esperam encontrar trocas de crítica literária construtiva provavelmente ficarão decepcionados, o que é uma pena pois, quando elas chegam a ocorrer, são bastante pontuais. Ao fazer uma seleção da poesia de Snyder para um curso de professores em 1967, Ginsberg escreveu: Folheei o ultimo livro ¿ Turtle Island ¿ em busca de exemplos de solidez de escrita e percebi que você estava ficando tão ruim quanto eu em generalizações psicopolíticas que violam regras, não em idéias, mas em coisas. Alguns anos mais tarde, tendo lido a coletânea de Snyder intitulada Axe Handles, Ginsberg chama atenção para uma força que seu amigo estava apto a neglicenciar: Gosto mais dos poemas nos quais você tem uma estrutura narrativa definida.

Os artistas mais consultados por Ginsberg, baseando-se nesta evidência, não são poetas, mas cantores. Ao visitar Pound em 1967, ele levou discos de Beatles, Dylan e Donovan como presentes. Pound se sentou feliz por uma hora de rock barulhento, mas permaneceu em silêncio no restante do tempo. Quando ele visitou Lennon em 1967, o Beatle admitiu ter dificuldades com palavras escritas, mas contou a Ginsberg que certa noite tinha ouvido Uivo no radio e de repente percebeu o que eu estava fazendo e consegui absorver. Para seu futuro biógrafo Barry Miles, Ginsberg escreveu: Certamente foi bom ouvir Lennon fechar aquela lacuna, completar o círculo e me tratar como um artista companheiro ao me acompanhar até a porta ao nos despedir-mos.

Há uma vasta quantidade de material documental sobre Ginsberg disponível: diários, entrevistas, biografias, uma edição comentada de Uivo editada por Miles (talvez o melhor livro sobre a poesia de Ginsberg), e agora estes volumes de cartas editadas com devoção por Bill Morgan. Mesmo que o leitor capte o sentido que, por todas as suas explorações de possibilidades sexuais, espaço interno, pensamento zen e os continentes do mundo, Ginsberg, que repetidamente (e aparentemente com seriedade) classificou Corso com Keats, tinha o desejo de cobrir apenas um pequeno trecho da geografia literária contemporânea. Uma carta para Thom Gunn, autor de um ensaio esclarecedor sobre a poesia de Ginsberg, mostra seu apreço à crítica, que ia além da costumeira adoração cult: Fiquei tocado ¿ quase verti lágrimas ¿ por suas percepções solidárias. Gunn sentia um prazer especial pela poesia do século 16, mas sabia como ler Ginsberg com prazer: se algum dia Ginsberg chegaria a retribuir o elogio, a Gunn ou a outros escritores fora dos círculos Beat e Black Mountain, não há nenhum sinal disso aqui.

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