Coleção americana em biblioteca do Iraque atrai poucos leitores

Livros doados pelo Departamento de Estado à Universidade de Bagdá tentam ampliar influência dos EUA na sociedade iraquiana

The New York Times |

Em um canto da biblioteca da Universidade de Bagdá, grossos volumes que contam a história da Revolução Americana e da Guerra do Vietnã ficam ao lado de textos de Alexis de Tocqueville e John Updike. Livros de capa mole de Tom Clancy, Michael Connelly e Judy Blume entalham prazeres culpados. E, como se para fechar o ciclo americano, o beisebol faz uma aparição simbólica em uma cópia de "Farm Team", um romance sobre um menino que constrói um campo em um pasto.

No entanto, os leitores nunca vêm.

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Kamal Yunis, responsável pelo chamado 'Canto Americano' da biblioteca da Universidade de Bagdá, senta-se em frente às obras (14/10)

Em uma manhã recente esta seção estava vazia, como acontece na maioria dos dias. Até onde sabe Kamal Yunis, o bibliotecário responsável pelo chamado Canto Americano, nenhum estudante abriu um dos livros. A coleção foi montada pela Embaixada dos Estados Unidos aqui e é um exemplo, ainda que de pequeno porte, do tipo de programas culturais que o Departamento de Estado irá enfatizar depois que as últimas tropas deixarem o país.

Mesmo na área de laços culturais e educacionais, os diplomatas dos Estados Unidos dizem esperar conseguir uma influência maior que a do Irã – que tende a crescer após a saída dos militares americanos – ao direcionar mais estudantes e acadêmicos para ideias americanas e, espera-se, ao oferecer mais oportunidades de estudar nos Estados Unidos.

Leia também: Obama anuncia que retirada total do Iraque ocorre até fim do ano

Como quase tudo feito pelos Estados Unidos no Iraque, uma batalha de ideias será difícil de vencer dadas as profundas suspeitas em relação ao país e à sociedade civil que reemerge lentamente. As perdas causadas ao Iraque pela tirania, guerra e sanções podem ser mensuradas em termos físicos, em vidas e propriedade, e em suas marcas subjetivas na identidade e paz de espírito. Menos mensurável, no mesmo quesito, são as perdas culturais e acadêmicas.

"Em nossa sociedade, há uma grande desconexão entre pessoas e livros", disse Yunis, explicando a ausência de alunos no Canto Americano. "Eles não estão acostumados a ler em árabe, muito menos em inglês."

Não foi sempre assim. Uma antiga e famosa frase árabe diz: "Cairo escreve, Beirute publica e Bagdá lê". Essa afirmação evoca a cultura literária que florescia no país antes de ser extinta por um governo que deixou pouco espaço para a expressão individual e, eventualmente, pouco dinheiro para atividades acadêmicas.

Durante o verão, o Ministério da Cultura realizou uma feira do livro em um parque industrial no centro da cidade, a primeira desde 1980. Editoras de livros chegaram de todo o Oriente Médio, algumas antigas o suficiente para se lembrar de quando Bagdá era um farol do intelectualismo árabe.

"Estou à procura de distribuidores em todo o Iraque", disse Wafic Wehbi, executivo-chefe da Madarek, uma editora com sede em Beirute, em uma entrevista na feira do livro. Ele disse que seu best-seller na feira foi um livro chamado "Contra o Sectarismo".

A maioria do comércio literário acontece às sextas-feiras, promovido por livreiros agrupados em torno da rua Muntanabbi no bairro antigo da capital. "Aqui vira a grande biblioteca do Iraque", disse Besma Nejim, que olhava títulos em inglês na Feira do Livro. Apesar do impacto que a guerra teve sobre as classes instruídas do Iraque, ela disse, "todos nós somos ratos de biblioteca".

A coleção de livros da embaixada é parte de uma iniciativa estabelecida em outras universidades em todo o país, destinada a permitir aos alunos que pesquisem livros cuidadosamente selecionados sobre a América e encontrem informação sobre como estudar nos Estados Unidos. Cartazes buscam atrair alunos com visões idealistas de uma sociedade multicultural – um deles mostra um aluno muçulmano membro da banda de Yale tocando em um jogo de basquete.

Para os imigrantes nos Estados Unidos, um cartaz diz: "Escolas islâmicas têm surgido para atender às suas necessidades educacionais e culturais. Outros descobrem que as escolas públicas fornecem uma boa educação e promovem os seus interesses em uma sociedade multicultural".

A realidade, porém, é que os alunos sofrem com o burocrático processo de visto – isso para não mencionar rígidas verificações de segurança recentemente adotadas que reduziram drasticamente o número de iraquianos autorizados a viajar para os Estados Unidos.

"Sempre alertamos as pessoas de que existe uma oportunidade de estudar nos Estados Unidos", disse Yunis. Muitos consideram a possibilidade, disse ele, mas acham o processo difícil. Em vez disso, muitos vão para a Ucrânia.

Após a retirada militar, o Departamento de Estado pretende ampliar as oportunidades de estudos para os iraquianos nos Estados Unidos. Recentemente, o departamento patrocinou uma feira de universidades em Erbil, no norte curdo, e o governo iraquiano planeja oferecer mais bolsas de estudo para os Estados Unidos – o número de estudantes iraquianos que frequentam universidades americanas são muito mais baixos do que eram no tempo de Saddam Hussein: 423 no ano passado, segundo o Instituto de Educação Internacional, contra mais de 1,5 mil em 1985.

Diplomatas e algumas autoridades do governo iraquiano acreditam que o envio de mais alunos para estudar nos Estados Unidos pode ajudar a combater a influência iraniana no país, auxiliando na reconstrução da classe média ocidentalizada e educada que foi dizimada pela guerra do Iraque e pelas sanções.

"Se você perguntar a 500 alunos do ensino médio quem quer ir para os Estados Unidos e quem quer ir para o Irã, todos diriam que querem ir para os Estados Unidos", disse Adnan al-Zurufi, o governador do Estado de Najaf. Al-Zurufi, que tem cidadania americana, acrescentou: "Os iranianos não têm nada para dar às pessoas porque não têm democracia."

Nas prateleiras do Canto Americano da biblioteca universitária, grossas camadas de poeira cobrem cópias de "GMAT for Dummies" e "Explorando a Estratégia Corporativa." O volume de uma biografia de Lincoln espera, com ousadia, ser lido. Ao seu lado estão títulos mais indicados a estudantes que almejam a pós-graduação nos Estados Unidos: "A Criação da República Americana", de Gordon S. Wood; “Estudos Americanos”, de Louis Menand, e "Dilemas da democracia pluralista", do cientista político da Universidade de Yale Robert A. Dahl.

Embora Yunis diga que nunca viu um estudante abrir um desses livros – possivelmente porque os alunos não estão autorizados a fazer o seu empréstimo – ele disse que de vez em quando alguém folheia um volume grande sobre a geografia dos Estados Unidos que fica em uma mesa no canto ou lê folhetos que explicam como estudar no país.

"Eles pensam por um minuto, percebem que é muito difícil e depois vão embora", disse.

Por Tim Arango

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