Clérigos espanhóis se opõem à visita do papa Bento 16

Diante de fase de austeridade econômica na Espanha, mais de 100 religiosos assinaram petição rejeitando a visita do pontífice

The New York Times |

A igreja do reverendo Eubilio Rodriguez é um prédio pré-fabricado em uma área de Madri duramente atingida pela crise econômica. Em frente ao altar estão alguns vasos de plantas desalinhados. Atrás deles, algumas cadeiras de plástico.

Como, ele pergunta, pode a Igreja Católica Romana estar se preparando para uma festa de US$ 72 milhões nesta cidade - parte dela paga com o dinheiro de impostos - quando a Espanha está em meio a uma fase de austeridade, a taxa de desemprego entre os jovens é de 40% e seus paroquianos estão perdendo suas casas para a desapropriação todos os dias? "É escandaloso o preço", disse ele. "É uma vergonha. Isso tira crédito da igreja."

Rodriguez, 67 anos, está entre os 120 clérigos que trabalham com os pobres locais e assinaram uma longa petição rejeitando a visita do papa, que começa na quinta-feira, por vários motivos - do custo ao que eles veem como uma fusão inadequada de Igreja e Estado.

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Madri se prepara para receber Bento 16, que chega na quinta-feira à Espanha
Madri está se preparando para a chegada de talvez 1,5 milhão de peregrinos. Seus postes estão alegremente decorados com pôsteres. O Parque Retiro foi enfeitado com 200 cabines portáteis para confissão. Mas debates amargos estão sendo travados sobre as festividades e o papel da Igreja na política espanhola.

Os sacerdotes, juntamente com dezenas de grupos de esquerda exigindo um Estado laico e os jovens que ocuparam muitas das principais praças da Espanha durante meses para protestar contra a política econômica do país, estão planejando pelo menos uma grande marcha de protestos para esta quarta-feira.

Bento 16 chega à cidade na quinta-feira para encontrar centenas de milhares de jovens que irão comemorar o Dia Mundial da Juventude na capital espanhola. Cerca de 450 mil já se registraram, e três vezes mais são esperados, dizem os organizadores. Para acomodar suas atividades - que incluirá uma vigília de um dia inteiro no aeroporto, com temperaturas suscetíveis a 37 graus, e uma procissão noturna de obras de arte religiosas - algumas das principais ruas de Madri serão fechada ao tráfego por até seis dias.

Investimento

Oficiais do governo e da Igreja insistem que o custo para os contribuintes será mínimo e o lucro das empresas locais, substancial. A comunidade empresarial da Espanha investiu US$ 23 milhões para pagar por vários eventos e os peregrinos vão pagar US$ 44 milhões por si mesmos. Outras doações devem cobrir o resto, dizem as autoridades.

"A administração pública nos ajudou de apenas duas maneiras", disse Fernando Gimenez Barriocanal, diretor financeiro da Jornada Mundial da Juventude de 2011. Os peregrinos serão autorizados a dormir em edifícios públicos, como escolas. E as empresas serão capazes de obter deduções fiscais por suas contribuições, disse ele.

Mas os críticos chamam tais reivindicações de ridículas. Rodriguez e outros que assinaram a petição de 10 páginas dizem que os custos são sempre distorcidos quando o papa visita a cidade. Eles suspeitam que o custo extra de segurança, de coleta de lixo e do estresse sobre os sistemas de saúde irá custar milhões aos contribuintes. Os peregrinos, por exemplo, terão desconto de 80% no transporte público, o que alguns acham particularmente irritante porque as tarifas de metrô acabaram de subir 50%.

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O padre Eubilio Rodriguez é um dos 120 clérigos que se opueram à visita de Bento 16 à Espanha
Os sacerdotes não estão sozinhos em fazer tais afirmações. "Eles ainda não sabem nos dizer quanto a visita do papa custou dois anos atrás", disse Esther Lopez Barcelo, coordenadora da juventude para o pequeno Partido da Esquerda Unida. Lopez iniciou uma campanha no Twitter este mês contra a visita do papa. "Toda vez que ele vem para cá, os números tornam-se opacos", disse ela.

A Espanha é hoje menos homogeneamente católica do que já foi. Uma pesquisa do governo divulgada em julho revelou que 71,7% dos espanhóis se declaravam católicos, em comparação com 82,1% em 2001. Desses, 13% frequentam as missas de domingo, em comparação com 19% há 10 anos.

Mas a Igreja está ansiosa por manter o controle espiritual do país onde as pessoas ainda podem desviar até sete décimos de 1% dos seus impostos para a igreja.

Um porta-voz do Vaticano, o reverendo Federico Lombardi, disse em uma coletiva de imprensa em Roma que os protestos planejados contra a visita de Bento 16 "não são preocupantes ou surpreendentes", especialmente porque "existem centenas de milhares de jovens que ficarão felizes em receber o papa”. "Isso é parte da vida em um país democrático", acrescentou.

Organizadores do protesto disseram que era difícil estimar a taxa de participação porque agosto é uma época em que muitas pessoas estão fora da cidade. O Ministério do Interior da Espanha se recusou a responder perguntas sobre o evento. A Câmara Municipal de Madri passou todas as perguntas sobre a visita à sua agência de proteção civil, que disse que a visita representa desafios logísticos com os quais a cidade nunca teve de lidar antes.

"Mais de 1 milhão de pessoas de fora estarão circulando em Madri", disse Alfonso del Alamo, diretor da agência. "Um evento importante, como ganhar a Copa do Mundo, reúne apenas 500 mil. Nunca vimos nada igual a isso."

Na noite de sexta-feira, obras de arte raras dos séculos 16 e 17 representando as estações da cruz serão carregadas pelas ruas a partir das 20h, disse Del Alamo, o que significa que centenas de milhares de peregrinos se encontrarão durante a noite.

Sua agência já treinou 3 mil voluntários em primeiros socorros, comunicação de rádio para operações de emergência como retirada e controle de pânico, explicou ele. Ainda assim, ele disse, haverá sobrecarregamento. Em vez dos habituais 4 mil turnos em uma semana, os trabalhadores da agência irão fazer 10 mil turnos. Ele disse que não chegou a calcular os custos.

*Por Suzanne Daley

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