Classe média do Irã sofre com sanções econômicas

Crise provoca pânico e aumenta o ressentimento contra o Ocidente, enquanto ilustra as divisões da elite política iraniana

The New York Times |

Um sinal da profunda ansiedade que atinge a sociedade iraniana pode ser visto na Rua Manouchehri, uma ruela sinuosa no coração de Teerã, no Irã, onde multidões de homens se reúnem todos os dias para comprar e vender dólares americanos.

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AP
Líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, prepara-se para sermão durante preces de sexta-feira. Logo atrás, de casaco cinza, está presidente Mahmud Ahmadinejad

O governo aumentou a taxa de câmbio oficial do dólar e pediu que a polícia fosse às ruas para impedir negociadores do mercado negro, mas com a falta de confiança na moeda do Irã, o rial, que vem caindo dia após dia, o comércio continua.

"Se eu tenho medo da polícia? Claro que sim, mas eu preciso do dinheiro", disse Hamid, um engenheiro de construção civil que estava em pé no meio de uma multidão de vendedores da moeda. "Os preços dos alimentos estão subindo e meu salário não é o suficiente."

Olhando nervosamente ao redor, ele acrescentou que tinha convertido quase todos os seus bens em dólares. E assim como muitos iranianos, ele também havia estocado uma grande quantidade de arroz e outros alimentos básicos.

O motivo para esse comércio enlouquecido não é resultado apenas do colapso econômico - o embargo do petróleo imposto pela Europa ainda não foi implementado e há abundância de alimentos nas prateleiras -, mas sim de um sentimento crescente de pânico sobre a posição do Irã, a possibilidade da guerra e a perspectiva de mais problemas econômicos que possam estar por vir. A Casa Branca anunciou uma nova sanção na segunda-feira que visa congelar os bens iranianos e bloquear as atividades de seu Banco Central.

Medidas punitivas:
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A última rodada de sanções ao Banco Central do Irã já começou a infligir danos sem precedentes no setor privado do Irã, os comerciantes e analistas dizem que ficou tão complicado transferir dinheiro para o exterior que até mesmo empresários ricos são as vezes forçados a embarcar em aviões carregando malas cheias de dólares americanos.

No entanto, a crise econômica está afetando em grande parte a classe média, aumentando o ressentimento contra o Ocidente e complicando o esforço para deter o programa nuclear iraniano - uma prioridade central para o governo de Obama nesse ano eleitoral .

"Durante os últimos meses, os nossos clientes empresariais têm dito que seus clientes estão desistindo de negociar com eles, pois acreditam que não serão pagos", disse Parvaneh, 41 anos, que trabalha em um banco de Teerã. Assim como outros entrevistados para este artigo, ela se recusou a dar seu nome completo, temendo retaliações para si mesma e sua família.

"Eles estão começando a demitir funcionários", disse. "A economia do Irã nunca foi muito boa, mas agora parece estar pior do que nunca."

O pânico econômico crescente tem ilustrado - e, possivelmente, intensificado - as amargas divisões dentro da elite política iraniana.

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Alguns dos que fazem parte desse grupo, incluindo membros da elite da Guarda Revolucionária Islâmica, começaram a criticar abertamente o líder religioso supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, nas últimas semanas. Um dos assessores do presidente Mahmoud Ahmadinejad indiretamente acusou Khamenei de desnecessariamente antagonizar o Ocidente de maneiras que fizeram com que o valor do rial caísse, o mais recente sinal de uma discórdia entre o presidente e o líder supremo que está ajudando a definir as eleições parlamentares, que estão programadas para o dia 2 de março.

"Hoje em dia eles criticam Ahmadinejad e até mesmo o líder supremo pelo nome; não é como antes", disse Javad, 45 anos, gerente de uma agência de viagens no norte do Teerã.

Com o Irã agora importando muito arroz e outros alimentos básicos com a mesma intensidade que produzem no país, os obstáculos que serão impostos ao comércio podem se tornar muito mais significativos nos próximos meses.

A maioria dos comerciantes iranianos descartam a possibilidade de sofrerem a escassez de alimentos, dizendo que o Irã está reorientando seu comércio para o leste e sempre encontrou maneiras de contornar as sanções no passado. Mas, com o fechamento de estradas cada mês que passa, essas medidas evasivas são suscetíveis de ficar cada vez mais complicadas e caras.

Iranianos comuns se queixam de que as sanções estão lhes prejudicando, enquanto aqueles no topo estão ilesos, ou até mesmo se beneficiam dessa situação. Muitos iranianos ricos lucraram bastante nas últimas semanas, comprando dólares à taxa do governo (disponível para pessoas envolvidas) para depois vendê-los por quase o dobro de rials no mercado negro. Alguns analistas e figuras políticas da oposição afirmam que Ahmadinejad deliberadamente agravou a crise cambial de modo que seus comparsas pudessem lucrar dessa maneira.

Mesmo iranianos que se opõem ao governo tendem a enxergar a crescente pressão econômica como um gesto injusto e improvável de ter qualquer resultado positivo.

"Nós sabemos que eles querem nos pressionar para que nós nos rebelemos contra nosso governo, mas não estamos em posição de fazer isso", disse Murad, 41anos, um garçom em uma loja de chá em Teerã.

Como muitos iranianos da classe média e baixa, Murad parecia culpar tanto o seu próprio governo quanto o do Ocidente pela sua situação. Ele ganha cerca de US $ 50 por dia na loja de chá, onde ele trabalhou durante 25 anos, ele disse, e com três filhos em casa, sua vida ficou mais complicada do que era no ano passado.

"Os preços estão subindo tanto que eu tenho que trabalhar o tempo todo, e nós ainda não conseguimos sequer comprar roupas novas, mesmo que apenas uma vez por ano", disse. "Os ricos não sofrem, estão protegidos. A verdade é que eu gostaria que nós tivéssemos boas relações com o Ocidente. Qual é o objetivo do slogan 'Morte aos Estados Unidos?' Mas o que eu posso fazer à respeito disso?"

Por Robert F. Worth

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