Clãs e tribos ensaiam nova unidade no Iêmen

Duração dos protestos mais longa que revolta no Egito propicia novos laços e ajuda a superar fissuras profundas e históricas

The New York Times |

Depois de mais de quatro meses de insurreição, o atormentado Iêmen pode parecer mais dividido do que nunca, com comícios rivais tomando as ruas da capital todas as semanas e batalhas violentas no norte e sul.

Mas os protestos que ocupam as principais cidades do Iêmen uniram os iemenitas de maneira nova e notável, criando comunidades improvisadas nas quais as velhas barreiras de tribo, região, clã e gênero estão desmoronando.

No enorme acampamento armado diante da Universidade de Sanaa, na capital, tribos rivais têm abandonado suas vinganças para sentar, comer e dançar juntas. Estudantes universitários conversam com rebeldes zaydi do norte e descobrem que eles não são, de fato, os demônios retratados em jornais do governo. Mulheres que passaram suas vidas em ambientes fechados dão discursos inflamados para multidões espantadas. Quatro jornais diários são agora publicados na Praça Mudança, como é chamada, e cerca de 20 revistas semanais.

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Soldado iemenita se junta a manifestantes contrários ao governo em protesto em Sanaa
A própria duração dos protestos no Iêmen - muito mais longo que os 18 dias de revolta na Praça Tahrir do Egito - pode estar ajudando a construir novos laços e a superar algumas das fissuras profundas do país, mesmo que a elite política e seus capangas continue a atirar e matar quem cruze seu caminho.

"Em certo sentido eu fico feliz que a revolução esteja demorando muito, porque essas reuniões e discussões são saudáveis", disse Atiaf al-Wazir, um blogueiro e ativista. "Não podemos dizer que tudo mudou, mas as sementes da mudança estão plantadas”.

Os protestos estão acontecendo em todo o Iêmen e em algumas áreas acordos elaborados foram feitos para permitir que membros de tribos pudessem participar sem medo de serem emboscado por seus rivais. Muitas pessoas abandonaram seus empregos, contribuindo para o colapso econômico que agora ameaça o país.

Toda a cidade

Em Sanaa, a área de protesto é praticamente a própria área da cidade, com restaurantes, clínicas médicas, auditórios e jardins tomados por manifestantes. Além dos jornais, existem inúmeras galerias de arte e exposições, e uma infindável série de seminários e palestras.

Ao contrário da Praça Tahrir, no Cairo, a área de protesto em Sanaa não é uma praça central. É uma densa rede de ruas ao longo dos muros da Universidade de Sanaa – incluindo lojas, casas e escritórios pré-existentes – e é, portanto, mais sustentável, como uma comunidade. Quase todas as tendas têm televisões e internet, com inúmeros fios serpenteando pela rua até o edifício mais próximo.

A quantidade de pessoas na praça tem diminuído um pouco nas últimas semanas, com o calor do verão, o combate na capital e a escassez de combustível. Alguns manifestantes podem ter sido desencorajados pela longa espera e pelo vazio inquieto da política do Iêmen. O presidente Ali Abdullah Saleh está se recuperando na Arábia Saudita de queimaduras e ferimentos causados por estilhaços sofridos durante um ataque à sua mesquita e a capital está cheia de rumores constantes: o presidente está morto, o presidente vai voltar a qualquer momento em busca de vingança contra seus rivais.

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Iemenitas protestam contra governo do presidente Ali Abdullah Saleh na capital Sanaa
Ainda assim, a praça continua incrivelmente vibrante, algo como um carnaval dentro da cidade. Homens tribais com adagas em seus cintos caminham pela multidão cantando "zamils", ou cânticos tribais, contra o governo. ("Deus queimou o seu rosto, oh Ali", diz um deles em uma referência irônica ao presidente.) Vendedores rodam com carrinhos de madeira contendo tomates vermelhos brilhantes e pepinos, enquanto outros vendem sucos de frutas, pipoca e alimentos fritos.

Banners com os nomes de incontáveis facções políticas foram pendurados entre edifícios, e os rostos dos mártires mortos durante a repressão do governo decoram as barracas. O solo é uma mistura de lama, sacos plásticos, panfletos, alimentos e folhas de qat - planta que os iemenitas mastigam à tarde por seu efeito estimulante.

"Há novos valores em formação aqui", disse Dughesh Abdel Dughesh, um sociólogo. "Você pode ver um sheik grande varrendo a rua, físicos nucleares tirando lixo”.

Dughesh mudou-se para uma tenda na praça no início do protesto, juntamente com sua esposa, dois filhos e três filhas. Ele começou a dar palestras sobre sociologia e organizar seminários sobre outros assuntos.

Divisões

Nem todos os encontros são positivos. Na terça-feira, duas facções entraram em confronto após discordarem sobre uma marcha planejada, e mais de uma dúzia de manifestantes foram espancados, alguns deles hospitalizados.

O confronto serviu como um aviso de que o Iêmen continua sendo um país profundamente dividido, e que o espírito dos manifestantes de reconciliação pode azedar - assim como aconteceu no Egito após a revolução daquele país - se a revolta der lugar a mais violência ou não conseguir mudanças substanciais.

Dughesh, um liberal, disse que os islâmicos linha-dura começaram a roubar cadeiras de sua tenda depois que ele passou a fazer seminários. Os islâmicos também têm intimidado as mulheres que falam ou cantam na praça. Islah, o principal partido islâmico do Iêmen, tornou-se uma influência dominante no início do protesto, assumindo o lugar dos jovens politicamente independentes, que foram os pioneiros. Muitos manifestantes lamentam isso, dizendo que os membros mais difíceis do Islah são intolerantes com a diversidade da praça.

Outros dizem que os confrontos frequentes entre islâmicos e liberais são saudáveis, como aqueles entre todas as facções e correntes representadas na praça. A sociedade iemenita é profundamente conservadora, e quaisquer alterações à religião ou ao papel da mulher virão lentamente. Mas algumas mulheres dizem que a praça mudou suas vidas para sempre.

"Antes, ficávamos sentadas em casa como pombas presas em uma gaiola", disse Jamila Ali Ahmed, 29 anos, que usava um niqab preto cobrindo todo o corpo, menos seus olhos, como a maioria das mulheres iemenitas. "Quando chegamos à praça, sentimos a beleza da liberdade. Sentimo-nos orgulhosas e agora queremos uma vida digna”.

Na noite de segunda-feira, conforme chovia, centenas de iemenitas se aglomeraram em uma tenda conhecida como o Fórum Acadêmico. Um hidrologista da Universidade de Sanaa, vestido em um elegante terno azul, estava fazendo uma palestra sobre os terríveis problemas da falta de água no Iêmen.

Do outro lado do beco, um imã zaydi usando um turbante branco, com o rosto iluminado por uma lâmpada amarela, falou para uma multidão de jovens sobre o dever religioso de expulsar os governantes injustos. Ao longe, uma música era tocada por Muhammad al-Adra'ee, uma figura célebre na praça que entretém multidões com seu mimetismo exato do presidente iemenita.

Perto dali, Abdel Raghib Ghaylan, um professor de 32 anos, estava radiante ao distribuir cópias de uma pesquisa sobre como melhorar o sistema educacional do Iêmen. "Esse é o Iêmen real, o Iêmen que gostaríamos de ver", disse Ghaylan.

No fim da tarde, homens das províncias de Marib e Bayda formaram duas filas e começaram a fazer uma dança atlética cheia de pulos e gritos. Um poeta chegou - há inúmeros poetas na praça - e começou a cantar versos que os homens da tribo repetiam em uníssono. "Nosso povo fez uma revolução em paz", cantavam os homens, conforme o baterista marcava o ritmo em um tambor posicionado entre os seus joelhos. "Sem aviões, sem armas, temos apenas a nossa fé, nossa forte fé".

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