Cigarros estão sendo manipulados, aponta estudo

Um novo estudo da Harvard informa que nos últimos anos a indústria do tabaco tem manipulado o nível de mentol nos cigarros para capturar os mais jovens e manter a fidelidade dos adultos. O relatório pode inflamar ainda mais a controvérsia sobre a legislação pendente que atinge diretamente o tabaco.

The New York Times |

O estudo foi realizado por pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Harvard, publicado na quarta-feira, e concluiu que os fabricantes têm vendido suas marcas ao que eles chamam de população vulnerável de adolescentes e jovens adultos manipulando elementos sensoriais do cigarro a fim de causar iniciação e dependência. 

Os jovens, diz o estudo, toleram mais o cigarro mentolado que os cigarros não mentolados e mais fortes. Nos cigarros com baixo nível de mentol, o mentol marcara a aspereza fazendo com que seja mais fácil começar a fumar. Mas, na medida em que os fumantes se acostumam com o mentol, eles começam a desejar níveis mais fortes de metol, de acordo com o estudo.

As empresas de tabaco pesquisaram como o controle dos níveis de mentol pode aumentar as vendas para públicos específicos, aponta o estudo.

Eles descobriram que produtos com maior nível de mentol, e com a percepção mais forte desse componente, eram preferidos por fumantes veteranos, e marcas com menor nível de mentol tinha mais apelo junto ao público adolescente.

Público jovem

O estudo concluiu que 44% dos fumantes entre 12 e 17 anos preferem cigarros mentolados, e pede a regularização da indústria do tabaco mentolado em especial.

Cigarros mentolados normalmente são responsáveis por aproximadamente 28% dos U$70 bilhões de cigarros da indústria norte-americana.  

Um porta-voz da empresa que é dona da Philip Morris, fabricante do Malboro, uma das marcas citadas pelo estudo, negou na quarta-feira que tenha alterado o nível de mentol para atingir os fumantes mais jovens.

Mas o estudo afirma que a Philip Morris empregou uma estratégia dupla para melhor competir no mercado de mentolados, um segmento da empresa que vinha retraindo até o ano 2000. 

A empresa lançou um cigarro com menor nível de mentol, o Malboro Milds, para competir com cigarros como o Newport, que contém níveis mais baixos de mentol. Ao mesmo tempo, o estudo concluiu que a Philip Morris aumentou em 25% o nível de mentol no Malboro Metol para ter mais apelo junto aos adultos.

A Malboro precisava de um produto com menor nível de mentol que pudesse satisfazer as necessidades dos fumantes mais jovens, assim como um produto com maior nível de mentol para os fumantes veteranos, alega o estudo.  

Estratégia econômica

Desde que a Philip Morris fez alterações, o mercado de mentol cresceu e ela passou a ser a segunda maior vendedora de cigarro dos EUA.

Um porta-voz da Altria, a empresa dona da Philip Morris, negou as hipóteses e os fatos apresentados no estudo.   

Nós discordamos das conclusões de que os níveis de mentol em nossos produtos são manipulados para ganhar o mercado adolescente, disse David M. Sylvia, porta-voz da Altria na quarta-feira.  Nós não pesquisamos o mercado, nem criamos produtos, nem queremos atingir os menores de idade. A marca líder de cigarros mentolados é a Newport, criada pela Lorillard.

Um porta-voz da companhia, Michael W. Robinson, disse na quarta-feira que seus produtos não são dirigidos para públicos específicos. A Lorillard não controla os níveis de mentol para promover cigarros entre os adolescentes e jovens adultos, disse Robinson durante pronunciamento.

O estudo, publicado pela American Journal of Public Health, também encontrou diversas alterações no nível de mentol desde 2000, que os autores afirmam ter ocorrido para atingir públicos específicos de fumantes. Eles são da Newport, pertencente a Lorillard, e cigarros produzidos pela RJ Reynolds: Salem Black Label, Salem Green Label, Camel Menthol, Kool and Kool Milds. 

Questão política

O doutor Howard Koh, um dos autores do estudo, acusou a indústria do tabaco de insistir em uma estratégica muito sofisticada para atrair o público jovem e dar a eles a quantidade de mentol que eles desejam.

Em uma declaração oficial, um porta-vos da RJ Reynolds disse que alegações não eram verdadeiras.

Parece que esse estudo é um esforço para pressionar o governo federal para a regularização da indústria do tabaco, e não um estudo científico dos cigarros mentolados, disse o porta-voz da Reynolds, David P. Howard.  

Um projeto pendente no Congresso pode dar a Food and Drug Administration (FDA, a agência federal americana de controle de alimentos e medicamentos) autoridade para regular o tabaco e remover aditivos do cigarro, incluindo o mentol. Mas enquanto a legislação pode banir muitos dos componentes do cigarro, ela preserva o mentol especificamente. 

A questão é particularmente controversa porque o cigarro mentolado é preferido por fumantes negros, parte da população que tem altas taxas de cânceres relacionados ao cigarro.  

Koh, diretor da divisão de saúde pública da Escola de Saúde Pública de Harvard, disse que sua equipe não quer que o cigarro mentolado seja banido, como clamam alguns ativistas antitabaco.

A visão da nossa equipe é que o projeto da FDA tenha a autoridade de regular o mentol e faça isso de maneira científica em uma área muito, muito complicada, disse Koh. 

Koh disse ainda que o estudo, iniciado há mais de dois anos, foi estimulado por dados que mostravam que as vendas do cigarro mentolado não decresceu como outros segmentos da indústria do tabaco.   

Está é uma área onde a indústria estava claramente mantendo a participação no mercado, se não aumentando em entre setores da população, disse Koh, então queremos escavar mais fundo e explorar o mecanismo exato do processo. 

Por STEPHANIE SAUL

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