Cientistas ocupam lugar de destaque no gabinete de Obama

EMERYVILLE, Califórnia ¿ O Instituto Unido de BioEnergia, que ocupa o quarto andar de um prédio comercial de alta tecnologia em uma bairro de empresas de biotecnologia, irradia uma lustrosa modernidade ecológica: placas de piso fabricadas com material reciclado e laminadas para se parecerem com bambu, mobília de escritório modernosa e laboratórios cheios de equipamentos novos.

The New York Times |

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Ele tem até um apelido estiloso: Jay-Bay. É assim que os americanos pronunciam JBEI, a sigla do nome em inglês. O instituto tem a cara e o jeito ¿ e o organograma ¿ de um empreendimento iniciante, e não de um laboratório federal de pesquisa.

Mas o JBEI é financiado pelo Departamento de Energia ¿ US$ 135 milhões em cinco anos. Ele é supervisionado pelo Laboratório Nacional Lawrence Berkeley na vizinha Berkeley, cujo diretor, Steven Chu, foi selecionado para ser o próximo secretário de energia.

Durante a semana passada, o presidente eleito Barack Obama fez impressionantes anúncios de nomeações relacionadas à ciência como a de Chu e disse que as descobertas científicas guiarão a política.

Durante anos, Chu foi inequívoco ao afirmar que o dióxido de carbono emitido por carros, fábricas e indústrias é a causa direta do aquecimento global e que são necessárias ações urgentes para reduzir as emissões ¿ e evitar a perturbação do clima do planeta.

Chu ainda não se pronunciou publicamente sobre seus planos ou metas como secretário de energia, e não falou à imprensa desde sua nomeação. Porém, suas ações como diretor no Lawrence Berkeley, incluindo a criação do JBEI, dão dicas de como ele pode intimar os 17 laboratórios nacionais ¿ ou pelo menos aqueles não dedicados à pesquisa de armas nucleares ¿ a lidar com assuntos relativos ao clima e à energia.

O JBEI, cuja missão é usar a suposta biologia sintética para converter a celulose vegetal em combustível, mudou-se para sua casa em Emeryville em maio último. É uma entre muitas investidas da Lawrence Berkeley em combustíveis alternativos ¿ área sobre a qual o laboratório não conduziu quase nenhuma pesquisa antes de Chu assumir a diretoria, em 2004.


Obama anuncia equipe para a ciência / AP

Chu sempre sustentou que os mercados livres não serão suficientes para impulsionar as mudanças necessárias no uso da energia, e Obama destacou os esforços de Chu junto aos combustíveis renováveis ao anunciar sua escolha. Steven é incrivelmente adequado para ser nosso próximo secretário de energia, à medida que tornamos esta busca um propósito-guia do Departamento de Energia, assim como uma missão nacional, disse Obama.

Com Chu, Obama escolheu alguém com credenciais científicas inquestionáveis ¿ Chu compartilhou o Nobel da Física em 1997 por usar lasers para resfriar átomos a temperaturas logo acima do zero absoluto ¿ e experiência administrativa dentro do Departamento de Energia. Lawrence Berkeley tem 4 mil funcionários e um orçamento de US$ 650 milhões.

Ao contrário da maioria dos laboratórios federais de pesquisa, cujos orçamentos foram cortados ou retalhados nos últimos quatro anos, o de Lawrence Berkeley cresceu cerca de 20% durante esse tempo.

Pesquisadores do laboratório exploraram, tradicionalmente, uma variedade de ciências básicas como física, química e biologia. Desde os anos 70, o laboratório tem uma divisão trabalhando na conservação de energia ¿ o desenvolvimento de padrões de energia para ferramentas, por exemplo. Mas a maioria dos pesquisadores trabalhava em seus interesses particulares, algumas vezes com colaboração, outras sem.

Chu decidiu que o laboratório deveria assumir um esforço mais centralizado em energia, que ele considerava um dos assuntos científicos e tecnológicos mais prementes do século XXI. Ele motivou a equipe, recrutou cientistas e usou seu prestígio do Nobel para atrair atenções à necessidade de substituir os combustíveis fósseis.

Ele chegou com essa visão, e acredito que isso realmente energizou muita gente aqui e alterou as direções de pesquisa de uma forma muito boa, afirmou A. Paul Alivisatos, vice-diretor. Chu também mostrou disposição, talvez até zelo, para equilibrar os caminhos tradicionais dos laboratórios nacionais. Um segundo centro de pesquisa de biocombustíveis montado sob a atenção de Chu é financiado com US$ 500 milhões pela BP, a companhia de petróleo, em uma colaboração de magnitude sem precedentes para um laboratório nacional.

Em meados de 2005, cerca de nove meses depois de se tornar diretor, Chu chamou Jay Keasling, chefe da divisão de biociência física do laboratório, e Alivisatos, o então chefe da divisão de ciência material, para uma reunião conjunta. Ele disse, Quero trabalhar com a energia, lembra Keasling. E ele queria trabalhar com combustíveis de transporte.

Na batalha para reduzir as emissões de dióxido de carbono, carros, caminhões e aviões representam um difícil problema, pois grande parte das fontes alternativas de energia ¿ nuclear, eólica, solar ¿ não funciona na pequena escala necessária para transporte, e a tecnologia da bateria ainda precisa de maiores avanços.

Os biocombustíveis, fermentados e destilados a partir de plantas, podem oferecer uma solução. Embora a queima de biocombustíveis emita dióxido de carbono, trata-se do mesmo dióxido de carbono que as plantas sugaram do ar.

No entanto, o cultivo de plantas para combustíveis compete com o cultivo de alimentos. Além disso, o etanol derivado do milho, o biocombustível em uso hoje nos Estados Unidos, consome uma energia considerável em sua produção ¿ e isso reduz drasticamente quaisquer benefícios ecológicos.

Chu espera encontrar (ou projetar) plantas para biocombustíveis melhores, e desenvolver processos para quebrar a celulose e transformá-la em combustível a custos competitivos frente à gasolina.

Steve estava comandando isso muito antes da gasolina a US$ 4, contou Keasling, que hoje trabalha como presidente do JBEI.

Keasling e Alivisatos foram colocados como responsáveis pelo que era chamado de visão Hélios, transformar a luz solar em combustíveis renováveis.


Chu reforça o gabinete de Obama / AP

A própria pesquisa de Keasling foca em projetar micróbios para produção de compostos químicos em particular. Seu maior sucesso foi uma bactéria que produz um medicamento anti-malária. Com o incentivo de Chu aos biocombustíveis, Keasling hoje direciona essa pesquisa de biologia sintética a micróbios que poderiam facilmente quebrar a celulose das paredes celulares de plantas e transformá-la em açúcares, um processo que hoje demanda temperaturas altas ineficazes.

Eu sempre pensei nos biocombustíveis e na bioenergia, disse Keasling, mas neles não havia lucro, interesse ou financiamento de agências federais.

A propaganda de Chu ajudou a gerar financiamentos. No verão de 2006, o Departamento de Energia anunciou uma concorrência para a montagem de três centros de pesquisa em bioenergia. Uma proposta do Lawrence Berkeley e de vários outros parceiros se tornou o JBEI, preenchendo um componente da visão Hélios original. Enquanto isso, a BP oferecia US$ 50 milhões anuais, por 10 anos, para a criação do Instituto de Biociências e Energia, que está conduzindo pesquisas mais básicas sobre biocombustíveis. Chu motivou a Universidade da Califórnia, em Berkeley, juntamente com o Lawrence Berkeley e a Universidade de Illinois, a se candidatar para a contribuição.

Isso gerou controvérsias a respeito do financiamento corporativo no campus de Berkeley, que mantém Lawrence Berkeley sob um contrato com o Departamento de Energia. Um grande prédio de laboratórios para o instituto BP está previsto para ser erguido em 2010.

As fontes de dinheiro também moldaram quais iniciativas se moverão mais agressivamente. Enquanto a pesquisa dos biocombustíveis está abarrotada de dinheiro, os trabalhos sobre fotossíntese artificial, para pular inteiramente o estágio de cultivo da planta, outra parte essencial da visão Hélios original, estão sendo realizados com cerca de US$ 5 milhões por ano do Departamento de Energia.

Nathan Lewis, especialista em energia solar da Caltech que trabalhou com Chu em algumas estratégias de pesquisa para o Lawrence Berkeley, reconheceu que essa não era a mistura ideal de trabalho. A empresa de petróleo certamente tem mais interesses nessa abordagem, e o governo simplesmente não fez nada, disse ele.

Enquanto isso, o JBEI cresceu para uma equipe de 150 pessoas. Keasling afirmou que as pessoas de diferentes projetos trabalhavam ao lado umas das outras, na esperança de que a informação fosse compartilhada e a colaboração encorajada.

A idéia é mover a pesquisa rapidamente, disse ele, e em parte nós tomamos uma lição das comunidades de biotecnologia e alta tecnologia que cresceram na baía da Califórnia. 

Por KENNETH CHANG e ANDREW C. REVKIN

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