Cidade japonesa começa a lidar com um problema antigo: as gangues

Kitakyushu declara guerra contra máfia em meio à modernização da sociedade japonesa, que tem superado passado romântico de gangues

The New York Times |

Há dois anos as autoridades da cidade de Kitakyushu declararam guerra aos yakuza, uma organização criminosa do Japão.

Saiba mais: Japão luta para romper laços entre máfia e construtoras

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Hiroshi Kimura, membro do Kudokai, uma das mais perigosas facções da Yakuza, em frente à estátua em homenagem aos membros falecidos

Desde que essa e outras cidades começaram a reforçar seus regulamentos para combater a yakuza – fazendo com que empresas e indivíduos que negociam com eles possam ser julgados por trabalhar e acobertar uma organização criminosa – o prefeito Kitakyushu e sua família têm recebido ameaças de morte, granadas foram lançadas nas casas de executivos da empresas e um presidente de uma empresa de construção civil foi morto a tiros em frente à sua esposa.

A polícia diz que os ataques, outras ameaças menores e táticas de intimidação foram executadas pela Kudokai, uma quadrilha com mais de 650 membros que os oficiais consideram uma das facções mais perigosas da yakuza. Os ataques fizeram com que a Agência Nacional de Polícia fizesse a proposta de implementar uma lei que dá lhe mais poderes para procurar e prender membros de gangues.

A yakuza continua extremamente presente no Japão, como tem feito há séculos. Mas os policiais disseram que a violência em Kitakyushu está começando a incomodar a população, que está farta de tanta violência.

As autoridades disseram que qualquer noção romântica que possa ter feito parte da vida dos mafiosos no passado está aos poucos desaparecendo. Eles acrescentaram que os japoneses cada vez mais enxergam a yakuza simplesmente como qualquer outra gangue mafiosa de outros países, que ganha dinheiro com drogas, jogo e extorsão, principalmente de um de seus alvos favoritos, a farta indústria japonesa de construção.

"As pessoas estão cada vez mais enxergando a realidade de que a yakuza não é um grupo de cavalheiros e não passa de uma força anti-social", disse o prefeito de Kitakyushu, Kenji Kitahashi, que afirmou não estar intimidado com a ameaça de morte. Ele disse que a violência fez com que muitos moradores se voltassem contra a yakuza porque a gangue prejudicou os esforços em resgatar a atividade siderúrgica da cidade.

O Japão tentou lutar contra a yakuza quatro vezes desde o início de 1990 e não conseguiu nada muito além de atingir uma parte de seus integrantes - hoje a gangue conta com mais de 80 mil indivíduos - as maiores gangues americanas tinham cerca de 5 mil membros no auge da máfia, nos anos 1960.

Como muitas outras gangues japonesas, o Kudokai tem uma sede pública, a Câmara Kudokai - um edifício de quatro andares, que mais parece uma fortaleza branca, rodeada por muros, arame farpado e câmeras de segurança - fica no centro de Kitakyushu, uma cidade que já foi grande produtora de aço e conta com 1 milhão de habitantes.

Até pouco tempo atrás, as gangues eram aceitas como parte do cotidiano. A yakuza era tolerada porque ajudava o Japão manter suas ruas seguras, impondo no mundo do crime as mesmas regras rígidas e hierarquia que são vistos no resto da sociedade japonesa.

Mas à medida que o Japão se modernizou, a classe média se adaptou a uma sociedade que depende de tribunais e advogados para manter a ordem e não de bandidos. A crescente intolerância ao submundo tem ficado evidente nos escândalos que atribulam o país, como aqueles envolvendo um comediante de televisão e uma organização de sumô que foram forçados a cortar laços com a gangue. Ainda assim, muitos admitem que é muito difícil cortar os laços completamente.

"A sociedade tem usado a yakuza por tanto tempo que é difícil se livrar deles", disse Chikashi Nakamura, 75 anos, chefe de uma associação de moradores de Kitakyushu, que fez uma campanha para expulsar os Kudokai da cidade.

Ainda assim, advogados e ativistas anti-máfia dizem que o país segue relutante em dar o último passo que irá proibir definitivamente as gangues, apesar de ser algo que muitos querem. Há temores de que a proibição possa levar ao que muitos chamam de "máfiazação" das gangues, fazendo com que elas sejam redirecionadas ao submundo e já não tenham que cumprir com restrições impostas à violência contra civis, por exemplo.

"Demorou 30 anos para chegarmos até aqui, e o Japão ainda hesita em acabar com esses grupos violentos de uma vez por todas", disse Naoyuki Fukasawa, um advogado especializado na defesa dos cidadãos contra o crime organizado. "A polícia evita acertar o centro da questão e prefere ficar apenas circulando o problema."

A Agência Nacional de Polícia, que define a política nacional contra o crime, diz que a criminalização absoluta é difícil por causa da proteção constitucional ao direito de se criar grupos ou organizações. Mas Shigeyuki Tani, diretor do escritório de inteligência do crime organizado na agência, disse que o escritório elaborou uma nova lei que iria designar gangues como a Kudokai como sendo "particularmente perigosa", e facilitar mais para que a polícia possa efetuar buscas em suas sedes e prender membros que solicitem propina - a lei atual proíbe apenas o ato de pagar e não a solicitação em si.

No entanto, oficiais do governo de Kitakyushu disseram que precisam de mais poder para a batalha contra o crime organizado, que está profundamente enraízada nos bairros dessa cidade industrial. Dos 44 tiroteios relacionados com gangues no Japão no ano passado, 18 ocorreram em Fukuoka, uma ilha no principal distrito sul do Japão, onde está localizada Kitakyushu.

A última onda de acontecimentos relacionados à violência de gangues foi a pior. Tudo começou há dois anos, quando o Kudokai irritou os moradores locais através da compra de uma mansão em frente a um jardim de infância que seria usada como sede para sua organização. Depois que os moradores protestaram em frente ao portão da mansão, a casa de um líder da associação de moradores foi baleada em um ataque noturno.

As autoridades locais reagiram implementando novas restrições, destinadas a sufocar as fontes de renda da gangue. A polícia diz que a Kudokai acabou atacando as empresas que não quiseram pagar as devidas “taxas” - eles chegaram a atacar as casas de executivos da companhia de eletricidade Kyushu com granadas. O ataque mais recente ocorreu no dia 17 de janeiro, quando homens armados feriram o presidente da empresa de construção que tinha saído de sua casa para comprar um refrigerante.

Esse tiroteio e o assassinato do presidente de uma outra empresa de construção em novembro criaram uma atmosfera de medo. Um executivo de construção se recusou a dar uma entrevista dizendo que estava a caminho de um resort de fontes termais. No entanto, foi muito mais fácil falar com membros da Kudokai.

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Hiroshi Kimura, membro do Kudokai, conversa com jornalistas na sede da gangue em Kitakyuchu, Japão

Na sede da gangue, o cartão de visita de Hiroshi Kimura, escrito em caligrafia elaborada, o identificava como o capitão de um dos sub-grupos da Kudokai. Kimura, que usava um terno preto bem cortado e óculos, foi meticulosamente educado.

Ele conduziu os repórteres para uma sala com cadeiras confortáveis e uma mesa baixa, que parecia exatamente como uma típica sala de reunião corporativa japonesa, com exceção dos retratos em preto e branco dos líderes da gangue que tinham falecido. À medida que Kimura falava, jovens em ternos pretos silenciosamente se ajoelhavam para servir xícaras de chá verde e doces tradicionais.

Kimura disse que as novas restrições tinham afetado a Kudokai, embora ele tenha se recusado a entrar em detalhes sobre as questões econômicas da gangue. Ele disse que a Kudokai não esteve por trás da recente onda de violência, embora tenha admitido que poderiam ter sido obras executadas independentemente por indivíduos que fazem parte da gangue. Se esse for o caso, ele prometeu, a gangue certamente irá puni-los.

Ele disse que a polícia também poderia ser culpada pela violência, por tentar separar a Kudokai da comunidade. "Se eles tentarem nos exterminar, o crime organizado irá apenas sair da visão das pessoas e se tornar mais violento, como acontece no México", disse Kimura, 58.

Kimura falou com nostalgia de uma época na qual a yakuza trabalhava com a polícia para manter a ordem social. Oficiais da polícia disseram que esses dias acabaram, apesar da dificuldade que o país está tendo em se adaptar.

"Ainda existem pessoas que querem usar a yakuza para resolver certos problemas", disse Daisuke Harada, chefe da seção de crime organizado da polícia de Fukuoka. "Precisamos erradicar esses velhos costumes, de uma vez por todas."

Por Martin Fackler

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