Cidade histórica do Iraque debate futuro turístico

Kifl sobreviveu a milênios de guerras e catástrofes naturais, mas agora mira futuro e potencial turístico

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A pequena cidade iraquiana de Kifl, sombreada por palmeiras em uma curva do rio Eufrates, foi reverenciada como um lugar sagrado por séculos – por judeus, muçulmanos e, pelo menos nos períodos de paz, por ambos. “A velha democracia”, explicou o chefe da polícia local.

Kifl, em uma região que já foi conhecida como Babilônia, sobreviveu a milênios de guerras e catástrofes naturais, ao exílio e a expulsão, a queda de impérios e devastações da modernidade. Ela encarna o passado rico e cheio de camadas do Iraque e ainda pode representar o seu futuro – se os líderes do país conseguissem parar de discutir sobre a região e sua origem religiosa.

No centro da cidade – e no meio da disputa – está o túmulo de Ezequiel, o profeta bíblico que pregava aos judeus em cativeiro sob Nabucodonosor, no século 6 a.C. Em algum lugar nas redondezas, segundo tradição e fé, ele teve suas visões de Deus.

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Homem reza no mausoléu do profeta Ezequiel, em Kifl, no Iraque
Líderes da cidade e da província têm agora uma visão mais terrena também: o turismo. O Iraque continua sendo um país em guerra e a cidade, poeirenta e cheia de lixo, não tem um único hotel. No entanto, eles sonham com viajantes de todas as fés peregrinando a Kifl – muçulmanos, cristãos e até mesmo judeus, que viveram e adoraram na região até que as últimas famílias partiram em 1951 “por causa do problema da Palestina”, disse um deles, Zvi Yehuda.

Isso colocou o túmulo, com sua distinta (e islâmica) cúpula cônica, que data do século 14, em um debate que espelha o Iraque como um todo no momento em que o país emerge da ditadura e da guerra. É um debate entre os objetivos conflitantes da preservação histórica e do desenvolvimento moderno, entre uma história multireligiosa a crescente influência do Islã, particularmente do ramo xiita, cujos clérigos têm seus próprios projetos para o local.

“Nós podemos provar ao mundo que esse lugar é um dos lugares culturais que promovam a civilização e a convivência pacífica entre os povos”, afirmou Qais Hussein Rashid, diretor do Conselho Estadual de Antiguidades, que supervisiona todos os locais históricos do Iraque.

Ele não disse que seria fácil. No final do ano passado, o conselho de antiguidades começou um projeto para restaurar o antigo centro de Kifl, com o objetivo de ganhar a cobiçada designação como Patrimônio da Humanidade da Unesco, se unindo assim a outros três locais no Iraque: Hatra, Assur e Samarra.

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Pássaros sobrevoam mausoléu de profeta em Kifl, sagrado para judeus e muçulmanos e tido como ponto turístico potencial
O centro histórico inclui não apenas o túmulo de Ezequiel e a sinagoga em torno dele, mas também um minarete precariamente mantido de uma mesquita do século 14 que há muito foi destruída e um mercado municipal com abobada em forma de T construído em 1800 sob domínio otomano, quando judeus e muçulmanos viviam em relativa tolerância, ainda que não exatamente harmonia. Tudo isso está no centro do projeto de recuperação de Kifl, que ainda está em estudo.

Projeto

Uma cópia do projeto, pendurada na parede do gabinete do prefeito, retrata modernos hotéis, restaurantes, lojas, parques, estacionamentos e até mesmo uma doca na margem do Eufrates: Kifl em 2030. “Esperamos que todos que visitem o Iraque venham a Kifl”, disse o prefeito, Khalid Obeid Hamza. Suas ambições são tão grandes quanto a cidade da Malásia que citou como inspiração para os planos. “Kuala Lumpur", lembrou. É um lugar muito agradável”.

O projeto, como o trabalho de restauração, foi recebido com profunda desconfiança pelos moradores de Kifl, incluindo alfaiates, donos de lojas e restaurantes que trabalham no mercado coberto.

No mês passado, moradores de Kifl protestaram, temendo que a reforma iria forçá-los a partir. “Se for bom para o meu trabalho, mas prejudicar os demais eu não vou aceitar”, disse o padeiro Ali Malik manifestando receios de que os hotéis e restaurantes para turistas irão estragar o encanto histórico, ainda que desgastado, da cidade.

Ele ecoou um lamento familiar no Iraque: “Eu desejo que o trabalho de recuperação comece com eletricidade, água e esgoto”.

*Por Steven Lee Myers

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