Cidade de Tijuana enfrenta conflito cultural sobre seu passado

Demolição de prisão La Ocho divide moradores de cidade mexicana que ficou famosa por seus vícios

The New York Times |

Homens e mulheres, jovens e velhos, todos passam caminhando lentamente pelo terreno vazio entre a Rua Oito e a Rua Constitución, em Tijuana, no México. Todos olham. Alguns param. Muitos apontam ou abanam a cabeça, surpresos.

"La Ocho realmente não existe mais", dizem eles, referindo-se à prisão onde americanos bêbados e criminosos mexicanos se agrupavam atrás das grades em meio ao cheiro de vômito e corrupção. Mas será que a demolição, que ocorreu no mês passado, foi boa ou ruim para Tijuana?

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Local onde ficava a prisão La Ocho, em Tijuana, demolida recentemente (30/01)

Poucas cidades sequer fariam essa pergunta, já que a prisão representava uma sujeira civil. Mas La Ocho era um local onde os adolescentes americanos que eram pegos com um cigarro de maconha ou bêbados demais muitas vezes tinham que pagar uma propina de US$ 2 mil para serem libertados.

A prisão havia sido construída em uma área privilegiada do centro da cidade e nela os líderes de gangues caminhavam livremente pelo andar de cima, enquanto criminosos inferiores sofriam no andar de baixo em pequenas celas com banheiros que não funcionavam.

O prefeito Carlos Bustamante não tem nenhum arrependimento sobre a decisão de demolir a prisão, insistindo que La Ocho representava um "lado negro da história de Tijuana”. Mas nesta cidade sem muita história assim como muitas outras do México, qualquer marco histórico tem seu valor.

Muitos residentes da cidade de longa data estão enfurecidos com a demolição. Depois de vários protestos sem nenhum resultado, alguns até chegaram a ir à Justiça para obrigar a cidade a reconstruir o complexo - que abrigava um departamento de polícia e de bombeiros - exatamente como era, argumentando que ela foi demolida ilegalmente.

"Não temos muitas referências históricas que podem fortalecer a nossa identidade como tijuanenses", disse Victor Clark Alfaro, um defensor dos direitos humanos e morador da cidade. "Talvez em termos de arquitetura não tenha sido nada demais, mas representava a história da nossa cidade."

Disputas sobre a preservação de marcos históricos raramente tratam apenas de conservar os tijolos ou o projeto por si só. No caso da prisão La Ocho a discussão abriu um debate sobre o quanto essa cidade deve lutar por sua identidade e quanto o passado sórdido de Tijuana deve moldar seu futuro. Agora, talvez mais do que nunca, esta cidade de fronteira que já tem quase cerca de 1,6 milhões de habitantes está num momento de mudança.

A imigração ilegal para os Estados Unidos diminuiu e a quantidade de turistas americanos que visitavam Tijuana, algo que teve início na época da lei seca, em 1920, também diminuiu devido ao medo do crime que vem crescendo na cidade. Muitos dos bares que antes atendiam estudantes americanos em férias fecharam suas portas. Alguns dizem que pode demorar até uma década antes que um grande fluxo de jovens americanos volte a ocupar a cidade.

No entanto, Tijuana está mais segura hoje do que nos últimos anos - até mesmo assassinatos relacionados com o tráfico de drogas têm diminuído - e novos restaurantes, clubes e cafés que visam atender melhor os próprios mexicanos e turistas sofisticados estão surgindo por toda a cidade. Moradores descrevem este como o momento de recuperar sua energia e seu orgulho, que podem ser vistos entre as multidões que se reúnem em volta de tendas de comidas populares e dançam em boates ao som de música latina, e não do americano rock and roll.

Quase todo mundo parece concordar que esta mudança deveria continuar - que Tijuana precisa dela para se reerguer e apresentar uma nova imagem mais sofisticada para o mundo. Mas a questão é como isso pode ser feito.

Bustamante, que também é um agente imobiliário, disse que Tijuana precisa se modernizar e tornar-se mais como a cidade americana de San Diego. Esta é uma ideia antiga, que já vinha sendo contemplada pelo ex-prefeito Jorge Hank Rhon, que, assim como Bustamante, é membro do Partido Institucional Revolucionário, que governou o México de maneira corrupta durante 71 anos.

Neste caso, Bustamante quer financiar uma renovação do centro da cidade com o dinheiro da venda do terreno da Ocho. Ele diz que essa medida será catalisadora de uma mudança mais ampla.

Alguns empresários concordam, particularmente aqueles que tem uma vista para o terreno aonde ficava a prisão. "Precisamos renovar a região", disse Ana Lilia Quintero, 34, dona de um salão de beleza na Rua Oito. "Isso pode gerar novos empregos e novos negócios. É o que esperamos."

Para outros, porém, a demolição reflete uma liderança sem visão. Um novo prédio? Uma cidade igual a San Diego? Estas, disseram os críticos, são ideias chatas que ignoram a maneira com a qual a história de Tijuana poderia se tornar uma grande parte de seu apelo lucrativo no futuro.

Esta era uma cidade na qual estrelas de Hollywood apostavam e aproveitavam a vida – assim como as cidades de Las Vegas e Havana. Muitos do tijuanenses que estão tentando revitalizar sua cidade natal ao promover sua arte, música e comida dizem que a prisão (que não era utilizada desde 2002) deveria ter sido transformada em um museu que mostrasse a história do vício em Tijuana. Ou no centro de uma comunidade para organizações sem fins lucrativos ou grupos artísticos que pudessem mostrar o lado criativo da cidade.

"Gostaria de ter feito um evento lá", disse Javier Plascencia, um chef famoso que possui vários restaurantes populares em Tijuana. Em entrevista no mês passado, ele estava sentado no César, um de seus restaurantes, onde dizem que a salada Caesar foi inventada na década de 1920. Plascencia renovou o seu restaurante alguns anos atrás, temendo que fosse demolido, e disse que seus clientes regulares aprovaram a renovação, provando que aproveitar do passado para seguir em frente pode funcionar.

Mesmo uma prisão fedorenta, segundo Plascencia, merecia uma segunda chance. "Era feia", disse ele. "Mas era nossa."

Por Damien Cave

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