Cidade da Irlanda do Norte vira paraíso dos consumidores do sul

NEWRY ¿ Durante as décadas de ¿Problemas¿ por aqui, longas filas de carros na fronteira irlandesa eram sinais de que os militares britânicos estavam procurando veículos na estrada. Mas agora, as filas de carros ao longo da principal estrada desta cidade da Irlanda do Norte não são por armas senão por manteiga: consumidores do sul estão indo para o norte gastar seus euros nos shoppings e supermercados.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Desde o começo da crise financeira, o euro tem se valorizado em relação à libra britânica, que circula na Irlanda do Norte, tornando o preço das lojas ao norte tão irresistíveis que os sulistas estão se concentrando na fronteira em números recordes. Essa cidade pitoresca a cerca de 100 quilômetros de Dublin se tornou tão popular que ela emprestou seu nome ao fenômeno: o efeito Newry.

Newry sempre foi um centro comercial, mas desde os acordos de paz da Sexta-Feira Santa em 1998, que acabou com boa parte da violência, a cidade tem lucrado com sua localização, construindo muitos shoppings. E com a desvalorização da libra, Newry se tornou o centro de compras mais badalado dentro das fronteiras abertas da União Europeia, um lugar onde consumidores munidos de euros aproveitam descontos de 30% ou mais.

As únicas pessoas que parecem estar descontentes com a movimentação na fronteira são autoridades políticas do sul, economicamente carente, que lamentam a perda de receita com os impostos e questionam o patriotismo dos caçadores de preços baixos.  O ministro de finanças da Irlanda, Brian Lenihan, disse em uma entrevista recente para uma TV irlandesa que, com as compras na Irlanda do Norte, os sulistas estavam pagando impostos à Sua Majestade e não ao Estado no qual vivem. 

Patriotismo e compras

O paradoxo do questionamento do patriotismo pelos ministros irlandeses do principal partido político do governo, o Fianna Fail, que prega a unidade política e econômica irlandesa, não passou despercebido para muitos no sul ou no norte. Em um sábado de grande movimento, patriotismo e compras eram os assuntos políticos do momento nos estacionamento lotados de Newry.

Ainda é a Irlanda, é como eu vejo essa situação, disse Cerrie Byrne, 24, professora do norte de Dublin que estava estacionando ao lado de um dos shoppings de Newry. Considerações políticas de lado, Byrne espera poupar mais de US$140 dos US$ 700 que ela e sua mãe planejaram gastar em Newry.

Esvaziando um carrinho cheio de bebidas alcoólicas, comida de gato e um único pacote de batatas, Denis Connaughton, 59, um carteiro que vive próximo ao aeroporto de Dublin, desviou da conversa sobre patriotismo, dizendo que sua única preocupação era a multidão. Estavam dizendo que havia congestionamento de seis quilômetros ontem, disse, falando sobre o trânsito. Ele adicionou, porém, que os preços compensaram sua irritação.

Durante alguns finais de semana os congestionamentos se estendem da colina até os grandes estacionamentos de Newry, do sul da principal estrada entre Dublin-Belfast até a bela travessia de fronteira em Ravensdale Glen. Ela antes era marcada pela enorme base do Exército Britânico, que foi que já foi desmantelada para permitir um alargamento da estrada.

Newry, como muitas cidades na fronteira, enfrentou dificuldades durante os Problemas. A pequena cidade está localizada no fim do lindo canal Carlingford Lough, cercada der um lado pelas Mournes, montanhas que em uma balada deslizam para o mar. Do outro lado estão as montanhas Cooley, centro das lendas celtas.  

Mas o cenário não está nos planos dos motoristas, que circula por dois grandes shoppings em busca de vagas no estacionamento. Uma esmagadora maioria dos carros é do sul: grande parte dos veículos de quatro rodas de uma cidade há 50 quilômetros está estacionada ao lado de carros de famílias de Dublin e dos condados vizinhos, enquanto as grandes vans brancas e excursões de ônibus vindas de Monaghanm, usadas por turistas americanos no verão, encontraram uma atividade muito rentável para as baixas temporadas. 

Neste mês, as prateleiras do principal supermercado estão sendo esvaziadas. Os baldes das instituições de caridade, que coletavam dinheiro para uma banda marcial de uma cidade próxima, estavam cheios de euros, não libras britânicas.

Paraíso

Uma recente pesquisa da indústria varejista sugere que um em quatro lares de condados distantes compra produtos alimentícios na Irlanda do Norte. Tornando a viagem muito mais rentável para centenas de milhares de consumidores do sul, os impostos de alguns bens foram cortados nas últimas semanas no norte, enquanto o governo de Dublin aumentou os impostos de bens no sul.

Allan Trainor, 49, morador de Newry que trabalha na ONeills, uma Loja de produtos esportivos que patrocina a Associação Atlética Galesa, disse que algumas das camisas mais vendidas eram de condados como Kerry e Cork, no sul, e não de condados próximos, como Armagh ou Tyrone.

Uma mulher me disse na semana passada que ela tinha comprado uma garrafa de Bailey's Irish Cream por 9,95 euros em Newry, o equivalente a US$14,24. Ela me mostrou a garrafa que tinha comprado em Cork, e marcava 35 euros. Esse fato fala por si só. Ela precisou fazer uma viagem de quase 800 quilômetros. Isso deve ser compesador para ela. 

Por EAMON QUINN

Leia mais sobre Irlanda do Norte

    Leia tudo sobre: irlanda

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG