Cidade da Califórnia proíbe cigarros dentro de casa

BELMONT, Califórnia - Durante seus 50 anos como fumante, Edith Frederickson diz ter acendido cigarros em restaurantes e bares, aviões e trens, dentro e fora de estabelecimentos, tudo como parte de um hábito de consumo de dois maços por dia do qual não se arrepende nem um pouco. Mas há duas semanas, ela já não pode fumar no lugar que mais gosta: sua casa.

The New York Times |

Frederickson vive em um apartamento em Belmont, Califórnia, uma tranquila cidade do Vale do Silício que agora tem a lei antitabagista mais rígida do país, proibindo os cigarros em prédios residenciais.

"Eu estou absolutamente indignada", disse Frederickson, 72, fumando um Winston em um pátio de concreto diante do prédio. "Eles querem me dizer como viver e o que fazer e estão fazendo isso aqui na América".


Edith precisa agora sair de casa para fumar / NYT

O fato da proibição ter começado no seu próprio prédio (um complexo para aposentados subsidiado pelo governo conhecido como Bonnie Brae Terrace) é ainda mais surpreendente.

Na verdade, de acordo com autoridades da cidade, a motivação por trás da aprovação da lei foi um grupo de aposentados do prédio que pediu que a cidade impedisse o fumo passivo em seus apartamentos. "Eles tomaram uma atitude a respeito", disse Valerie Harnish, gerente de serviços e informações da cidade. "E fizeram a diferença".

Defensores da saúde pública acompanham de perto o que acontece em Belmont, vendo a medida como um novo fronte da batalha contra o tabaco, que pediria a proibição dos cigarros em prédios nos quais inquilinos compartilham paredes, tetos e, pela lógica, ar.

Não é uma surpresa que a tradicionalmente saudável Califórnia tenha saído na frente nesta questão, com diversas outras cidades aprovando proibições semelhantes, mas nenhuma indo tão longe quanto Belmont, que proíbe os cigarros em qualquer prédio no qual paredes, chão ou teto são compartilhados.

"Eu acho que Belmont rompeu preconceitos ao lidar com a questão do consumo de cigarros em casa como um problema de saúde pública", disse Serena Chen, diretora regional de políticas e programas sobre tabaco da Associação Pulmonar Americana da Califórnia. "Eles simplesmente disseram que o fumo passivo não é menos perigoso quando acontece em sua casa do que quando acontece no escritório".

Polêmica

Na cidade, o debate sobre a lei divide os moradores do Bonnie Brae em dois frontes, com pessoas como Frederickson, uma acolhedora imigrante alemã, de um lado e Ray Goodrich, um magro senhor de 84 anos com doença pulmonar e problemas de alergias, do outro.

Como em todos os combates, há um misto de respeito e animosidade.
"Ela é uma mulher velha difícil", disse Goodrich. Frederickson é menos amigável.

"Eu não reconheceria o valor daquele homem por nada no mundo", ela disse. "Ele começou isso como uma vingança contra os outros moradores".


Com problema pulmonar e alergias, Ray Goodrich apoia a medida / NYT

O tranquilo homem da Carolina do Norte não parece ser o tipo que se vinga, mas disse ter percebido a fumaça dos vizinhos assim que se mudou para o Bonnie Brae em 1998.

"Me deu uma dor de cabeça imediata, como se tivesse uma faixa de ferro em torno da minha testa", disse Goodrich. "Eu estava ali sentado com filtros de ar funcionando, o que elimina a fumaça visível, mas ainda sentia a fumaça".

Ele decidiu agir quando um incêndio teve início na sala de um fumante do prédio em 2003 e foi alimentado pelos tanques de oxigênio dos moradores.

"Eu vi uma enorme camada de fumaça e pensei que não sobreviveria cinco segundos nela", disse Goodrich. "Parecia o inferno de Dante".

Determinado a eliminar os fumantes do prédio, Goodrich começou uma campanha escrevendo cartas a todos os oficiais locais, federais e do Departamento de Moradia e Desenvolvimento Urbano, que ajuda a financiar o Bonnie Brae, moradia de idosos de classe média e baixa.

"Nós precisamos de sua ajuda", dizia uma das cartas de Goodrich em julho de 2006. "Um cachorro que late perturba o sono, mas não mata. O fumo passivo está nos matando".

A carta chamou a atenção de muitos membros do Conselho Municipal de Belmont, inclusive de Dave Warden, que trabalhou na prefeitura até 2007. Warden disse que membros do conselho se comoveram especialmente quando Goodrich fez algumas visitas às reuniões do grupo, geralmente acompanhado de outros moradores do Bonnie (com suas cadeiras de rodas e balões de oxigênio).

Depois de mais de um ano de deliberações e consultas com advogados da cidade, o conselho aprovou a lei em outubro de 2007, proibindo os cigarros em qualquer lugar da cidade de 25 mil moradores, com exceção de casas isoladas e jardins, ruas e algumas calçadas, além de áreas designadas para fumantes.

A lei entrou em vigor no dia nove de janeiro, depois de um período de 14 meses que permitiu a preparação de prédios residenciais para a determinação (como a colocação de novas placas de segurança alertando para a proibição) e para que os inquilinos contrariados se mudassem. A lei traz a possibilidade de multas de US$100, mas oficiais da cidade dizem que nenhuma penalidade foi aplicada até o momento.

Por JESSE McKINLEY

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