Chineses contrariam governo e se unem em ações humanitárias na região do terremoto

LUCHI, China - Hao Lin já havia mentido para sua esposa sobre seu destino, entrado num avião para Chengdu, pego uma bicicleta emprestada e pedalado pelo interior quando chegou a essa devastada vila. Psicólogo, Hao veio oferecer terapia gratuita aos sobreviventes do terremoto.

New York Times |

E ele não veio sozinho, na poeirenta rua um ônibus cheio de voluntários de bonés vermelhos se prepara para estacionar. Funcionários de uma companhia privada de Chengdu limpam a cidade sem parar. Outros voluntários de toda a China trouxeram comida, água e simpatia.

"Pessoas comuns agora entendem que precisam fazer alguma coisa", disse Hao, 36.

Do momento em que o terremoto atingiu o país no dia 12 de maio, o governo chinês enviou soldados, policiais e trabalhadores de resgate em uma mobilização maciça. Mas uma outra mobilização, inesperada, gerada em parte por uma cobertura incomum e amplamente dramática do desastre na mídia estatal, veio de canais não oficiais. Milhares de chineses foram à região do terremoto ou doaram quantidades recordes de dinheiro numa resposta pública incomparável.

Pequim é instintivamente temerosa do ativismo público e por muito tempo manteve restrições às instituições de caridade privadas que operam sem controle do governo. Mas agora, a resposta pública é tão sobrepujante que analistas debatem se irá criar um choque político e pressionar o autoritativo governo da China a conceder mais espaço para sociedade civil.

Quando o terremoto atingiu o país, autoridades do partido inicialmente colocaram o supervisionamento da assistência humanitária à Liga da Juventude Comunista, base política do presidente Hu Jintao. Mas muitos indivíduos, corporações e organizações não governamentais, ou ONGs, simplesmente entraram em ação para complementar o que consideram o sobrecarregamento da Cruz Vermelha ou para ajudar no resgate, de acordo com alguns representantes de grupos privados.

Em Chengdu, voluntários formaram uma estrutura de comando conhecida como a ONG Relief Action Group para coordenar 30 organizações. Eles coletam doações de macarrão instantâneo, biscoitos, arroz, remédios, roupas e lençóis.

"Nós percebemos que essa é uma crise sem precedentes e que precisamos nos unir para fazer alguma contribuição substancial", disse Xing Mo, 39, organizador veterano de ONGs e presidente do Instituto de Desenvolvimento Yunnan, uma escola que treina voluntários.

Os líderes chineses geralmente tratam o envolvimento público em assuntos civis como uma ameaça à estabilidade. A reação ao terremoto na província de Sichuan mostra como o aumento da riqueza, telefones celulares, sms e transporte público dificultam o controle do governo sobre a reação popular a um grande evento.

"Esse é um ponto de virada significativo para a China", disse Bao Shuming, coordenador de pesquisa do Centro de Dados da China da universidade de Michigan. "Isso irá dissolver alguns limites entre o governo e as pessoas comuns. As pessoas se tornaram mais educadas e organizadas e a sociedade está mais aberta".

- DAVID BARBOZA

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