Chinês transforma em arte sua experiência como soldado na Praça da Paz Celestial

PEQUIM - Banhado em suor, com o coração disparado, Chen Guang desceu os degraus do Grande Salão do Povo da China e mirou sua metralhadora automática contra o mar de estudantes manifestantes que ocupavam a Praça da Paz Celestial. Soldado, de 17 anos, Chen e seus companheiros haviam recebido ordens assustadoras: limpar o coração simbólico da nação, mesmo que isso significasse o derramamento de sangue.

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Arte chinesa é feita a partir de tragédia

Nós recebemos garantias de que não haveriam consequências legais se atirássemos", Chen relembrou em uma entrevista na terça-feira. "Minha única esperança era de que os estudantes não resistissem".     

Vinte anos depois que tropas chinesas abriram fogo no centro de Pequim, matando centenas de pessoas e ferindo muitas mais, Chen oferece um raro vislumbre da repressão militar que restabeleceu a supremacia do Partido Comunista depois de seis semanas de levantes populares e da subsequente camuflagem que, para muitos chineses, tomou seu lugar.           

Ao falar em público pela primeira vez (desafiando oficiais de segurança que o obrigaram a manter silêncio) ele explicou como os soldados do 65º Grupo do Exército usando roupas civis no dia três de junho atravessaram a Praça da Paz Celestial até o Grande Salão do Povo. À meia-noite, com munição pendurada ao longo do peito, eles enfrentaram manifestantes, o ar tomado pelos cantos entoados pelos estudantes e pelo barulho dos tiros. "Eu posso garantir que não atirei em ninguém", ele disse.           

Agora um artista e, de certa forma, um provocador que vive no interior de Pequim, Chen disse ter passado os próximos 20 anos suprimindo memórias daquele dia. Mas no ano passado ele começou a trabalhar em uma série de pinturas baseadas em centenas de fotografias tiradas a pedido de sua unidade enquanto estava na praça. Elas incluem imagens translúcidas de manifestantes virando um ônibus público, exibindo bandeiras pró-democracia e, mais tarde, soldados alimentando fogueiras com o que sobrou no local.           

"Durante 20 anos eu tentei enterrar este episódio, mas quanto mais velho ficamos mais essas coisas voltam à superfície", ele disse, fumando um cigarro atrás do outro em seu apartamento. "Eu acho que chegou o momento de compartilhar minhas experiências, minha verdade, com o resto do mundo".          

Mas ao divulgar sua experiência através de sua arte, Chen se arrisca a provocar as autoridades, que estão ansiosas por suprimir o debate sobre o incidente e suas consequências da memória pública. Nas últimas semanas, conforme o aniversário do conflito se aproximava, a polícia deteve dissidentes que temiam poder atrair atenção para o quatro de junho. Na última primavera, Zhang Shijun, ex-soldado do norte da China foi preso depois de contar à Associated Press que se arrependia de seu papel na repressão dos manifestantes pró-democracia.

No último verão, depois que galerias locais se recusaram a mostrar suas pinturas, Chen as publicou na internet. Em poucas horas, no entanto, elas foram removidas.           

Homem comum, de fala suave e não emotiva, Chen diz que não teme as consequências de falar sobre o assunto, mesmo que tenha recebido alertas para manter suas pinturas para si mesmo. "Eu não fiz nada de errado. Estou falando de minhas próprias experiências", ele disse.           

Criado na região rural da província de Henan, filho de um gerente de fábrica, ele abandonou o Ensino Médio aos 15 anos porque disse ser um péssimo estudante. Ele queria ser artista, mas todos dizia que isso não era jeito de ganhar a vida. "A pressão familiar foi intensa então eu me inscrevi no exército", ele disse. Como a idade mínima era 18 anos, ele mentiu.           

Menos de um ano depois, em meados de abril, Pequim foi atingida por protestos iniciados com a morte de Hu Yaobang, líder do Partido Comunista que foi forçado a abandonar o cargo para assumir responsabilidade pelo que alguns rivais viam como reformas políticas e econômicas irresponsáveis. 

Isolados em seu acampamento três horas ao norte da cidade, Chen disse que ele e seus colegas soldados sabiam pouco sobre os protestos. Eles apenas sabiam o que os oficiais militares lhes diziam: "que pessoas ruins estavam tentando destruir uma nação que foi estabelecida com a morte de mártires", ele relembra.            

Depois de quase duas semanas de isolamento, os soldados receberam roupas civis e ordens para chegar ao Grande Salão do Povo em grupos de três ou quatro. Chen disse que sua missão era muito mais assustadora. Ele disse que era o único passageiro em um ônibus que teve seus assentos removidos e seu interior lotado até o teto de armas e munição.           

Famintos e assustados, os soldados, na maioria adolescentes, esperaram dentro do Grande Salão enquanto comandantes militares se reuniam no segundo andar, criando a estratégia de ataque. Por volta da meia-noite, a energia da praça foi cortada e os soldados desceram as escadas para a rua. Para assustar os estudantes para que partissem, ele disse que os homens receberam ordens para atirar para cima. A tática teve o efeito desejado.           

Por volta das duas da madrugada, milhares de estudantes choravam e cantavam a Internacional ao deixar a praça. Pouco depois, tanques de guerra invadiram o local. Um derrubou a Deusa da Democracia, uma estátua de papel machê que os estudantes de arte haviam construído dias antes. "Foram precisos três golpes para que ela caísse", disse Chen.           

A maioria das mortes na repressão, de acordo com relatos, ocorreu nas ruas vizinhas e não na própria praça.           

Menos de um ano depois, Chen se inscreveu na escola de arte dos militares, depois transferiu para a Academia Chinesa de Artes Plásticas. Em 1995, ele deixou o exército. Naqueles primeiros anos, Chen foi atraído pela fotografia e pelas artes de performance, criando trabalhos que eram provocativos.            

Ainda que nenhum de seus trabalhos iniciais tenham relação com a Praça da Paz Celestial, ele afirma que grande parte deles foi influenciada pelo trauma daquele evento. "Mesmo que seja difícil de ver uma relação, tudo que eu faço é tocado por aquela experiência", ele disse. Chen afirmou ter visto soldados sangrando por causa das pedras atiradas por manifestantes e um estudante ter sua cabeça atravessada por um rifle.           

Mas a imagem que mais o persegue é mais mundana. Ao limpar a praça naquela manhã, ele percebeu um rabo de cavalo em meio aos restos de bicicletas amassadas e cobertores queimados. A mecha de cabelo, agrupada por um elástico roxo, havia sido cortada cruamente, talvez em um ato de protesto ou possivelmente como resultado de algo mais sinistro. "A imagem era assustadora. Eu não consigo parar de pensar naquele cabelo e no motivo pelo qual foi cortado", ele conta. 

Ele disse que faz seu trabalho mais intenso nos meses de junho, por volta da mesma época na qual experiencia dores de estômago. É a mesma dor contorcida que sentiu na praça, ele revela.

Por ANDREW JACOBS


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