Chinatown de Nova York tenta reverter crise dos últimos dez anos

Em meio a declínio pós-11 de Setembro, comerciantes pressionam Câmara Municipal a aprovar plano de estímulo à economia do bairro

The NewYork Times |

The New York Times
Pessoas caminham por rua no bairro de Chinatown, em Nova York (15/9/2011)

Há pouco mais de dez anos, Vincent Fung podia contar com um constante fluxo de trabalhadores de escritórios localizados na área do World Trade Center ou de Wall Street que passavam por sua loja de joias em Chinatown. Seus clientes muitas vezes compravam diversos anéis de diamantes ou relógios, porque tinham economizado dinheiro em um almoço de US$ 5,25 ao longo das ruas Mott ou Pell. "Agora os trabalhadores de escritório se foram e os turistas também", lamentou Fung.

Como a loja de Fung, o bairro de Chinatown nunca se recuperou do 11 de Setembro . Houve uma perda tão absoluta de clientes que os quarteirões abaixo da Rua Canal se transformaram em uma zona congelada. Os visitantes em busca de ervas medicinais, esfrega-pé ou do almoço de US$ 5,25 encontram dificuldades para achar o que querem. Caminhões não conseguem entregar ou pegar mercadorias nas fábricas de vestuário e lojas de novidades.

A economia atrasada do bairro explica por que alguns comerciantes como Fung, investidores imobiliários e oficiais eleitos localmente pressionam a Câmara Municipal para aprovar um projeto que criaria um Distrito de Melhoria de Negócios em Chinatown para aproximar o bairro daqueles 64 que foram revigorados com ajuda do governo, incluindo Times Square e Union Square.

A Distrito de Melhoria de Negócios, uma ideia que permeia a comunidade há muitos anos, repassaria aos proprietários de imóveis taxas anuais para melhorar a limpeza de ruas, a iluminação exterior, a segurança, o turismo e a sinalização para orientar os visitantes. Wellington Chen, diretor-executivo da Parceria de Desenvolvimento de Chinatown, estima que 35% do bairro de 1.891 proprietários de imóveis pagariam US$ 200 ou menos por ano e 74% menos de US$ 1 mil.

Mas muitos proprietários se opõem ao plano, alegando a falta de verba que acometeu a região desde os ataques terroristas de 2001.

Jan Lee, cuja família é proprietária de edifícios na Rua Mott, no coração de Chinatown, teme que, se tiver de repassar uma taxa de US$ 2 mil para seus inquilinos comerciais, eles abandonarão os prédios. Os opositores apontam que, nos distritos de negócios de melhoria, como a Times Square, uma boa parcela dos honorários é paga pelas grandes empresas e bancos.

Lam Sai Hung, 72, proprietário do Restaurante Hop Lee na Rua Mott, disse que lava sua calçada todos os dias e paga a um mascate US$ 1,1 mil por mês para tirar seu lixo. "Por que preciso gastar mais e mais?", disse.

Mas Fung e outros proprietários de negócios do distrito veem essa atitude como míope. "Eles não veem a situação macro", disse Fung. "Quanto mais negócios você tem, maior o valor de sua propriedade. Você pode pagar um pouco mais em impostos, mas poderá alugar por um pouco mais."

Chinatown, com suas calçadas estreitadas por barracas cheias de caranguejos vivos, camarão seco, raízes e pratos de porcelana, ainda é tão tentadora quanto sempre foi. Comerciantes, donos de restaurantes e pessoas que moram a centenas de quilômetros de distância chegam à região em ônibus baratos de propriedade chinesa para imprimir seus menus, estocar suas cozinhas ou comprar suas prescrições com falantes de mandarim, cantonês ou fujianês.

O afluxo semanal explica a existência de quatro lojas de óculos em pouco mais de um quarteirão na Rua Mott e é visto por alguns como uma tendência econômica encorajadora. Ainda assim, a economia de Chinatown está doente.

The New York Times
O bairro de Chinatown, em Nova York, teve sua economia abalada por ataques do 11 de Setembro de 2001
A zona congelada provou ser o golpe de misericórdia para o declínio da indústria de vestuário local, que no seu pico empregou mais de 30 mil trabalhadores, de acordo com John Lam, que possuía 14 fábricas, mas agora constrói hotéis e apoia a área de negócios. Os trabalhadores do setor de vestuário, literalmente, alimentavam-se de Chinatown, jantando em seus restaurantes baratos ou levando para casa gengibre e pato assado.

Com o número de fábricas de vestuário reduzido a uma dúzia, muitos trabalhadores foram treinados novamente como enfermeiros domésticos, mas os idosos que servem estão dispersos em torno da cidade. "Perdemos todas aquelas mulheres carregando sacolas de plástico com mercadorias", disse Lee.

Tiffany Townsend, porta-voz da NYC & Co., braço de turismo da cidade, disse que o número de visitantes subiu de cerca de 200 mil em 2004 para 300 mil em 2011, mas os empresários locais dizem que o turismo está longe do apogeu pré-11/9. E, de acordo com uma análise de Andrew Beveridge, professor de sociologia no Queens College, Chinatown teve uma queda de 9% em seus moradores no censo de 2010.

No entanto, os otimistas nesse bairro acreditam que a sorte pode virar em um minuto. Muitos empresários estão ansiosos com a abertura de dois edifícios no Marco Zero , os World Trade Center 1 e 4 , o afluxo de turistas atraídos pelo novo memorial e até mesmo uma onda de turistas da própria China recém-fortalecida.

Chen, da Parceria de Desenvolvimento de Chinatown, pensa que a criação do distrito pode reverter o declínio econômico, promovendo as joias que são vendidas junto à Rua Canal e o Bowery, que, segundo uma estimativa, engloba 300 lojas e barracas. Ele também gostaria de aproveitar a localização de Chinatown, perto do Bureau de Casamento, para que os casais possam usar os floristas e restaurantes locais para suas celebrações.

The New York Times
Vincent Fung, proprietário de loja de joias no bairro de Chinatown, em Nova York
Para aumentar o clima de romance, ele gostaria de construir uma "ponte do beijo" na Rua Canal. O bairro teve uma no século 18, mas isso foi antes de ele se transformar em Chinatown.

*Por Joseph Berger

    Leia tudo sobre: chinatownnova york11 de setembromarco zerowtc

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG