China usa episódio trágico para manter controle do Tibete

Invasão britânica em Lhasa em 1904 é utilizada pelo governo chinês como exemplo de 'esforços para desmantelar' o país

The New York Times |

A fortaleza branca, um reduto desmoronado mas ainda imponente, fica no topo de um monte rochoso acima de um planalto coberto por uma dourada plantação que cintila na luz da manhã.

Uma batalha que aconteceu em 1904 neste local, em Gyantse, no Tibete, mudou o curso da história tibetana.

Uma expedição britânica liderada por Sir Francis E. Younghusband, o aventureiro imperial, tomou o forte e marchou para Lhasa, a capital do país, tornando-se a primeira força do ocidente a abrir o Tibete e arrancar concessões comerciais de seus lamas.

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Imagem de 2005 mostra a fortalexa em Gyantse, no Tibete

A invasão sangrenta fez com que os governantes Manchu, da corte Qing em Pequim, percebessem que tinham que tomar o controle do Tibete e deixar de tratá-lo como um Estado vassalo. Assim, em 1910, bem depois que os britânicos haviam partido, dois mil soldados chineses ocuparam Lhasa.

Isso acabou em 1913, após a desintegração da dinastia Qing, inaugurando um período de independência que muitos tibetanos citam como a base moderna para um Tibete soberano.

Os comunistas chineses tomaram o Tibete novamente em 1951, talvez influenciados pela decisão do imperador Qing de invadir as regiões fronteiriças para garantir o território chinês.

Atualmente, Gyantse lembra outras cidades do Tibete central. Suas estradas de terra batida são cercadas por lojas e restaurantes geridos por imigrantes da etnia Han, a quem muitos tibetanos veem como a mais recente onda de invasores.

O governo chinês insiste que o Tibete é uma parte “inalienável” da China, e se apropriou da invasão de 1904 como mais um capítulo na longa história dos esforços imperialistas para desmantelar a China – o que o sistema de educação comunista chama de “100 anos de humilhação”.

Mas o que aconteceu em Gyantse em 1904?

A expedição de Younghusband foi enviada por Lord Curzon, vice-rei da Índia, para forçar o 13 º Dalai Lama a aceitar concessões comerciais. Diante da aldeia de Guru eles encontraram um acampamento de 1.500 soldados tibetanos. O início das hostilidades. Em quatro minutos, 700 tibetanos mal armados foram mortos ou feridos.

Mais tarde, em Ídolo Vermelho, um estreito desfiladeiro a apenas 20 km de Gyantse, os britânicos abateram outros 200 tibetanos. Os tibetanos fizeram sua última resistência no forte de Gyantse, chamado dzong ou jong, em tibetano.

Depois que perderam um prazo para se entregar, no dia 5 de julho, os ingleses atacaram pelo lado sudeste da fortaleza.

Os tibetanos dispararam munição e pedras. Mas, um tenente e um soldado indiano passaram através de uma brecha, seguidos por outros. Os tibetanos fugiram, descendo por duas cordas.

Pouco tempo depois os britânicos chegaram a Lhasa.

Dois meses depois, na noite anterior a sua partida de Lhasa, Younghusband cavalgou até uma montanha e olhou para a cidade antiga abaixo, onde experimentou uma curiosa epifania que o inspirou a encerrar todo derramamento de sangue e fundar um movimento religioso, o Congresso Mundial das Religiões.

Por Edward Wong

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