China tenta reconstruir antiga cidade de Kashgar

KASHGAR ¿ Há mil anos, os braços norte e sul da Silk Road (estrada que ligava a rota comercial entre a China e o mediterrâneo) se tornaram um oásis próximo ao extremo oeste do Deserto do Taklamakan. Comerciantes de Delhi e Samarkand, aborrecidos com frias e difíceis viagens pelas cadeias de montanhas mais assombrosas do mundo, descarregaram seus cavalos e começaram a vender açafrão e instrumentos musicais pelas ruas estreitas da cidade. Os comerciantes chineses, com seus camelos carregados de seda e porcelana, fizeram o mesmo.

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Imagem da Cidade Antiga em Kashgar, em 5 de maio deste ano

Agora, os comerciantes também contam com turistas, explorando as carroças de burros em vielas e prédios feitos de lama que antigamente serviam de vitrinas, e então foram saqueados, por Tamerlane e Genghis Khan.

Agora, Kashgar está perto de ser saqueada novamente.

Novecentas famílias já se mudaram para a cidade antiga de Kashgar, o mais bem preservado exemplo de uma cidade tradicional islâmica encontrada na Ásia central, como escreveu o arquiteto e historiador, George Michell, em 2008, em seu livro Kashgar: Oasis City on China´s Old Silk Road (Kashgar: a cidade oásis na antiga estrada da China, em tradução livre).

Oficiais da cidade disseram que, nos próximos anos, irão demolir ao menos 85% dessa vizinhança pitoresca, com a redução de casas e lojas. Muitas de suas 13 mil famílias, desde muçulmanos até o grupo étnico turco chamado Uigur, serão removidas.

Em seu lugar será construída uma nova Antiga Cidade, uma mistura de prédios de altura média, praças, vielas que desembocam em avenidas e reproduções da arquitetura islâmica antiga para preservar a cultura Uigur, disse o vice-prefeito de Kashgar, Xu Jianrong, em uma entrevista por telefone.

A demolição é considerada uma necessidade urgente porque um terremoto pode acontecer logo, derrubando centenas de prédios antigos e matando milhares. Toda a área de Kashgar está em um local com risco de terremotos, disse Xu. Eu pergunto: o governo de qual país não protegeria seus cidadãos dos riscos de um desastre natural?

Críticos se preocupam com um desastre diferente.

De uma perspectiva cultural e histórica, o plano deles é estúpido, disse Wu Lili, diretor no comando do Centro de Proteção Cultural de Pequim, um grupo não-governamental dedicado à preservação histórica. Da perspectiva dos moradores locais, é cruel.

A reconstrução urbana durante a longa explosão de prosperidade chinesa arrasou muitos centros de cidades antigas, incluindo a maioria de estradas estreitas antigas e pátios de casas da capital, Pequim.

No entanto, Kashgar não é uma típica cidade chinesa. Os oficiais da segurança do país a consideram um terreno criado para um movimento pequeno, mas flexível dos separatistas Uigur, que Pequim afirma ter laços com jihads internacionais. Então, o desenvolvimento deste centro antigo da cultura islâmica vem com certo tom de conformidade.

Oficiais chineses ofereceram explicações um tanto confusas para seus planos. Xu pede a Kashgar um primeiro exemplo da rica história cultural e, ao mesmo tempo, uma cidade majoritariamente turística na China. Além disso, o plano de demolição reduziria a ruínas a principal atração turística de Kashgar, o ímã para milhões de pessoas que a visitam a cada ano.

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Filho de trabalhador dorme em local de demolição na Cidade Antiga

A China apoia um plano internacional para designar os maiores marcos da Silk Road como um dos locais de herança das Nações Unidas ¿ um poderoso esboço para turistas, e um forte incentivo aos governos para preservar áreas históricas.

Mas Kashgar será um local a menos na lista de possibilidades da China. Um oficial estrangeiro que não quis ser identificado, por medo de prejudicar suas relações com Pequim, disse que o projeto da Cidade Antiga tem um forte e incomum apoio do governo.

O projeto, que afirmam custar US$ 440 milhões, começou abruptamente neste ano, logo após o governo central da China dizer que gastaria US$ 584 bilhões em serviços públicos para combater a crise financeira global.

Ele completaria um fragmentado desmanche da velha Kashgar que começou há décadas. A parede da cidade, uma margem com 7,6 metros de grossura de terra com quase 11 metros de altura, foi destruído em sua maior parte. Nos anos 80, a cidade pavimentou os arredores do fosso para criar um rodoanel. E, então, foi aberta a rua principal pelo centro da antiga cidade.

Além disso, muito da Antiga Cidade permanece como era e sempre foi. No topo das 40 mesquitas em formato de bolso, muezins (aquele que convoca os crentes à prece em árabe) ainda convidam para encontros de oração nos estreitos becos: sem falar em voz alta. Centenas de artesãos ainda martelam panelas de cobre, esculpem madeira, afiam cimitarras e vendem pelas ruas tudo, desde pão sírio fresco a torradas grosseiras para crentes islâmicos de chapéu.

E toneladas de centenas de Uigurs ainda vivem no local atrás de portas de álamo esculpidas à mão, muitos pagando aluguéis altíssimos, e outros em casas de dois andares que sobressaem pelas vielas e se abrem para pátios cheios de rosas e anúncios de tecido.

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Moradores andam pelas ruas estreitas da cidade

A cidade diz que os residentes uigurs consultaram cada passo do planejamento. A maioria deles diz que estão sendo intimados para encontros nos quais são anunciados cronogramas de despejo e as somas de recompensas.

Apesar de a cidade oferecer aos moradores despejados novas casas em lugares de suas velhas, alguns também reclamam que a recompensa proposta não paga o custo de reconstrução.

Minha família construiu essa casa há 500 anos, disse Hajji, um musculoso homem de 56 anos com cabelo de militar, enquanto sua mulher servia o chá dentro da casa de dois andares da Cidade Antiga. Foi feita de lama. E reformada ao longo dos anos, mas não teve mudanças nos cômodos.

A casa, no estilo uigur, tem poucos móveis. As tapeçarias ficam penduradas nas paredes e os carpetes cobrem o chão e elevam áreas usadas para dormir ou brincar. O salão de inverno tem um espesso aquecedor a carvão; a garagem foi transformada em uma loja onde a família vende doces e bugigangas. Nove quartos no andar de baixo e sete no de cima, a casa se tornou com os séculos uma mansão nos padrões de Kashgar.

Mas Hajji e sua mulher perderam a economia de suas vidas cuidando de um filho doente, e o pagamento da cidade para demolir sua casa não cobrirá a reconstrução dela. A opção deles é mudar para um apartamento distante, o que os forçará a fechar a loja, a única fonte de renda.

A casa pertence a nós, disse a mulher de Hajji, que se negou a falar o nome. Nesse tipo de casa, muitas, muitas gerações podem viver, uma a uma. Mas se mudarmos para um apartamento, a cada 50 ou 70 anos, ele será destruído novamente.

Esse é o maior problema de nossas vidas. Como nossas crianças podem herdar um apartamento?


Por MICHAEL WINES


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