China tenta assegurar estabilidade na Coreia do Norte

Maior aliado dos norte-coreanos, governo chinês teme que morte de Kim Jong-il eleve tensão na península coreana

The New York Times |

Após a morte do líder norte-coreano Kim Jong-il, a China agiu rapidamente para aprofundar sua influência sobre autoridades de alto escalão da Coreia do Norte, particularmente militares, para tentar garantir a estabilidade do isolado país, de acordo com oficiais chineses e estrangeiros.

A China é o aliado mais importante da Coreia do Norte e os líderes locais esperavam que Kim Jong-il vivesse por pelo menos mais dois ou três anos, tempo suficiente para solidificar o processo de sucessão ao qual já tinha dado início e que passa o poder para seu filho mais novo, Kim Jong-un .

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AP
Homem esconde o rosto com flores ao chegar à Embaixada da Coreia do Norte em Pequim para prestar homenagem a Kim Jong-il (19/12)

Agora, paira no ar uma incerteza sobre o jovem Kim Jong-un ser capaz de consolidar seu poder diante de facções rivais da elite e se ele e outros líderes darão continuidade a iniciativas iniciadas por seu pai, inclusive estudando a China como um modelo para possíveis reformas econômicas. Kim Jong-il fez quatro viagens para a China nos últimos 18 meses em busca de uma série de projetos econômicos e os líderes chineses insistiam com ele para que experimentasse algumas reformas.

A maior preocupação da China é a possibilidade de a morte de Kim Jong-il levar a um aumento na tensão já existente na dividida península coreana. Isso poderia acontecer caso os generais em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, tentem reforçar a sua permanência no poder por meio da agressão contra a Coreia do Sul. Ao contrário da China, onde o Partido Comunista se destaca como a autoridade máxima, os militares mantêm um poder totalitário na Coreia do Norte.

A morte de Kim Jong-il "significa que a China terá de assumir uma pesada responsabilidade sobre as relações, a fim de manter a paz e a estabilidade na península coreana", disse Xu Wenji, professor de estudos do nordeste asiático na Universidade de Jilin e um ex-embaixador chinês para a Coreia do Sul.

Shi Yinhong, professor de relações internacionais na Universidade Renmin, em Pequim, disse que a morte de Kim Jong-il “aumenta significativamente a incerteza na península”. "Na minha opinião, a sucessão foi organizada às pressas e Kim Jong-un está pouco preparado para assumir o poder", afirmou. "Há uma chance considerável de instabilidade política na Coreia do Norte por causa da natureza do regime, do processo de sucessão inadequado e das dificuldades econômicas do país."

À medida que a ansiedade se torna palpável em Pequim, o mesmo acontece com o luto. Pessoas levaram buquês de flores brancas até a Embaixada da Coreia do Norte em Pequim e puderam entrar no prédio. Policiais cercaram o edifício para manter todos os outros à distância. Questionados sobre vistos, um guarda disse: "Volte no próximo ano”. A bandeira no topo do telhado da embaixada foi colocada a meio mastro. Um morador de Pequim com ligações com a Coreia do Norte disse que as operadoras de uma central telefônica de Pyongyang estavam chorando.

Na China, a morte de Kim Jong-il foi manchete dos jornais. A Xinhua, agência de notícias estatal, citou um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Ma Zhaoxu, dizendo que Kim Jong-il foi um "grande líder" e que "a China e a Coreia do Norte vão unir forças para continuar a fazer contribuições positivas".

Houve alguns relatos mais irreverentes. O Netease, popular portal de internet, publicou a seguinte manchete: "A morte de Kim Jong-il mostra a importância de perder peso”. O subtítulo era ainda mais subversivo: "Um governo é como um corpo humano, já que nenhum dos dois pode se dar ao luxo de ser muito gordo”. Na noite de segunda-feira a página ainda estava online.

Os fortes laços entre a China e os dois Kims puderam ser percebidos durante um desfile militar em Pyongyang em outubro de 2010, que foi usado para sinalizar ao mundo que o jovem Kim Jong-um iria herdar o poder. Lá, Zhou Yongkang, membro do Comitê Permanente de Politburo que supervisiona o aparato de segurança pública, sentou na primeira fila com os dois. Depois, Kim Jong-il começou a apresentar gradualmente o seu sucessor a várias autoridades chinesas.

"Neste momento, a China pode ser a melhor chance de estabilidade", disse Bob Carlin, um ex-oficial do Departamento de Estado e pesquisador da Universidade de Stanford que viaja constantemente para a Coreia do Norte. "Eles querem ser os mais bem informados e têm um pouco de influência, além de ter pessoas em consultoria na Coreia neste momento. Todo o resto do mundo é surdo, mudo, cego e tem os braços amarrados atrás das costas”.

John Delury, um estudioso da China e das duas Coreias na Universidade Yonsei, em Seul, disse que "diplomatas chineses são os únicos que podem pegar o telefone e conversar com colegas norte-coreanos sobre o que está acontecendo”. “Isso revela a fraqueza fatal do excesso de dependência de Seul e Washington em sanções nos últimos três anos”, afirmou.

A China quer que a Coreia do Norte se fortaleça como um Estado-tampão que mantém as tropas americanas implantadas na Coreia do Sul a uma distância segura, mas as relações entre os dois países comunistas passaram por momentos complicadas nos últimos anos. As autoridades chinesas não gostaram do súbito bombardeio de Yeonpyeon, uma ilha localizada na Coreia do Sul, no final de 2010 e fizeram lobby para que os líderes da Coreia do Norte se abstivessem de novas ações militares, segundo analistas.
Anteriormente, em 2010, a China foi forçada a enfrentar uma situação constrangedora quando a Coreia do Sul e os Estados Unidos acusaram a Coreia do Norte de afundar o Cheonan, um navio de guerra sul-coreano, com um torpedo. Os Estados Unidos pressionam a China a concordar com sua alegação, mas o governo chinês se recusou.

Esses acontecimentos podem ter aumentado a ansiedade chinesa a respeito da Coreia do Norte, mas também deixaram a Coreia do Norte mais dependente da China para suporte econômico. Dois estudiosos do Instituto Peterson de Economia Internacional, Stephan Haggard e Marcus Noland, estimaram em um artigo publicado este ano que a China e a Coreia do Sul recentemente foram responsáveis por algo em torno de 55% a 80% do comércio da Coreia do Norte. Após o naufrágio do Cheonan, a maioria do comércio com a Coreia do Sul foi interrompido, e assim a China se tornou um parceiro ainda maior do país.

Números sobre o comércio entre os dois países são difíceis de precisar. Um artigo publicado em dezembro de 2010 pelo Serviço de Pesquisa Congressista estimou que em 2009 as exportações da Coreia do Norte para a China chegaram a US$ 793 milhões, enquanto as exportações chinesas para o Norte diminuíram ligeiramente, chegando US$ 1,9 bilhões. O comércio e investimento chinês minaram as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e outras nações à Coreia do Norte para tentar suspender seu programa nuclear.

O comércio pode assumir muitas formas. Susan Shirk, uma ex-oficial do Departamento de Estado e professora de ciência política na Universidade da Califórnia em San Diego, disse que falou com um homem norte-coreano em Pyongyang em setembro que estava conduzindo negociações comerciais entre o seu governo e a China. Ela disse que o coreano trabalha para o Ministério de Comércio Exterior e que estava vendendo minério de ferro para a China a um preço pago a parceiros comerciais de grande porte como a Austrália. Em contrapartida, ele estava comprando milho da China ao preço determinado pela bolsa de Chicago naquele dia.

Os líderes da Coreia do Norte também estão tentando impulsionar a zona de comércio de Rason, localizada na fronteira com a China, e convencer empresários chineses a investir em infra-estrutura turística que inclui um navio de cruzeiro antiquado que faz um percurso entre Rason e o Parque Natural do Monte Kumgang.

Após a morte de Kim Jong-il, a Coreia do Norte "ainda vai depender da China para muita coisa", disse Stephanie Kleine-Ahlbrandt, uma analista baseada em Pequim que trabalha para o International Crisis Group. "A China e a Coreia do Norte estão travando uma dança de interdependência. A China vai ter de continuar a ser um grande benfeitor e bancar a Coreia do Norte. "

Por Edward Wong

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