China reformula clássicos revolucionários

Musical maoísta para os 90 anos do Partido Comunista busca promover estabilidade em vez de rebelião, como pretendia Mao

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O musical do jardim de infância culminou em um turbilhão de violência: uma professora que interpretava um soldado japonês cortou uma camponesa com uma espada curva, enquanto dois tykes em trajes do Exército Vermelho miravam o oponente com pistolas de plástico.

Dezenas de meninas com roupas de seda vermelha começaram a cantar e dançar no pátio da escola, e uma professor usou o microfone para transmitir a lição: "Se você não usa suas defesas, perde sua vida".

O musical maoísta foi ideia da Associação Canção Vermelha, fundada por Zhang Shusen, um advogado bem relacionado e político local. O grupo está na linha de frente de uma reformulação da “cultura vermelha” por parte do governo, que preparou uma elaborada celebração do 90 º aniversário da fundação do Partido Comunista Chinês no dia 1º de julho.

Nos últimos meses, a campanha se espalhou rapidamente por todo o país, depois de suas raízes na metrópole em expansão de Chongqing ter surpreendido muitos chineses e levado à críticas incomuns de moderados e liberais alarmados com a sua ideologia retro-vermelha.

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Crianças chinesas se preparam pra musical com músicas ‘vermelhas’ da Associação de Chongqing, na China
"Quando eu canto, eu sinto um imenso respeito por Wang Erxiao", disse Zhang, 59 anos, sobre a ode clássica a uma criança camponesa martirizada. "E sinto um grande ódio contra os inimigos. O povo da China não deve esquecer o passado. Devemos levar este espírito e usá-lo para construir o nosso novo socialismo”.

A China cresceu muito ao longo de três décadas de reforma econômica e, em muitos aspectos, tem tentado se distanciar da era Mao, quando dezenas de milhões morreram de privação e violência por parte do Estado. Mas líderes do Partido Comunista ainda promovem os mitos e ícones da época para incutir o patriotismo e a lealdade na população.

Essa última medida, iniciada pelo ambicioso chefe do partido de Chongqing, Bo Xilai, está centrada em cantar clássicos comunistas e foi copiada por líderes de uma mobilização nacional para comemorar o 90 º aniversário.

Campanha

Dirigentes do partido disseram a escolas, empresas estatais e comitês de bairros que organizem coros e peças musicais nas escolas, que celebrem clássicos maoístas como O Oriente é Vermelho e Sem o Partido Comunista não Haveria uma Nova China. Em Chongqing, mesmo as prisões estão realizando canto, e um hospital psiquiátrico receitou a música “vermelha” para seus pacientes.

Mas o renascimento vai muito além de apenas canções comunistas na área municipal de 31 milhões de habitantes, cujo núcleo urbano é construído sobre colinas com vista para os rios Yangtze e Jialing. Em iniciativas reminiscentes da era Mao, o governo ordenou que grupos de divulgação da cultura vermelha vivessem com famílias no interior durante um mês, transmitiu slogans maoístas para os moradores através de mensagens de texto e pediu à emissora de televisão via satélite Chongqing que preenchesse o horário nobre com programação educativa sobre a cultura vermelha e retirasse toda a publicidade comercial.

A campanha se tornou um ponto de ostentação para as elites liberais desconfiadas de qualquer retorno à ideologia maoísta. Alguns estão criticando corajosamente o renascimento vermelho, que argumentam ser uma tentativa de retratar a propaganda comunista como a cultura indígena. O que eles veem como a verdadeira cultura tradicional chinesa, eviscerada durante o governo de Mao, recebe muito menos apoio oficial.

A ironia maior, dizem os críticos, é que a cultura vermelha seja agora usada para promover a estabilidade social em vez de rebelião, como Mao tinha pretendido. "Nessa época absurda, eles o incentivam a cantar canções revolucionárias, mas não o incentivam a realizar uma revolução", disse He Bing, vice-reitor da escola de Direito da Universidade de Ciências Políticas e Direito da China. Surpreendentemente, a plateia formada por advogados, juízes e policiais aplaudiu freneticamente.

Zhang Ming, um cientista político na Universidade de Renmin e membro do partido, disse em uma entrevista: "As músicas que estão cantando, agora são canções rosa e não canções vermelhas”. O partido nunca encoraja clássicos da Revolução Cultural como A Internacional ou É seu Direito se Rebelar, ele acrescentou.

"As músicas 'vermelhas' falam na sua maioria sobre a revolução e a violência", disse ele. "Agora o governo usa as canções vermelhas para elogiar o partido e os membros do partido, por isso elas são inúteis”. Apesar das críticas, o renascimento provocou nostalgia entre alguns chineses da era Mao, até mesmo aqueles que viveram os seus horrores. Para eles, a cultura vermelha evoca os ideais simples e o puro patriotismo desse período mais do que os traumas por que passaram. E as canções vermelhas são as música de sua infância.

Memória

"As canções vermelhas não me lembram de nenhuma revolução", disse Zhao Chunyu, um aposentado de 70 anos de idade, que cantou Ode à Pátria em uma manhã recente em uma plataforma de karaokê construída pelo governo no Parque E'ling. Zhao também canta em um coral vermelho de 50 pessoas organizado pelo comitê do partido da vizinhança. "Eu cresci com a nova China. Minha educação e o meu trabalho advém do partido. Eu canto essas canções para lhes agradecer”.

Tal amnésia histórica é evidente em toda Chongqing, local de alguns dos mais ferozes combates entre os Guardas Vermelhos durante a Revolução Cultural. Facções usaram granadas, metralhadoras, lança-chamas, tanques, barcos e canhões de artilharia umas contra as outras. Agora, no Parque Shaping, tomado por folhas verdes, um coral de aposentados se reúne três vezes por semana para cantar hinos sobre Mao, a apenas 50 metros de um cemitério onde centenas de guardas vermelhos se encontram enterrados sob lápides altas.

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Zhang Shusen, fundador da Associação Canção Vermelha, em Chongqing
Bo, o líder do partido local, anunciou a campanha cultura vermelha em 2008, na mesma época em que começou uma unidade anti-corrupção, na tentativa de conseguir uma promoção em Pequim, disseram analistas. Um ano depois, Zhang fundou a Associação Canção Vermelha.

É uma organização tipicamente opaca e semioficial. Zhang disse que é registrado com a Associação Chinesa de Coro no Ministério da Cultura e com o governo de Chongqing, mas não conseguiu qualquer patrocínio. Ele tem quatro funcionários e cerca de 100 voluntários. A organização funciona com um "escritório de liderança da cultura vermelha" no departamento de propaganda de Chongqing e realizou cerca de 104 mil performances em Chongqing antes deste ano. "Nossa economia está se fortalecendo e nossas vidas estão melhorando, mas em termos de moral, há muitas pessoas que estão falhando", disse Zhang um dos restaurantes da cidade, onde começou a cantar entre mordidas de tripas e fígado. "Quando cantamos músicas vermelhas, podemos garantir que os pensamentos e as ideias em nossos corações são adequados".

Em sua adolescência, Zhang fio um Guarda Vermelho, em Chongqing, disse ele, mas não lutou porque seus pais o fizeram ficar em casa. "Eu não participei e me arrependi disso a minha vida inteira", disse ele. Depois disso, ele teve aulas de música e mais para frente estudou para se tornar um advogado. Ele começou uma empresa, que conta com grandes empresas estatais entre seus clientes.

Um objetivo inicial da Associação Canção Vermelha era uma produção especial para o 90 º aniversário, portanto Zhang se aproximou do gabinete do partido na cidade para discutir como retratam alguns elementos históricos. Ele descobriu que o gabinete teria de produzir um espetáculo em 2010 para o 65º aniversário da derrota japonesa. Eles pediram a sua ajuda, ele disse. O evento televisionado ocorreu em setembro no Salão do Povo. Bo apareceu, cantando duas vezes e apresentando os veteranos do Exército Vermelho.

O grupo de Zhang tem estado ocupado desde então. Entre seus projetos principais está o envio de voluntários a 100 escolas para ensinar as clássicas canções comunistas. Afinal de contas, foi uma visita a uma escola em maio de 2008 que inspirou Bo a começar toda a campanha, de acordo com o jornal Chongqing Daily. O chefe do partido teria ordenado que oficiais da educação garantissem que cada aluno pudesse cantar 10 canções vermelhas depois de descobrir que as crianças que ele conheceu não sabiam a letra de Ode à Pátria.

*Por Edward Wong

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