China censura discussão online sobre saúde de ex-líder do partido

Governo faz mistério sobre estado de Jiang Zemin e busca reprimir rumores sobre morte do ex-presidente que foi chefe do Partido Comunista

The New York Times |

O que a pequena província de Jiangsu, o cantor Jiang Yirong e o Hospital Huadong de Xangai têm em comum? Ao longo do ultimo dia, essas e dezenas de outras palavras e expressões foram bloqueadas em boa parte da internet chinesa, resultado da incansável tentativa do governo de reprimir rumores de que o ex-líder político Jiang Zemin esteja morto ou morrendo.

Não surpreendentemente, o esforço para silenciar a especulação sobre o bem-estar de Jiang, 84 anos, que oficialmente se aposentou como chefe do Partido Comunista Chinês em 2002 e como presidente em 2003, tem gerado ainda mais boatos desde sexta-feira passada, depois que ele deixou de comparecer à festa comemorativa dos 90 anos da inauguração do partido governista da China.

A única coisa que as autoridades não fizeram foi divulgar uma declaração oficial pública sobre a condição de saúde de Jiang. Embora o partido dominante da China não tenha suprimido notícias sobre a morte de um líder importante nos últimos anos, os oficiais raramente, ou nunca, discutem a saúde de líderes atuais ou antigos, e proibiram a cobertura jornalistica sobre o assunto.

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Retratos do ex-líder Jiang Zemin (E) e do atual presidente chinês, Hu jintao, em exposição de 2009
"Eu não quero acreditar em boatos, mas o que eu devo fazer quando os rumores sempre são verdade neste país?", disse uma publicação no famoso site de microblogging Sina Weibo, que na quarta-feira parecia estar sob censura.

Em muitos casos, as palavras ofensivas contém o caractere "Jiang", o sobrenome do ex-líder, que também significa "rio" em chinês. "Huadong", outra palavra que não pode ser procurada, é o nome do hospital de primeira linha onde Jiang, que já foi secretário-geral do Partido Comunista Chinês, pode ou não ter sido tratado de um ataque cardíaco, um AVC ou da picada de um mosquito contagioso – todas as doenças alternadamente atribuídas ao seu desaparecimento do público.

Boato?

Especulações online têm repetido como um fato o boato de que o respirador que supostamente tem mantido Jiang vivo seria desligado no dia 08 de julho. O número oito é considerado de sorte entre os chineses, porque rima com a letra que significa prosperidade. (Embora sejam possivelmente falsos, há relatos que dizem que os aparelhos que mantinham Mao Tsé-Tung vivo foram desligados no dia 9 de setembro de 1976 porque o nono dia do mês seria uma data fácil para as massas se lembrarem.)

Jiang apareceu pela última vez em público em 2009, quando ele se juntou a outros líderes para assistir a um espetáculo militar que marcou o 60º aniversário da República Popular da China.

A discussão sobre a morte iminente de Jiang tem permeado a internet várias vezes ao longo dos anos. Mas sua incapacidade de comparecer à celebração do 90 º aniversário, um evento obrigatório tanto para líderes antigos quanto para os atuais, aumenta a probabilidade de que ele esteja de fato enfermo.

Uma emissora de televisão de Hong Kong chegou a transmitir a notícia da morte de Jiang, apenas para negá-la posteriormente. E websites chineses no exterior, que se especializam em fofoca política, tem afirmado que ele morreu na noite de terça-feira ou que um grande número de policiais foi visto diante do hospital de Pequim, que atende a altos dirigentes do partido. (Não surpreendentemente, essa instituição, o Hospital Militar 301, não pode mais ser pesquisados na internet.)

Sam Crane, um especialista em China na Faculdade Williams, sugere que a máquina de censura do governo é contraproducente. "Isso os faz parecer muito tolos", disse ele. "O Estado está tentando controlar a informação para que possa controlar a narrativa, mas na era da internet isso é cada vez mais difícil de se fazer".

A narrativa sobre os líderes do Partido Comunista sempre foi um assunto preocupante na China. A morte de líderes anteriores se mostrou politicamente perturbadora. Em 1976, após a morte do amado premiê Zhou Enlai, os líderes partidários tentaram suprimir o luto público. No fim, cerca de 2 milhões de pessoas desafiaram as autoridades se reunindo na Praça da Paz Celestial, onde criticaram Mao e os excessos de sua Revolução Cultural.

Uma década depois, a morte inesperada do secretário-geral Hu Yaobang levou a uma onda de tristeza pública na Praça da Paz Celestial, que se transformou em um protesto em massa contra o partido. Esse episódio, que terminou em uma saraivada de tiros em 4 de junho de 1989, abalou o núcleo do partido.

A morte de Jiang Zemin, cujo mandato não foi especialmente saboreado pelos liberais chineses, provavelmente não atrairia uma reação emocional do público. Mas o Partido Comunista não gosta de deixar nada ao acaso.

Roderick MacFarquhar, especialista em China da Universidade de Harvard, disse que mesmo que o rumor sobre a saúde de Jiang seja verdadeiro, o partido nunca chegou a esconder a notícia da morte de um líder sênior. Qualquer atraso, mesmo que breve, pode ser destinado a permitir que os membros do Comitê Permanente de Politburo possam preparar seu obituário e elogio público, que, presumivelmente, será feito pelo presidente Hu Jintao, que o sucedeu como chefe do partido. "Eles precisam de tempo para se preparar, não tanto para o funeral, mas para a descrição do homem e seu lugar na história do Partido Comunista Chinês", disse MacFarquhar.

Nesse meio tempo, a forma como o governo tem lidado com o assunto parece estar sendo particularmente ridicularizada na internet, especialmente no Twitter e em outros sites no exterior que estão além do controle dos censores de Pequim. Na quarta-feira, as pessoas começaram a circular fotos de Jiang apertando a mão do ex-líder Deng Xiaoping ("eles se encontram de novo") e uma caricatura de calças penduradas em um varal, uma referência a um eufemismo chinês para a morte.

*Por Andrew Jacobs

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